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Cresce o número de pessoas que declaram não ter filiação a uma igreja


Publicado em 04.01.2017

Enquanto os belo-horizontinos se veem às voltas com a polêmica obrigatoriedade do ensino religioso em escolas municipais, proposta aprovada pelos vereadores e à espera da sanção ou do veto do novo prefeito, Alexandre Kalil, pesquisa do Datafolha mostra que a fé dos brasileiros vem mudando, e em ritmo acelerado. Cresce no país o número de pessoas que praticam ritos religiosos, mas não se identificam com alguma instituição. Segundo o levantamento, 14% da população não tem religião definida. Em 2010, o índice era de 6%.

Professor do curso de pós-graduação de Ciências da Religião da PUC-Minas, Flavio Senra estuda especificamente o comportamento das pessoas que autoafirmam não ter religião. Segundo ele, há três fatores que explicam o aumento desse grupo.

"Trabalho com três hipóteses. A primeira é a desinstitucionalização das religiões. A segunda é a individualização da crença, em que a pessoa acredita no que quer e não no que a instituição apresenta. A terceira é o fator evangélico, pois desde a modernidade os protestantes buscam um fortalecimento do próprio indivíduo com Deus", explica Senra.

Para o especialista, as pessoas querem ter liberdade de crença e de compromissos, sem ter que lidar com as obrigações relacionadas às religiões. "Mesmo sem frequentar uma igreja, muitas vezes a pessoa continua a ter uma relação com elementos mágicos. Ela acende velas ou vai a um centro (de umbanda) tomar um passe, por exemplo", completa.

Admiração
O professor de História Gilmar Rodrigues, de 29 anos, é um caso entre milhões de brasileiros que foram criados em um ambiente católico, mas deixaram de seguir a religião na fase adulta. Na pesquisa do Datafolha, 50% dos entrevistados disseram ser católicos. Eram 63% no levantamento anterior.

Gilmar foi batizado, catequizado, crismado, mas não se sentia satisfeito com o que a Igreja Católica oferecia. Trafegou, então, por outras religiões, mas não se sentiu acolhido em nenhuma. "Em todas, me decepcionei com a mesma coisa. Via pessoas que pregavam coisas muito bonitas, mas na vida real não praticavam o que estavam dizendo", afirma Gilmar.

O professor continua a acreditar em Deus e, hoje, demonstra uma admiração pela pluralidade de religiões existentes no Brasil e no mundo. Tanto que, dentro de casa, ele guarda ícones de várias religiões, como catolicismo, judaísmo e hinduísmo. As imagens de São Jorge revelam a admiração de Gilmar pelo sincretismo brasileiro. "Gosto muito de símbolos e rituais religiosos. Entendo que a religião está presente em muitos momentos de nossas vidas", afirma.

Decepção
A garçonete Mariana Lustosa, de 30 anos, teve um contato muito intenso com o catolicismo durante a infância e adolescência. Quando morava em Brasília, ia a missa duas vezes por semana e era uma admiradora da linha carismática. Após sua mudança para Belo Horizonte, o contato com a instituição se transformou.

Em outra cidade, aprendeu a olhar o mundo por uma ótica diferente. "Fui frequentando outros lugares, conhecendo novas pessoas, saindo um pouco do meu círculo de amizades", lembra. "Eu rezo, faço minhas orações, sinto que eu e Deus somos melhores amigos. Aprendi que a igreja nos faz sentir medo e acredito que Deus não quer isso", completa.

Assim como ela, o músico Luiz Ramos, de 33 anos, também deixou de ter uma religião depois de um contato intenso com uma instituição. Por influência da mãe, frequentou semanalmente uma igreja evangélica até a adolescência. Fazia orações, lia a Bíblia e seguia os preceitos da religião.
Passou a sentir uma incompatibilidade após viajar para uma colônia de férias da igreja. "Via uma incoerência no discurso das pessoas, que falavam de amor, mas eram intolerantes com outras religiões", conta o músico.

Atualmente, Luiz busca compreender a própria espiritualidade por meio da leitura de obras sobre religiões e diferentes correntes filosóficas. "O cristianismo prega o amor ao próximo, o bem, a generosidade, o altruísmo, mas essa não é a única religião com essas diretrizes".

Comunidade
Para Rodrigo Coppe Caldeira, professor de Ciências da Religião da PUC-Minas, o declínio do número de fieis nas igrejas atrapalha a vivência em comunidade que as religiões proporcionam. "Mais do que experiências religiosas, nas igrejas as pessoas têm experiências em comunidade. Fica mais complicada a transmissão da religião e de valores, além da transmissão da tradição", afirma o professor. "Num mundo de capitalismo avançado, as religiões passam a ser produtos que podem ser consumidos como cada um quiser. A religião se adapta ao gosto das pessoas, e não o contrário, como acontecia antes".

Crer sem pertencer
Não é difícil encontrar evangélicos que afirmam participar do movimento internacional "Crer sem Pertencer", trafegando por diferentes igrejas, sem se ligar oficialmente a alguma delas. Como a dona de casa Marisa Ribeiro, de 37 anos, que já foi a igrejas como Universal do Reino de Deus e Quadrangular, mas não escolheu nenhuma para frequentar com assiduidade. "Às vezes tenho vontade de voltar a ir, pretendo fazer isso no futuro".

Esse comportamento tem sido cada vez mais crescente entre os evangélicos, segundo Flávio Senra. "Pude acompanhar discursos de alguns pastores e observei a afirmação de que ali, no culto, não havia uma religião. Não é uma recusa, mas um discurso que faz com que as pessoas se sintam mais integrantes de um grupo, de uma família, do que membro de uma igreja", afirma.

A mobilidade entre religiões é um fenômeno com que o catolicismo teve sempre de lidar no Brasil. É muito comum por aqui encontrar pessoas que transitam entre a Igreja Católica, a umbanda, o candomblé e o espiritismo. "O tecido social brasileiro é ainda muito católico e é um catolicismo muito popular e particular. Houve uma mescla entre a cultura ibérica e as crenças indígenas e africanas", explica Senra.

E mais:

Religião tem um papel fundamental nas comunidades mais carentes
A produtora de cinema Débora Lucas, de 28 anos, não segue nenhuma religião hoje, mas acredita que a formação católica recebida na infância e juventude foi muito importante para seu crescimento pessoal - chegou até a atuar como catequista. Para ela, a religião tem um papel fundamental nos bairros mais carentes de equipamentos culturais e esportivos. "Na periferia, ou você se envolve nas atividades da igreja ou não tem atividade nenhuma, especialmente na adolescência. A igreja era quase uma proteção para as famílias envolverem os filhos, por meio da catequese e dos grupos de jovens. Era isso ou engravidar aos 14 anos, como aconteceu com muitas amigas", afirma Débora, que prefere acreditar em Deus de uma maneira própria, bem diferente do que aprendeu no catolicismo.

Ensino religioso poderá ser benéfico se não se aproximar do catecismo
A Câmara Municipal de Belo Horizonte aprovou uma lei que torna o ensino religioso obrigatório nas escolas municipais, que não foi sancionada pelo ex-prefeito Marcio Lacerda. "Se o ensino mostrar aos alunos as religiões dentro da História, quais são as várias religiões, isso pode ser muito bom. É muito importante se falar sobre religião em um mundo em que tudo é muito efêmero", afirma o especialista Rodrigo Coppe Caldeira. O professor Gilmar Rodrigues vê a lei com desconfiança. "Eu tive aulas de ensino religioso enquanto estudava numa escola pública de Contagem. Era aula sobre cristianismo, nunca se abordou outras religiões. Se for para ser aula de catecismo, acredito que será improdutivo. Mas se for bem trabalhado pelos professores, poderá ser uma aula interessante", opina o educador.

Escritora deixou de acreditar em deus após um contato intenso com a igreja
Embora o número de pessoas sem religião cresça muito, a pesquisa do Datafolha indica que não houve crescimento no número de ateus (representam 1% dos 2.828 entrevistados). Mesmo assim, sabe-se que há muitas pessoas que deixam de acreditar em um Criador após um contato intenso com alguma religião. A escritora Andreia Donadon Leal, de 43 anos, moradora de Mariana, foi uma católica bastante assídua, com direito a assistir a missas em todos os domingos. Mas ao se casar com um ex-seminarista e levar um debate sobre religião para dentro de casa, passou a se ver como ateia. "Percebendo que Deus é criatura e não criador, minha fé foi radicalmente mudada, especialmente porque o Deus da religião é um ser que pune, e isso é incompatível com a ideia de um Deus justo e bom", diz Andreia, que gosta de ler sobre as mais diferentes religiões.

Fonte: Hoje em dia, 02/ 01/ 2017

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