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Berlim vai abrigar igreja, mesquita e sinagoga sob o mesmo teto


Publicado em 03.07.2018

Em meio à intolerância religiosa vivida no mundo neste início de século, Berlim quer se tornar a capital da compreensão e da diversidade da fé. Uma cidade que, nos últimos 80 anos, foi destruída pela guerra, dividida por um muro durante 28 anos e que agora, reunificada e uma das metrópoles mais cosmopolitas do planeta, recebe refugiados e imigrantes de todos os continentes. Um lugar onde o novo e o velho contrastam e onde, em cada esquina, se fala um idioma diferente. É nesse cenário que começa a ganhar forma um projeto inovador e ousado: a House of One ("casa de um"), templo que vai reunir, sob o mesmo teto, uma mesquita, uma igreja e uma sinagoga.

A iniciativa materializa um desejo expresso pelo pastor protestante norte-americano Martin Luther King, logo após receber o Prêmio Nobel da Paz de 1964: "Nós herdamos uma grande casa, uma casa mundial, na qual nós vivemos juntos - negros e brancos, ocidentais e orientais, gentios e judeus, católicos e protestantes, muçulmanos e hindus - uma família com membros separados desde sempre em ideias, culturas e interesses e que impossibilitados de viverem separados, devem aprender, de alguma forma, a viver uns com os outros em paz". É a isso que o projeto se propõe: convivência e troca de conhecimento.

A ideia foi concebida pela paróquia protestante de São Pedro e Santa Maria, de Berlim, depois que escavações arqueológicas realizadas de 2006 a 2009 revelaram as fundações das antigas igrejas da Petriplatz (Praça de Pedro). Após os achados, ficou claro para os membros da comunidade cristã que um novo projeto deveria ser pensado para o local que antigamente abrigava a igreja de São Pedro: Berlim precisava encontrar seu futuro revisitando as raízes de seu passado e de sua vida em comunidade.

- Percebemos que o novo projeto não deveria ser uma igreja, mas, sim, um edifício que correspondesse à nova situação da nossa sociedade, agora pluralista e religiosamente diversa. A comunidade (de São Pedro e Santa Maria) procurou parceiros de outras religiões e, junto com eles, o conceito House of One foi desenvolvido - explica o pastor Gregor Hohberg, um dos idealizadores e líderes do projeto.

Assim, em outubro de 2011, a associação Bet-und Lehrhaus Petriplatz Berlim ("casa de oração e aprendizado da Praça de Pedro") foi fundada como uma estrutura de apoio institucional ao projeto, para estabelecer igualdade na tomada de decisão entre as três religiões.

Os membros fundadores da entidade são a Comunidade Judaica de Berlim e o Geiger Colégio Abraham (como parceiros judeus), o Fórum para Diálogo Intercultural (parceiro muçulmano) e a Paróquia de São Pedro e Santa Maria, juntamente ao Círculo Evangélico do Centro de Berlim (parceiros cristãos). Em 2012, uma competição global de arquitetura escolheu o projeto que seria implementado. Dois anos depois, em 2014, teve início a campanha para arrecadação de fundos e, embora a Casa de Um ainda não tenha sido construída, já existe uma vida ativa, com encontros e celebrações em conjunto pelos fiéis das três religiões.

Três religiões marchando juntas
Para iniciar o diálogo e abrigar os eventos, foi construído, no começo deste ano, no local onde futuramente estará o prédio House of One, um pavilhão, que, além de local dos encontros já realizados, serve para divulgar as ações do projeto e arrecadar fundos. No lugar, frequentemente ocorrem momentos de meditação e de oração entre as três comunidades. Grupos religiosos, escolas e universidades visitam o local - em abril, por exemplo, estudantes de arquitetura da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) conheceram o projeto. A delegação interreligiosa, além de receber a visita de grupos de diversos países, também viaja para divulgar o projeto e as ações que buscam comprovar a possibilidade de uma coexistência pacífica. Recentemente, uma delegação esteve na França e outra, de Bangladesh, visitou Berlim.

No final de abril, judeus, muçulmanos e cristãos marcharam juntos, todos usando quipás em apoio à comunidade judaica, após dois jovens com o chapéu característico dos judeus terem sido atacados em Berlim.

O local para a edificação da House of One é carregado de significado: a Petriplatz é onde, segundo registros históricos, foi fundada aquela que, no futuro, seria a cidade de Berlim. O primeiro morador da cidade foi um padre da Igreja de São Pedro, mencionado em um documento datado de 1237 como o ano da fundação do município.

Desde meados do século 13, o local abrigou várias igrejas, destruídas por diferentes razões.

A mais recente, construída de 1846 a 1853, foi seriamente danificada na II Guerra Mundial, mas resistiu. No entanto, após o fim dos confrontos e a derrota da Alemanha, ficou na parte Oriental da cidade, socialista, vinculada à União Soviética, ateísta, e foi completamente demolida.

Nos anos 2000, com a Alemanha já unificada, escavações arqueológicas foram feitas no local e restos das antigas construções foram achados. E é justamente sobre essa base que a House of One será construída, em terreno cedido pela prefeitura. Se o projeto prosperar e as três religiões monoteístas puderem viver em harmonia, Berlim quer encontrar seu futuro no próprio lugar de seu nascimento.

Brasileiros também fizeram doações
O novo edifício será estruturado para que cada uma das religiões tenha seu próprio espaço de culto separado, mas essas salas sagradas vão se abrir em um espaço central compartilhado. O projeto está orçado em 43,5 milhões de euros e foi planejado para ser executado em módulos. A previsão é de que o prédio comece a ser construído em 2019, mas, para isso são necessários 10 milhões de euros. Até o final de maio, já havia sido arrecadado 8.605.695 euros. A forma mais popular de doações é por meio de tijolos. Cada um custa 10 euros.

Não se trata exatamente de uma doação física, de um objeto, mas, isso sim, de uma representação. Do Brasil, 16 pessoas já realizaram contribuições, em um total de 43 tijolos. O país que mais contribuiu, claro, é a Alemanha, com 104.230 tijolos.

Um projeto ousado e sem referências exigiu empenho e criatividade, além de muito estudo, pois cada uma das religiões tem suas especificidades e as salas devem atender às necessidades de cada comunidade. Por exemplo: há separação dos gêneros nas áreas judaica e muçulmana.

Wilfried Kuehn, arquiteto do escritório Kuehn Malvezzi, de Berlim, foi o autor do projeto vencedor do concurso mundial, realizado em 2012, que escolheu o projeto arquitetônico a ser implantado no local.

- Observando de fora, da rua, o prédio é uma unidade. Com suas formas cúbicas claras e paredes maciças de tijolos, seu uso real não é imediatamente aparente para as pessoas que passam pelo local, mas isso é intencional - explica o arquiteto. - Porém, internamente, criamos as condições espaciais para o diálogo entre as religiões, preservando suas relações de proximidade e distância.

Por esse motivo, a sala central, compartilhada, desempenha um papel crucial: funciona, ao mesmo tempo, como um espaço de encontro e de passagem para os visitantes.

- A ideia é que sinagoga, igreja e mesquita em torno desse espaço central sejam como casas ao redor de uma praça. Os três espaços sagrados têm o mesmo volume, mas as formas e suas características arquitetônicas foram desenvolvidas conforme as liturgias de cada uma das três religiões - esclarece Kuehn.

O espaço comum à sinagoga, à igreja cristã e à mesquita, uma sala central, estará permanentemente aberto para pessoas de todas as religiões e até mesmo para ateus que visitarem a House of One: o objetivo é o diálogo e a boa convivência.

Por meio de grandes janelas, no piso térreo, será possível observar os achados arqueológicos da década passada, dos primórdios de Berlin. Além disso, haverá um local para exposições históricas, o que reforça o caráter cultural do espaço.

- Encontramos nossa motivação e força em nossa próprias tradições religiosas. Cultivamos essas tradições de fé em nossas próprias salas sagradas, separadamente. Na quarta sala e na casa como um todo, a qual assumimos cuidar em conjunto, trocamos nossas experiências de fé, aprendemos uns com os outros e buscamos formas viáveis para uma coexistência pacífica - explica o pastor Hohberg.

O exemplo dos líderes
A Alemanha tem sua história fortemente marcada pela religião. Há 500 anos, Martim Lutero formulou 95 teses questionando a Igreja Católica, base para a Reforma Luterana e para o nascimento do Protestantismo. Na II Guerra Mundial, o governo nazista de Hitler foi responsável pela execução de 6 milhões de judeus. Depois, com o fim da guerra e a divisão da Alemanha, na parte socialista se disseminou o ateísmo. A partir dos anos 1970, cresceu o número de muçulmanos na Alemanha, com a chegada de trabalhadores turcos e de suas famílias para suprir a falta de mão de obra.

Mais recentemente, a partir de 2015, com a crise dos refugiados e a política de portas abertas alemãs, o número de muçulmanos no país cresceu ainda mais, reforçando a sensação de diversidade étnica e cultural representada por Berlim.

À primeira vista muito distantes, as três religiões também têm semelhanças. De acordo com a carta assinada pelas três comunidades, a ideia da House of One não é mudar hábitos e crenças de nenhuma delas, mas fortalecer esses pontos em comum.

- As três religiões têm uma história comum. As três acreditam em um só Deus. Eles têm uma compreensão comparável da religião e compartilham esperanças comuns para o futuro, fé no Juízo Final e uma vida reconciliada com Deus no céu - explica o pastor Hohberg.

O rabino Andreas Nachama, um dos líderes judeus do projeto, reforça que as três religiões compartilham partes da narrativa bíblica, como a história de Noé. Além disso, são responsáveis por zelar pelo mesmo Deus e por cuidar da casa comum de todos nós - o mundo em que vivemos.

- Todas as religiões sabem que existem diferentes caminhos para Deus: sunitas, xiitas, alauitas, para citar apenas alguns exemplos do Islã. Luteranos, calvinistas, católicos romanos ou cristãos ortodoxos, no cristianismo. Progressistas, conservadores e ortodoxos no judaísmo. Muitos caminhos levam a Deus. A Menorá, para usar exemplo de símbolo judaico. Com seus muitos ramos, ela representa o todo. Cada um deles é importante. E, se você pegar apenas um, a Menorá é quebrada. Em outras palavras, todos pertencem a um conjunto - explica o rabino.

A visão também é partilhada pelo imã Osman Örs, um dos líderes muçulmanos da House of One:

- A crença em um Deus é a característica essencial que une as três religiões, mesmo que existam diferentes interpretações na natureza de Deus. Além disso, as três religiões se veem na mesma linhagem e tradição abraâmicas. No Alcorão, encontramos menções também a Moisés e a Jesus. Ambos são muito valorizados em seu trabalho e vida e também são modelos para os muçulmanos.

O imã explica que o Alcorão enfatiza, em vários trechos, que Deus criou as pessoas na diversidade para que elas se conheçam e respeitem as diferenças umas das outras e vivam em paz.

- Considero enriquecedor compartilhar uma casa com meus irmãos cristãos e judeus e aprender com eles - comenta o imã. - Não devemos ter medo de conhecer outras pessoas. O encontro e o diálogo são sempre enriquecedores para si e necessários para criar coesão e harmonia social. Se a empatia e a compreensão crescem do nosso encontro, significa sucesso para uma convivência respeitosa. A paz não é o nosso objetivo final, mas, sim, o caminho que percorremos juntos e responsavelmente faz parte da nossa paz. Percorrer esse caminho é decisivo. Para ele, não é só possível, como é necessário conviver com as diferenças:

- A diversidade de nossas religiões é a vontade de Deus, e é uma força. Nós aprendemos muito um com o outro porque somos diferentes. Ninguém possui toda a verdade.

Os três líderes são unânimes ao eleger o respeito como a chave para o sucesso do projeto.

- Todas as pessoas são filhos de um único e mesmo Deus.

Como em uma boa família, todos pensam que o seu é o caminho verdadeiro. Então: respeite um ao outro e o mundo, pelo menos no nosso entorno, onde nós mesmos somos os responsáveis, o ambiente será pacífico e melhor - resume o rabino Andreas Nachama.- Percebemos que o novo projeto não deveria ser uma igreja, mas, sim, um edifício que correspondesse à nova situação da nossa sociedade, agora pluralista e religiosamente diversa.Todas as religiões sabem que existem diferentes caminhos para Deus.

Fonte: Gauchazh, 29/ 06/ 2018

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