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Trabalho voluntário

Entrevista com Andrea Goldschmidt
Publicado em 05.12.2006

Em 1985, a Assembléia Geral das Nações Unidas escolheu o dia 5 de dezembro como a data oficial para a celebração do trabalho voluntário. Desde então, centenas de países aderiram à data para celebrar o esforço voluntário e suas conquistas. Prestigiando o Dia Internacional do Voluntário e reconhecendo a importância do voluntariado exercido na Igreja e através dela, convidamos Andrea Goldschmidt para falar sobre esta relevante temática.

Andrea Goldschmidt é administradora de empresas, com especialização em Marketing, e atua como captadora de recursos desde 1999. É professora de Marketing e Captação de Recursos na ESPM e na FACAMP e colaboradora do Centro de Estudos do Terceiro Setor (CETS) da Fundação Getúlio Vargas. Trabalha como consultora na APOENA Empreendimentos Sociais, auxiliando empresas na implantação de programas de responsabilidade social junto à comunidade.

Há características que você considera como essenciais àqueles que desejam realizar um trabalho voluntário?

foto de Andrea Goldschmidt
Andrea - Apesar de muita gente encarar o trabalho voluntário como uma atividade esporádica, considero que uma das principais características essenciais àqueles que desejam realizar um trabalho voluntário seja o compromisso com a causa e com a ação. Na maior parte das atividades, o compromisso.  

Para muitos, o conceito de voluntário se resume à mão-de-obra gratuita. Essa seria a essência do voluntariado?

Andrea - Acredito que, mais do que uma mão de obra gratuita, o voluntário tem o papel de auxiliar a organização beneficiada no desenvolvimento de atividades que ela não poderia realizar sem a presença destas pessoas, seja porque não pode arcar com os custos de um profissional para esta função, seja por tratar-se de uma atividade que requer um especialista ou uma atividade que requer um auxílio em tempo parcial. Muitos voluntários também auxiliam as organizações através de seus contatos, ajudando a mobilizar outras pessoas, a divulgar uma causa, a captar recursos,... Todas estas atividades independem da presença do voluntário, que não está fornecendo uma mão de obra, mas outras coisas de grande valor para a organização.

Há diferença entre trabalho voluntário e prática de filantropia?

Andrea - A filantropia geralmente está associada à doação de bens. O voluntário pode contribuir com seu tempo, seu conhecimento, seus contatos e também com a doação de bens. Desta maneira, o trabalho voluntário pode ou não ter características filantrópicas. Muitas atividades desenvolvidas por voluntários ajudam a promover grandes mudanças estruturais ou administrativas nas organizações que os recebem e, neste sentido, não têm características filantrópicas, mas sim de investimento social. 

Bill Hybels, renomado pastor e escritor americano, autor de “A revolução no voluntariado” (Editora Mundo Cristão), aborda a existência de alguns mitos em torno do conceito de voluntariado, entre eles que “voluntários não estão interessados em treinamento e desenvolvimento”. O que você pensa a respeito disso?

Andrea - Acredito que muitas vezes o treinamento aconteça na prática, de forma diferente do que imaginamos a princípio quando o termo é mencionado. Não tenho dúvidas de que todo trabalho voluntário contribui para o desenvolvimento de quem o presta, seja do ponto de vista pessoal ou do ponto de vista profissional. Acredito, no entanto, que as pessoas estejam mais dispostas a receber treinamento e desenvolvimento como uma conseqüência e não como o primeiro passo para iniciar um trabalho voluntário. De qualquer maneira, em muitos casos é importante que a organização promova um treinamento inicial, mostrando para o voluntário suas expectativas, seus limites, entre outras coisas. O candidato a voluntário que não se disponha a participar, talvez não seja a pessoa certa para esta função.  

Você também concorda que há muitos mitos em torno deste assunto? Na sua opinião, quais seriam os mitos ou equívocos mais comuns quanto à compreensão e definição de voluntariado?

Andrea - Eu diria que é um equívoco o indivíduo participar uma única vez de uma ação e nunca mais se envolver. Isso geralmente cria mais problemas do que soluções para a organização que o recebe. Por outro lado, como "voluntário" ele não deve ser obrigado a participar de forma fixa. Acredito que o mais importante seja chegar a um meio termo, que alie o comprometimento com a ação e a flexibilidade de participação conforme a conveniência para o voluntário.

O voluntariado é a base da maioria das igrejas cristãs. Com o desenvolvimento do voluntariado empresarial, com a ênfase das empresas em Responsabilidade Social, e com o surgimento de tantas ONGs, você acredita que as igrejas perderam um pouco de força ou influência no voluntariado?

Andrea - Acredito que as igrejas não vão perder a força. Primeiro porque suas causas são muito mobilizadoras e, geralmente, os fiéis têm grande identificação com elas. Em segundo lugar, porque geralmente as pessoas gostam de realizar trabalhos em grupo, seja pelo ânimo que um voluntário dá ao outro, seja pelo fato de que as atividades já estão “organizadas”, facilitando o envolvimento de pessoas que têm dificuldade em começar algo do zero ou mesmo pelo reconhecimento que podem recebem em suas comunidades. Em todos estes sentidos, as igrejas podem ter papéis muito importantes como facilitadoras e mobilizadoras de pessoas para a ação voluntária.

Há diferenças entre o voluntariado empresarial e o voluntariado desenvolvido a partir de organizações sem fins lucrativos?

Andrea - No caso do voluntariado empresarial, é comum que as empresas que promovem a ação tenham algum interesse específico, como o desenvolvimento de certas habilidades em seus funcionários, ou a motivação para o trabalho em equipe, ou ainda a integração de pessoas de áreas ou níveis hierárquicos diferentes. As alternativas de atividades disponíveis, nestes casos, costumam ser limitadas por mais um fator externo que é o interesse das empresas, além dos interesses dos funcionários e das organizações que os receberão.

Quais as maiores vantagens e desvantagens de uma organização do terceiro setor cuja força motriz é o trabalho voluntário?

Andrea - A principal vantagem é poder contar com a força, os conhecimentos específicos e as áreas de influências destas pessoas. A maior desvantagem, na minha opinião, é a dificuldade de manter uma equipe permanente e realmente comprometida com o trabalho, especialmente quando é necessário um grande envolvimento em termos do número de horas que as pessoas precisam dedicar a este trabalho.

Nas organizações cristãs e nos projetos sociais é necessário que os voluntários passem por um processo de recrutamento, seleção, adequação de cargos e funções?

Andrea - Certamente. Um voluntário, assim como um profissional remunerado, só poderá exercer adequadamente a sua função se tiver habilidades e capacitação específica para isso. Pode parecer estranho “rejeitar” um voluntário, mas é preciso ter em mente que uma pessoa sem as qualificações ideais pode não contribuir adequadamente para a realização da atividade. Por exemplo, num programa de alfabetização de adultos é importante que os professores voluntários conheçam a metodologia didática, tenham paciência, sejam atenciosos, lidem bem com as dificuldades que as pessoas vão sentir no começo. Certamente há um perfil adequado para isso e não é qualquer pessoa que serve para esta função.

Você comentou sobre a dificuldade em manter os voluntários comprometidos e envolvidos com a missão e os objetivos da organização. Que conselho você daria aos líderes para que o verdadeiro comprometimento seja promovido e mantido?

Andrea - Como não há remuneração, o voluntário precisa sentir que está ganhando alguma outra coisa para manter-se engajado e motivado a prestar o serviço. Ele pode aprender coisas úteis para a sua vida, pode sentir-se feliz de fazer parte de um grupo, pode gostar da sensação de contribuir para a solução de uma causa, entre tantos outros fatores motivadores. É claro que cada pessoa sentir-se-á motivada por fatores diferentes, mas, de maneira geral, acredito que as ações de valorização e reconhecimento destas pessoas sejam muito importantes.

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Título do artigo: Trabalho voluntário
Autor: Andrea Goldschmidt


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