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Uma igreja no lixão

Entrevista com Siméa de Souza Meldrum
Publicado em 28.07.2005
Siméa Meldrum é pastora Anglicana e desenvolve um trabalho no lixão de Olinda pelo Programa de Inserção Social dos Catadores de Materiais Recicláveis. Foi preletora da 3ª Conferência Cristã de Gestão Ministerial promovida pelo Instituto Jetro, onde falou sobre essa experiência de transformação com os excluídos de sua cidade. 

foto de Siméa Meldrum

Como começou o projeto?

Siméa - Nós começamos em 1993. Nesse ano eu era pastora da juventude da igreja Episcopal Anglicana, em Olinda. Nosso tema do ano era "Deus é verde", que era um programa de educação ambiental que visava unir a educação ambiental, a necessidade da responsabilidade ambiental e a visão bíblica de mordomia do ambiente. Fizemos um programa bem interessante nesse sentido e um pastor da igreja presbiteriana me disse "pastora, já que a senhora gosta tanto de meio ambiente, por favor, me ajude a me aproximar de uma comunidade que mora num lixão". Ao ouvir o pedido eu achei que caberia muito bem aos jovens fazer esta campanha ajudando aquele pastor, então marcamos um primeiro "louvorzão" para a arrecadação de alimentos não perecíveis e no dia 16 de outubro, que é o dia mundial da alimentação, nos fomos para lá. Para minha surpresa, o pastor que teve a idéia do projeto recebeu uma bolsa para estudar na Inglaterra, então fomos sozinhos. Quando eu cheguei lá, vi uma miséria que até então eu nunca tinha visto. Já tinha trabalhado em favelas, mas ali as pessoas moravam dentro do lixo mesmo, faziam suas casas com o lixo - pareciam iglus de lixo - e ali se alimentavam, trabalhavam e vendiam material reciclável. Mas ganhavam muito pouco. Neste dia da nossa primeira visita, um homem, que parecia embriagado, me deu um anel e disse que aquele presente representava uma aliança entre eu, Deus e aquele lugar. A primeira coisa que eu pensei foi que estava entrando de gaiato naquele navio, porque, sinceramente, não era isso o que eu queria para o meu ministério.

A partir daí, como se deu o trabalho?

Siméa - Fiquei dois anos visitando e levando 50 cestas básicas por mês para aquelas famílias. Mas em 1994 eu ouvi que uma família daquele lixão tinha comido uma mão humana. Fiquei muito impactada com aquilo e na mesma noite, quando fui pregar na igreja, contei o fato e levei até os membros a responsabilidade de não apenas curtir e receber este cristianismo maravilhoso, mas principalmente viver o cristianismo, sendo como Jesus, com o coração ardendo pelas pessoas. Então percebi que Deus estava me levando mesmo para aquele lugar.

Essa denúncia apontou novos caminhos?

Siméa - Esse fato desdobrou num grande escândalo internacional, chegaram jornais de vários lugares para fazer reportagens sobre o assunto. Isso levou a prefeitura da cidade ao escândalo, expôs fatos de corrupção, foi muito sério mesmo. Gerou um caos que acabou sendo bom, e eu aprendi que Deus pode nos usar para denunciar o pecado e trazer soluções. A partir dali a gente estava consciente que Deus tinha algo para mim ali no lixão, e aos poucos Ele foi me levando a ver aquele lugar como um lugar onde Ele queria fazer o nome dele grande e resgatar a glória do Senhor naquelas vidas até então, negligenciadas. Hoje o local está transformado, mas ainda é um lugar de miséria, principalmente porque é mais fácil tirar as pessoas de dentro do lixo do que o lixo de dentro delas. É um processo onde a igreja e os governos estão engajados. Temos uma associação de catadores e o nosso objetivo é inserir o catador nas políticas públicas de resíduo sólido e investir na capacitação para que eles se sintam agentes do meio ambiente. Estamos trabalhando também com a discriminação, porque queremos inserir o catador na coleta seletiva da cidade. Nós não temos recursos financeiros mas trabalhamos com a gestão participativa onde o papel da igreja é agir como articuladora e mostrar o caminho aos órgãos competentes.

Hoje há uma igreja no lixão?

Siméa - Sim, como resultado de tudo isso nasceu uma igreja da própria comunidade. Essa igreja tem em torno de 150 membros e agora estamos implantando células. Tivemos que formar essa igreja baseada no perfil deles, que querem mesmo uma experiência com Deus. Então é uma congregação bem pentecostal, uma igreja muito vibrante, com muita adoração, quatro grupos de danças, duas bandas, ministério de intercessão, rede de jovens... é uma igreja linda! Temos também ali uma rede de ação social, que coordena uma casa para crianças e adolescentes em situação de risco; temos uma granja; um projeto de distribuição de sopão; e um grupo de diaconia que trabalha com as necessidades dos membros da igreja. Queremos agora abrir uma creche para tirar definitivamente as crianças do lixão.

Tudo isso em 11 anos? Qual os próximos passos?

Siméa - É, em onze anos, e o processo só não é mais rápido porque é um lugar difícil, onde há muito tráfico de drogas. Até o final do ano queremos que os 407 catadores ativos do lixão assumam a associação e atuem na coleta seletiva de rua. Assim o lixão será fechado para mão de obra humana, porque a idéia é que o material reciclável não chegue lá e seja retirado diretamente nas casas. Para os catadores é bom, porque dessa forma o lixo é vendido com preço maior, por estar limpo, e eles se protegem das doenças, que são muitas.

O que você diria, na prática, que é fundamental para alguém que se interessa em iniciar um trabalho como esse?

Siméa - Durante esse período de trabalho no lixão de Olinda eu aprendi que só a comida não é suficiente. As pessoas ali também têm outras necessidades e querem conversar, ouvir e ser ouvidos. Você precisa tentar entende-los, trabalhar com a auto-estima deles, entender sua cultura e principalmente investir tempo para mostrar que eles são capazes e não precisam depender de outras pessoas ou de cestas básicas a vida inteira. Não os torne dependentes de você ou de seu trabalho. Vá pelo caminho do ensino e da valorização humana.

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Título do artigo: Uma igreja no lixão
Autor: Siméa de Souza Meldrum


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