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A falta que a ética está fazendo

Liderança evangélica clama pela urgência de uma ética pastoral

Rose Guglielminetti

Por gratidão a Deus, um irmão doou 25 mil reais à igreja. Três dias depois, recebeu uma ligação telefônica de um funcionário de uma concessionária de veículos perguntando se poderia depositar o cheque. Assustado, perguntou quem havia repassado o seu cheque à empresa. Foi informado sobre o nome da pessoa – que por acaso era o seu pastor – que utilizara aquela verba para comprar uma Mercedes Benz.

Essa história deveria servir apenas de ilustração para mostrar o que deve ser evitado por um ministro de Deus. No entanto, este caso é real e mostra somente a ponta do iceberg de uma centena de desvios éticos pastorais que acontecem diariamente nas igrejas evangélicas brasileiras.

O problema não chegou a ganhar as manchetes dos jornais. Porém, não foi o que aconteceu com a Igreja Evangélica Apostólica Renascer em Cristo. O desnudamento das denúncias contra a Renascer recolocou na pauta do dia a discussão sobre ética pastoral. As igrejas evangélicas vivem uma crise de ética? Os pastores preservam as Escrituras ou repetem nos púlpitos a famosa ‘cultura do jeitinho’? Mas o que é mesmo ética? A definição encontrada no dicionário caracteriza-a como um conjunto de regras e preceitos de ordem valorativa e moral de um indivíduo, de um grupo social ou de uma sociedade.

Para o pastor da 1ª Igreja Batista em Penópolis (SP), Fernando Fernandes, a raiz do problema começa com o desconhecimento até do significado da palavra. Ele tem percebido que as pessoas decidem de acordo com a situação vivenciada. Não levam em consideração um conceito definido como certo ou errado. Ou seja, prevalece o interesse pessoal.

O escritor John Maxwell no livro Ética é o Melhor Negócio, da Editora Mundo Cristão, escreve que as pessoas fazem uma opção antiética por três razões. A primeira é porque agem de acordo com a conveniência. Se uma mentira favorece, a tendência é optar por esse caminho. A segunda é que nunca jogam para perder. “Poucas pessoas se sentem confortáveis com a idéia de serem desonestas, mas ninguém gosta de sair perdendo”, afirma o autor.

Por último, as pessoas relativizam as escolhas. Optam em fazer aquilo que é certo de acordo com as circunstâncias. Maxwell continua: “Cada um segue seu próprio padrão ético. Enquanto, no passado, nossas decisões eram baseadas na ética, hoje é nossa ética que se baseia nas decisões que tomamos. Se é bom para mim, então é bom."

O curioso é que nem sempre o ser humano age de acordo com a integridade que exige de outras pessoas. Um estudo citado no livro Ética é o Melhor Negócio revela que, entre estudantes universitários, 84% acreditam que os Estados Unidos estão passando por uma crise no mundo dos negócios e 77% acham que os mais altos executivos das empresas devem ser responsabilizados por este problema. Contudo, 59% dos mesmos estudantes admitem já ter colado em provas. No ambiente de trabalho, 43% das pessoas admitem ter se envolvido em pelo menos uma situação antiética no ano anterior, e 75% já assistiram a algo assim sem fazer nada a respeito. O escritor Maxwel adverte que a mesma pessoa que sonega impostos ou rouba material de escritório quer ver honestidade e integridade na empresa de quem compra ações, no político no qual vota e no cliente com o qual negocia.

Outra boa fonte que aborda o tema ética é o escritor Stanley Grenz no livro A Busca da Moral, da Editora Vida. Ele afirma que o mundo vive no meio de uma crise de moralidade e que há um declínio da influência da Igreja na sociedade ocidental. Utilizar o púlpito para ofender os membros, autoritarismo, falta de sigilo pastoral, uso excessivo de benefícios da igreja e enriquecimento ilícito são apenas atitudes praticadas por alguns pastores. “Foi horrível sabermos que nosso pastor pegou o dinheiro do irmão (R$ 25 mil) para comprar um carro particular. Várias pessoas deixaram a igreja”, disse Antônio (nome fictício), membro da igreja e que, apesar dos desvios éticos de seu líder, permaneceu 19 anos na denominação. “Nós sempre achávamos que ele iria mudar”, diz. Samara (nome fictício) foi outra que sofreu decepção com o seu pastor. “Ele usava o púlpito para denegrir a imagem das pessoas. Quase deixei a igreja, mas o senhor me sustentou”.

“Comportamentos como esses expressam mau-caratismo”, ressalta o pastor de Penápolis. Sua análise é de que uma pessoa que não foi restaurada por Deus, mas que se arvora do pastorado, vai trazer suas idéias e práticas distorcidas para o ministério. Quem não experimenta cura interior não vai compreender jamais as questões éticas que envolvem e integram o ministério.

VOCÊ ACHA QUE SEU PASTOR É ÉTICO?

Uma pesquisa formulada com o título acima pelo portal Elnet (www.elnet.com.br), no período de uma semana, com participação de 5.008 pessoas, trouxe o seguinte resultado:

Não tenho como avaliar – 4.4 %
Sim, em todas as atividades da igreja – 22.3 %
Sim, em apenas algumas atividades da igreja – 34.1 %
Não, ele é completamente antiético – 1.7 %
Não, porque ele transparece falta de ética em algumas atividades – 37.6 %

 
Máquina de refrigerante

Estudioso do assunto, o pastor e escritor Lourenço Stélio Rega, também diretor da Faculdade Teológica de São Paulo, faz sua avaliação e diz que a crise ética é reflexo da visão incorreta do que seja a missão da Igreja e do cristianismo. Ele faz uma comparação para exemplificar. Observa que o relacionamento do homem com Deus é igual ao relacionamento do homem com uma máquina de refrigerante. “Mediante um valor, se obtém uma mercadoria. Deus deixa de ser Senhor para ser mordomo. A ética fica de fora, pois a relação é meramente comercial”. Lembrando Max Weber, Stélio Rega diz que no profetismo ascético há o afastamento do mundo e a utilização de uma ética rigorosa. No profetismo místico há a busca pela experiência e não se valoriza a ética. “Isso é compatível com o que ocorre hoje. A igreja deve oferecer satisfação garantida aos clientes (crentes) que cada vez são mais exigentes”, avalia.

Um dos fatores que alimenta essa visão equivocada é a Teologia da Prosperidade. Ariovaldo Ramos, pastor e escritor, é contundente quando declara: “Há um equívoco em entender que o altar purifica a oferta, de modo que tudo é interpretado como oportunidades oferecidas pelo Alto. Muitos entendem que tudo é oferecido por Deus, independente de ser correto ou não. Isso é uma clara ação não ética e ilegal”. Ramos concorda que ao priorizar o enriquecimento, os pastores são antiéticos.

Mas os pastores são, antes de tudo, pessoas, e somente alguém efetivamente nascido de novo e chamado para um ministério pode agir dentro de uma “ética eterna”. Esta é a percepção do pastor da Igreja Batista Shalon de Brasília, Élcio Lourenço. “É possível encontrar pastores éticos e não éticos da mesma forma que engenheiros éticos e não éticos”. 

Poder e dinheiro

Na opinião de Rodolfo Montosa, diretor do Instituto Jetro – instituição que atua nas áreas de gestão ministerial e liderança cristã –, poder e dinheiro são as duas áreas mais perigosas para os pastores. Os muitos desejos e necessidades não preenchidos, diz ele, são atrativos para que o pastor sucumba. “Muitos misturam os recursos da organização com os seus próprios. Justificativas não faltam e, muitas vezes, usam a própria Bíblia de maneira distorcida”. Ele acha que o poder é o pior dos dois, pois é mais subjetivo, mais envolvente e cheio de conluios e trocas.

Pastores estão sempre alertando para a necessidade da ética na formação pastoral. “Ou a ética faz parte da educação teológica ou teremos um Evangelho antiético, anti-histórico e escravizador”, diz Ariovaldo Ramos. Mas o grande desafio da Igreja é fazer com que os cristãos entendam que assuntos como virgindade, honestidade etc. são não opções comportamentais, mas referenciais éticos. “Esses padrões são encarados como preconceito ou anacronismo. Devemos persistir na pregação bíblica, combatendo o pecado”, ressalta Fernando Fernandes.

Stélio Rega explica que a ética cristã já existe. “É a visão a partir da interpretação dos textos bíblicos, mas é um tema pouco presente na agenda de prioridades das igrejas.” Fernandes concorda e diz que a Bíblia é a bússola para o cristão saber o que fazer e evitar no campo da ética. O crente deve evitar uma abordagem puramente baseada em teologismo, determinando o certo e o errado com base nos resultados esperados. Também devem fugir de uma análise puramente contextual, como fazem os cristãos liberais, estabelecendo uma ética do tipo “você decide”. A proposta básica da ética evangélica deve ser a deontológica. Nesse caso, a igreja determina o certo e o errado a partir de diretrizes éticas estabelecidas na Bíblia e de conduta moral previamente exigidas por Deus em sua Palavra. “Mesmo que humanamente sejamos contrariados”, escreve ele no artigo “O desafio de um cristianismo ético”'.

OS NOVE "NUNCA" DO MINISTRO

1) Nunca convide membros de outras igrejas para se filiarem à sua.
2) Nunca tome partido numa questão antes de ouvir os dois lados.
3) Nunca deixe de pregar a Palavra com medo de ofender as pessoas.
4) Nunca use o púlpito para atacar pessoas ou descarregar suas ansiedades e preocupações pessoais.
5) Nunca fale do púlpito sobre experiências de aconselhamento sem autorização.
6) Nunca peça dinheiro emprestado.
7) Nunca manuseie finanças da igreja (deve haver um tesoureiro e uma comissão).
8) Nunca subestime a história de sua igreja e o ministério anterior ao seu.
9) Nunca se isole no ministério.

Fonte: Transparência no Ministério (Edison Queiróz), Editora Vida

Uma forma de um líder ser íntegro, segundo Montosa, é adotar o hábito de prestar contas. “É difícil e exige coragem, mas protege”. Quanto ao poder, alternar o comando pode salvar um ministério e uma vida. Regras, cobranças e ameaças não levam as pessoas a agirem com honestidade, pureza, respeito e amor. Élcio Lourenço lembra que fazer a vontade de Deus é atitude de fé e não resultado de normas.

Para o pastor Ricardo Gondim, a falta de ética começa nos conteúdos das pregações, quando os pastores prometem “mundos e fundos” para suas ovelhas. Para ele, estes pregadores estão apenas “vendendo” ilusões e induzindo o povo a uma falsa esperança porque miséria e desemprego não se resolvem com correntes e campanhas de oração, mas com uma boa política econômica e distribuição da riqueza da nação. “Os líderes não exercem seu papel profético de ser sal e nem convocam o povo para alterar a realidade social, mas o induz a esperar por 'milagres' que não passam de enganações. Essa falta de escrúpulos no que se prega acaba maculando toda a massa que, levedada de cinismo, repercute até na administração das finanças”, complementa.

Outro problema apontado por Gondim refere-se ao despreparo emocional dos pastores. A maioria não foi treinada para lidar com riqueza, com poder e com fama. Muitos pastores vieram das classes menos privilegiadas e, quando vêem muito dinheiro, alopram, observa Gondim, que é pastor da Assembléia de Deus Betânia, em São Paulo, e também escritor. Ele lamenta que muitos comportam-se como novos ricos que querem consumir só para mostrar com sinais exteriores que são bem-sucedidos e, no exercício pastoral, enxergam uma oportunidade de exercerem poder.

Orgulho e egoísmo são dois elementos que levam os pastores a terem falta de ética, assim critica o escritor e pastor assembleiano Nemuel Kessler. "O egoísmo é uma das doenças ligadas ao ego. Já o orgulho, o causador da queda de Lúcifer, caracteriza-se no espiritual, no intelectual e no material", explica. Ele afirma que como o pastor tem o poder absoluto em suas mãos, pode sentir-se tentado a lançar mão de algo que não lhe pertence. “Mais cedo ou mais tarde, a igreja tomará conhecimento de seus atos", diz ele, que escreveu o livro Ética Pastoral, pela Editora CPAD. Para exemplificar, Kessler cita o episódio do falso deus-rei Ito-baal, de Tiro, que construiu um império poderoso, adorando o deus dinheiro. O que aconteceu? O comércio se aliou à violência, porque onde o dinheiro flui os criminosos entram em ação. Então, o falso tornou-se totalmente profano e corrupto. “Pode isso acontecer também com os tais que assim procedem dentro da igreja do Senhor Jesus”, percebe.

Jesus identificou a ética evangélica ao sintetizar todos os mandamentos em apenas dois: amar a Deus, o primeiro, e o segundo, amar o próximo. Dessa forma, enfatiza Kessler, a ética bíblica tem seus princípios plantados no amor, e não simplesmente nos direitos ou nos deveres. "A Bíblia revela todo o conselho de Deus e seu plano perfeito para a salvação do homem, visando também moldar o seu caráter e transformar vidas”, ressalta. Ser cristão ético significa viver coerentemente como seguidor de Jesus. Tal qual a frase do escritor  Stanley Grenz, no livro “A busca da moral”, da Editora Vida: “O chamado cristão não termina nos limites da Igreja, mas inclui também uma missão ética no mundo”. 

PARA ENTENDER A ÉTICA

Ética: A filosofia moral, ou a divisão da filosofia, que envolve o estudo do modo como devem viver os homens. A ética se concentra em questões que envolvem o correto e o impróprio.

Ética cristã: O estudo de como os homens devem viver do modo como foi informado pela Bíblia, pela tradição e pelas convicções cristãs.

Ética evangélica: O projeto de envolver-se com a reflexão moral, lançando mão de compromissos teológicos e morais, juntamente à visão da realidade, que caracterizam os cristãos evangélicos. Os evangélicos encontram a norma para a orientação moral na revelação bíblica, em oposição à razão humana, à consciência individual ou à lei natural. A vida moral vem à luz a partir do trabalho transformador do Espírito Santo, que renova o caráter do crente por meio do novo nascimento. Essa renovação envolve o “pôr de lado” as velhas formas de vida e o ato de “assumir” a nova vida disponível por meio da união com Jesus Cristo.

Fonte: Dicionário de Ética (Stanley J. Grenz & Jay T. Smith), Editora Vida

 

Publicado em: março de 2007.
Veículo: Revista Enfoque Gospel, edição 68.