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Expansão dos evangélicos na Amazônia vai continuar


Publicado em 03.02.2017

O fenômeno do crescimento das igrejas evangélicas na maior região do Brasil é o tema do livro "Expansão evangélica e migrações na Amazônia brasileira", da editora IRD-Karthala. A obra é resultado de um extenso trabalho de pesquisa e observação feito pela antropóloga Véronique Boyer, diretora do Centro Nacional de Pesquisa Científica da França (CNRS).

No início, sua pesquisa seria concentrada nas igrejas pentecostais, mas ao sair em campo e entrevistar os diversos moradores e representantes das diversas comunidades religiosas, mudou sua percepção do tema. "Já tinha lido vários livros que identificaram várias denominações dessas igrejas (evangélicas). Mas quando comecei a conversar com as pessoas no terreno, percebi que essas classificações não tinham muita importância para eles porque sejam da Assembleia de Deus, da Igreja Batista, da Presbiteriana ou de outros Igrejas, todos se viam como diferentes da Igreja Católica. O que une essas Igrejas é o fato que elas são cristãs não-católicas", explica.

Para compreender o fenômeno, segundo a pesquisadora, é preciso também entender o processo histórico da implantação das religiões evangélicas no território pesquisado, que inclui sete estados da região amazônica. A antropóloga identificou duas grandes fases da presença dessas comunidades religiosas. A primeira, que vai até os anos 1950, se caracteriza pela presença de missionários estrangeiros, enviados à região pelas Congregações em seus países de origem. A segunda teve outras características. "A partir dos anos 1960, temos um outro perfil. O de missionários brasileiros, enviados por suas Igrejas entre os migrantes da época ", afirma.

A expansão também se dá, de acordo com Véronique Boyer, devido à confluência de dois grandes movimentos que acontecem de maneira concomitante: a mobilidade religiosa interna das Igrejas e a migração do espaço. "No começo, eu pensava que a presença evangélica era mais forte nos centros urbanos, que se dava das cidades para o interior. Não é bem assim que acontece. Quando a gente observa melhor os dados demográficos, percebemos que a presença evangélica é tão forte no meio rural quanto no meio urbano", diz.

Experiência das comunidades de bases católicas
Outro aspecto destacado no trabalho da antropóloga foi a expansão das igrejas evangélicas a partir de uma experiência da religião católica. Ao disseminar o trabalho eclesiástico com a criação das chamadas "comunidades de base", ela permitiu a formação de núcleos de povoados que passaram a ter uma melhor representação e influência em relação ao Estado.

"Isso provocou a criação de várias funções religiosas e levou a uma associação entre o universo religioso e o universo político local", afirma Véronique. No entanto, no decorrer desse processo, algumas pessoas não conseguiram alcançar a representação que gostariam, principalmente mulheres e jovens, e foram atraídos por outras congregações onde puderam exercer novas funções. "Essas Igrejas criaram novas representações e recomposição do espaço social, político e religioso ao mesmo tempo", afirma.

Em muitos casos, a implementação de comunidades evangélicas geraram conflitos com os católicos. No livro, a antropóloga relata o caso da cidade de Castelo, no interior do Pará, onde a chegada de um casal de evangélicos provocou tensão social e uma disputa por poder e influência nos moradores. "Muitos que dominam a comunidade católica não querem que se forme uma entidade concorrente e que vai questionar o poder que eles centralizaram", explica.

Promoção na hierarquia da Igreja
Boa parte do livro também é dedicada ao trabalho dos pastores e evangelistas que também procuram conquistar espaço na hierarquia de sua Congregação. "Quando esse ‘crente', ou pelo menos que se diz ‘crente' consegue atrair um número de pessoas que ele considera importante, vai negociar uma posição na hierarquia constitucional da Igreja", constatou a pesquisadora.

A expansão verificada principalmente nas últimas décadas de diferentes igrejas evangélicas na região amazônica tende a se manter, de acordo com a antropóloga. "A força do movimento evangélico é sua capacidade de se fragmentar. Essas Igrejas têm um foco de criar laços sociais e de criar espaços onde as pessoas podem se ajudar. Por isso o crescimento continuará", conclui.

Fonte: RFI, 16/ 12/ 2016

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