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Aos 500 anos da Reforma Protestante, uma proposta ética para nossos dias


Publicado em 30.10.2017

Em fins de outubro de 1517, o monge agostiniano e professor da Universidade de Wittenberg (Alemanha), doutor Martinho Lutero (1483-1546), enviou uma carta ao arcebispo Alberto de Mogúncia reclamando sobre a venda de indulgências. Indulgências são declarações de perdão concedidas pela Igreja e, segundo Lutero, não poderiam ser comercializadas.

Lutero anexou à carta um documento, posteriormente conhecido como "95 teses contra a venda de indulgências", por meio do qual defendeu que o perdão dos pecados deveria ser anunciado gratuitamente mediante o sincero arrependimento da pessoa. O documento "viralizou" e se espalhou rapidamente pela Europa, dando início ao movimento conhecido como Reforma. O dia 31 de outubro de 1517 foi definido como Dia da Reforma. Não há provas concretas de que as 95 teses tenham sido pregadas na porta da igreja do Castelo de Wittenberg.

Em outubro de 2017, registramos os 500 anos da Reforma iniciada por Martinho Lutero. A comemoração deste importante jubileu acontece em meio à conturbada situação política e social brasileira, quando os mais altos escalões do governo são acusados de corrupção; ele acontece em meio à profunda crise de transformação (perda) de valores; ela acontece em meio ao descrédito geral em relação às instituições.

Tem a Reforma Luterana uma proposta ética para responder a todos estes desafios?

Em seu livro Da Liberdade Cristã (1520), Martinho Lutero escreveu: "Um cristão é senhor livre de todas as coisas e a ninguém submetido - pela fé; um cristão é servo submisso a todas as pessoas - pelo amor". Lutero escreveu estas palavras como orientação ética aos cristãos de todos os tempos quanto ao seu comportamento e à sua ação na sociedade.

Ele apontou para a responsabilidade cidadã e política de cada cristão. A fé é expressão de liberdade diante do jugo da exploração econômica e das ideologias que se agarram ao poder. A fé é expressão da identidade do cristão e norteia seu jeito de ser e de agir. Pela fé, o cristão se desobriga das amarras que o prendem, mas simultaneamente o recoloca na sociedade para ações concretas e transformadoras. A fé liberta, o amor compromete. Missão do cristão e da Igreja é apresentar propostas éticas ao discurso político e levantar voz profética onde indivíduos e governos transgridem e ultrapassam os paradigmas éticos. É sua missão apontar caminhos que aproximem a ação humana da vontade divina.

O "mar de lama" em que se encontra nosso país é sinal de que a voz profética dos cristãos ainda não foi suficientemente ouvida ou proferida. As denominações cristãs são devedoras de uma palavra ética orientadora para a sociedade brasileira.

Em 1524, Martim Lutero escreveu "aos conselhos de todas as cidades da Alemanha para que abram e mantenham escolas públicas". Em 1530, Lutero exortou os pais a reconhecerem sua responsabilidade e enviarem seus filhos à escola. Lutero propôs uma ampla reforma do ensino (elementar, secundário e universitário). Ele defendeu a criação de escolas públicas, que possibilitassem o estudo e a boa formação de toda a população (tanto rapazes quanto moças). Lutero mostrou quão relevantes seriam pais compromissados e cidadãos bem-educados para bem atuarem nos lares, na sociedade e nas administrações públicas além de se tornarem boas lideranças na Igreja.

O objetivo inicial de Lutero era que todas as pessoas fossem alfabetizadas para poderem fazer o livre exame das Sagradas Escrituras. Para tanto, ele traduziu o Novo Testamento para a língua alemã em 1521. Resultado de todo este esforço foi a elevação do nível educacional da população, de sua capacidade profissional e intelectual. Lutero partiu do princípio de que, através da leitura e do estudo das Sagradas Escrituras, pessoas instruídas pudessem ter a consciência e a liberdade diante de forças escravizantes e seguir paradigmas éticos para a condução de uma vida digna e justa: livres pela fé em Cristo e dispostos a servir por amor.

Em outro livro, Comércio e Usura, de 1524, Lutero fala sobre o trabalho. Na contramão do antigo espírito ateniense, que entendia o trabalho como uma atividade degradante, que caberia aos escravos, ele concedeu ao trabalho uma compreensão religiosa/espiritual. Fazendo um jogo de palavras: beruf = trabalho versus berufung = vocação, Lutero descreveu o trabalho como uma vocação, como aspecto integrante da existência humana. Através do trabalho, praticamos uma missão. Além de buscar o próprio sustento e o da família, servimos ao nosso próximo.

Lutero entendia a ética do trabalho como obra altamente moral, que melhora a qualidade de vida da pessoa e transforma a sociedade. A partir de Lutero, os luteranos reconceituraram o trabalho como um dever que beneficia tanto o indivíduo quanto a sociedade como um todo. Desta forma, combatem-se dois extremos: o ócio - em que deixar de trabalhar significa deixar de utilizar seus dons e suas potencialidades. Transforma o ser humano em "desumanidade"; e a avareza - em que se deixa de enxergar o trabalho como um servir a Deus e ao próximo e passa a acumular os resultados do trabalho em detrimento dos outros, como exploração e escravidão.

Lutero afirmou: "Do trabalho não há quem morra, da ociosidade sim, porque o ser humano nasceu para trabalhar como as aves nasceram para voar". Em outro trecho, Lutero escreveu: "A riqueza é a coisa mais mesquinha desta terra e o menor dos dons que Deus possa dar aos humanos. É por isso que Deus dá geralmente a riqueza aos grandes asnos que não sabem almejar outra coisa".

Uma ética em perspectiva luterana é ética da fé ativa no amor, ética do cuidado, ética da liberdade. Seu fundamento está na percepção das relações concretas da vida como geradoras e foco da existência ética. Lutero escreveu na introdução à Carta aos Romanos: "a fé é altamente dinâmica e atuante. Há algo muito vivo, atuante, efetivo e poderoso na fé, a ponto de não ser possível que ela cesse de praticar o bem. Ela também não pergunta se há obras a fazer, e sim, antes que surja a pergunta, ela já o realizou e está sempre a realizar."

Fonte: Estadão, 30/ 10/ 2017

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