INSTITUTO JETRO - SAIU NA IMPRENSA - O fim do improviso

SAIU NA IMPRENSA

O fim do improviso

Igrejas aderem a modelo de gestão profissional e planejamento estratégico para crescer

No período de 1999 a 2000, a Igreja Batista do Morumbi, uma das maiores e mais tradicionais de São Paulo, percebeu que era hora de fazer uma verdadeira reengenharia na forma de administrar a denominação. A congregação havia acabado de passar por uma grande reforma, comandada por pastores. Apesar de bem-sucedida, acabou tirando o foco e prejudicando os trabalhos espirituais. Como já trabalhava há algum tempo com voluntários, a igreja decidiu contratar gestores e criar uma administração profissional. Algo ousado para quem nunca teve nada tão abrangente. Logo, a crítica de que estaria virando uma empresa tornou-se um dos assuntos preferidos ao fim dos cultos.

Os anos passaram e a oposição foi vencida. Hoje, a Igreja Batista do Morumbi conta com expressivo crescimento de 15% a 20% ao ano, um trabalho modelo de discipulado — realizado principalmente porque os pastores não precisam mais se preocupar também com as finanças —, projetos sociais e programas espirituais que se tornaram referência na sociedade e entre os evangélicos. Com 4 mil freqüentadores e mais de cinqüenta ministros e funcionários, a certeza agora é a de que administrá-la amadoramente ou apenas com voluntários sem prejudicar a obra do Senhor seria impossível.

Como a Igreja Batista do Morumbi, muitas outras de diversas partes do país estão despertando para a necessidade de usar o planejamento e a organização a serviço do Reino. Elas substituem os limitados calendários de atividades anuais por planejamentos estratégicos de longo prazo; no lugar dos gestores bem intencionados, mas sem formação, entram profissionais experientes, ainda que voluntários; e decisões improvisadas e baseadas na emoção dão lugar a estratégias que potencializam a expansão do Evangelho.

Ainda que em diferentes graus, essas igrejas estão aprendendo que a organização e as técnicas e ferramentas administrativas podem ser grandes aliadas do trabalho dirigido pelo Espírito Santo.

“Estamos finalmente aprendendo que a boa administração é um dom de Deus”, afirma o presbítero Renan Santos, chamado em 2000 para comandar as mudanças na Igreja do Morumbi, onde trabalhou como gestor administrativo até o ano passado, quando se afastou do cargo por problemas de saúde e para fazer seu mestrado em Teologia no exterior (veja boxe com a história completa). “É bem verdade que somente Deus pode conceder os frutos da salvação e o crescimento da obra, mas nos evangelhos, em Neemias e nas cartas do apóstolo Paulo, por exemplo, fica bem clara a responsabilidade de gerenciar bem as rotinas, o cotidiano e, com visão, cooperar com o Espírito Santo”.

Faz coro com ele o pastor presbiteriano Rodolfo Montosa, fundador e diretor do Instituto Jetro, em Londrina (PR), organização que oferece cursos e palestras nas áreas de gestão ministerial e liderança às igrejas. “Gosto de lembrar de quando Deus orientou Moisés a construir o tabernáculo. Após transmitir a visão, disse claramente para que envolvesse pessoas altamente capacitadas para executarem com destreza cada tarefa. Artesãos e artífices dirigidos pelo Espírito Santo”, concorda.

Apesar disso, ele alerta que o tempo das campanhas de última hora, organizadas para saldar dívidas, das interrupções de projetos e obras e dos missionários sendo obrigados a passar dificuldades ou até voltar do campo por causa da falta de planejamento nas finanças e prioridades inadequadas dos líderes eclesiásticos ainda está longe de chegar ao fim. “Infelizmente, em grande parte das igrejas, ministérios e organizações missionárias, a gestão financeira e a administração continua sendo feita por pessoas sem qualquer qualificação”.

Medo

Isso acontece porque, em alguns casos, a organização é pequena e não tem condições de contratar pessoas com conhecimento acadêmico e prático — mas, na maioria das vezes, o problema é a falta de visão do pastor ou o preconceito. A igreja local até poderia contar com programas de computador e técnicas básicas de administração que agilizariam seu trabalho, ou com o apoio de voluntários com experiência no setor público e privado que já estão aposentados ou estabilizados financeiramente e dispõem de tempo para ajudar. O que impede é o medo.

“Nosso líderes desconhecem esses recursos”, explica o administrador de empresas e pastor batista Maurício Franzatto. “Boa parte não teve sequer uma formação teórica adequada. Eles têm o chamado divino, mas o limitam, pois se preocupam com muitas coisas e deixam de lado o ensino e a pregação. Isso quando esse líder não tem esse medo de ser passado para trás, de institucionalizar a igreja, tornando-a uma máquina e ser, por isso, condenada pelas pessoas.”

Franzatto presta consultoria a igrejas, e atualmente auxilia na implantação de técnicas administrativas em uma igreja de Santo André (SP), na qual atua como pastor auxiliar. Com base em trabalhos que já fez em diversas comunidades, identificando a marca, implantando técnicas de marketing, definindo missão, valores e visão, lançando sites na internet, informatizando a gestão e treinando lideranças para trabalhar em equipe, ele acredita que ainda há muito a fazer na igreja brasileira, mas boa parte dos líderes evangélicos já viu a necessidade e está se valendo de alguma técnica moderna de administração.

“Somos formados dentro de um ambiente que não valoriza a boa administração. As igrejas precisam entender que funcionários sem registro, movimentação financeira sem transparência e as dívidas que destroem os lares prejudicam a obra de Deus que elas dizem fazer. A gestão profissional e a orientação nessa área não competem com a espiritualidade quando realizada da forma correta: subordinada a um conselho pastoral e em conformidade com a visão e os objetivos da igreja”, diz o missionário Oswaldo Prado, ligado a Sepal.

Durante quatorze anos, Prado trabalhou em uma empresa automobilística, conciliando o trabalho secular com o pastorado. Foi isso, e não a educação teológica, que o preparou para trabalhar sob pressão, lidar com oposição, ter prioridades e administrar bem tempo e recursos. “O equilíbrio entre a formação fora da igreja e os estudos teológicos sempre foi, para mim, ponto-chave no desenvolvimento da liderança saudável e eficaz. Sempre que um jovem chega para mim dizendo que tem um chamado missionário ou ministerial, eu o desafio a buscar primeiro um emprego secular” explica.

Equilíbrio

E o que a igreja pode fazer para mudar essa situação? Muita coisa, começando por buscar ajuda especializada de organizações e entidades evangélicas especializadas em dar consultoria e orientação às lideranças. Mas também mudando a forma como são preparados os próprios ministros. Para isso, é necessário que o ensino teológico seja mais prático e contenha em seu currículo tópicos sobre administração e gestão, coisa que alguns seminários e faculdades já começam a adotar. Claro, sem esquecer de equilibrar tudo isso com a dimensão espiritual da obra, para que não aconteça por aqui o que houve na Europa, onde as igrejas são exemplares na gestão, possuindo lindas instalações, administração extremamente profissional, inclusive, com recursos do Estado, mas mesmo assim, encolhem e fecham as portas de maneira assustadora.

“Podemos mudar muita coisa, desde que existam a direção de Deus e a vontade do homem para mudar”, garante o diretor da Sepal e pastor da Igreja Batista do Morumbi, Josué Campanhã. Ele conta que, certa vez, se reuniu com a liderança de uma igreja que queria adotar o planejamento estratégico e perguntou se Deus pode-ria fazer qualquer coisa naquela igreja. A resposta foi um uníssono “sim”. Porém, quando reformulou a questão, indagando se Deus poderia acabar com a escola bíblica para ter um novo sistema de ensino, o que houve foi um longo período de silêncio. Quebrado apenas por alguém que, timidamente, protestou: “Deus não faria isso”. “Muita gente quer planejar e melhorar a administração, desde que tudo continue como está. Assim não dá”.

Matéria com participação de Rodolfo Montosa
Publicado em: abr/mai 2008
Veículo: Revista Igreja (Número 15, págs. 27-34)

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