Sou o filho do Pastor! - Entrevistas - Instituto Jetro

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Sou o filho do Pastor!

Paulo Wesley Deggau
Publicado em 19.10.2010

"Você não é o Marcos, o Joaquim, o Manoel, o Antonio, você é o filho do pastor. Você deve ser o exemplo! "

Altas expectativas. Pressão para uma criança, para um adolescente e mesmo para um jovem. Para os da Igreja deve ser o exemplo de santidade, no mundo deve ter moderação e se controlar diante das chacotas e piadinhas. E para Deus?

Não é fácil ser filho de pastor, é cobrança dos amigos, comunidade religiosa, da sociedade, mas principalmente, dos pais. Ainda por cima, quantas ausências, quantas mudanças de cidade, de colégio, quantos "nãos"  recebidos por causa do que o outro vai falar e por ser o filho do pastor. Enfim filhos de pastores não são crianças, juvenis, jovens "normais", damos-lhes funções, estigmas, os tatuamos.

Os pais-pastores também não são pais "normais", afinal eles são quase "super-heróis", ou pelo menos deveriam ser, não é?

Esta realidade faz alguns filhos de pastores dizerem: Quero ser tudo na vida menos pastor. Mas, ser filho de pastor é um privilégio. É ter a oportunidade que muitos não possuem de conviver com os milagres mais de perto, do sustento à transfomação de vidas e curas. É testemunhar a fidelidade de Deus e o seu amor por aqueles que realmente O segue e serve.

Entrevistamos Paulo Wesley Deggau, filho de pastor, pastor da Igreja Capela da Graça em Londrina/PR para contar um pouco sobre sua percepção sobre este tema "espinhoso".
Paulo é graduado em Composição e Regência pela FAAM (Faculdade de Artes Alcantara Machado), mas é um músico autodidata. Acompanhou musicalmente em sua juventude cantores como Cauby Peixoto, Rosemary, Arrigo Barnabé e Sula Miranda. Gravou mais de 150 CDs como guitarrista, além de colaborar como arranjador e produtor musical em muitos outros.

 foto de Paulo Wesley Deggau 
Quais são os privilégios de ser filho de pastor? E as dificuldades?

A complexidade desta resposta advém do fato que cada pessoa/família é diferente. Precisaríamos ver caso a caso. Existem pastores e Pastores. Médicos e médicos. 
Dito isso, posso falar "do meu caso". Entre os privilégios sem dúvida o de ter semeada a boa semente na infância fez toda a diferença na minha vida. Fora isso, no tempo em que fui criança, não tive muitos privilégios. As dificuldades foram maiores do que os privilégios. Sofri com a falta de recursos para ter os brinquedos que meus amigos tinham. Sofri com a pressão de ser "melhor do que os outros" por ser filho de pastor. Sofri com a ausência do meu pai que precisava trabalhar excessivamente para atender a tanta gente. 

O quanto à experiência espiritual do seu pai ajudou ou atrapalhou sua experiência em Cristo?

Ajudou totalmente. Como eu disse, a boa semente havia sido plantada. Meu pai sempre foi um sujeito muito correto, honesto e com valores que me acompanham por toda a vida. 

Como você lidou e lida com a pressão e as exigências da Igreja e das pessoas por ser filho de pastor?

Muito mal. Eu sempre tive uma inquietação que percebi anos mais tarde fazer parte da minha personalidade. À época me era muito difícil ser exemplo sem questionar. Com 14 anos eu decidi que ao invés de ser "o melhor" eu queria ser "o pior". 

Se o filho de pastor não estiver engajado, se não cantar ou não fazer parte do ministério de jovens e outros, então ele não é "espiritual". É exigido do filho de pastor demonstrar um padrão de vida e de espiritualidade que o força muitas vezes a fazer coisas não para agradar a Deus, mas para, não ver o seu pai sendo confrontado quanto à espiritualidade dele. Como agir?

Em primeiro lugar acho isso uma visão antiga e ultrapassada. Entendo hoje que o filho de pastor é uma criança como qualquer outra, sujeita às mesmas alegrias e dificuldades. Sou pastor e me esforço ao máximo para que meus filhos sejam tratados, inclusive na igreja, da mesma forma que os demais. Sem privilégios ou disciplinas diferentes dos demais. Não tenho filhos adultos ainda, mas sei que vou desejar tê-los na igreja, e vou lutar para que eles permaneçam na fé, independente de ser pastor.  Acho que é isso que todo pai cristão, pastor ou não, deveria fazer. 

Poderia relatar o fato mais marcante de sua vida como filho de pastor?

São dois, um triste e outro muito alegre. Rompi com meu pai por volta dos 16 anos de idade e me mantive distante por um tempo. A razão foi exatamente a cobrança excessiva que sofria do meu próprio pai de ser "perfeito". 

A parte boa foi ter reencontrado o Caminho de Deus, ter me re-aproximado de meu pai. Por fim,  quando decidi pelo ministério, recebi a benção de vários pastores, dentre eles o meu pai. Jamais me esquecerei desse dia. 

Quanto à vocação: filho de pastor, pastor será?

Não necessariamente. Eu nunca desejei ser pastor. Aliás, fugi disso por muitos anos. Exerci com sucesso minha profissão até ser dirigido por Deus a usar meus talentos numa comunidade cristã. Portanto não vejo que um filho de pastor deva ser necessariamente um pastor. Penso que o pastor deve conhecer o pior e o melhor da vida para poder liderar um rebanho. Um filho de pastor criado à moda antiga, dentro de uma "bolha", na minha opinião, não seria a pessoa mais indicada para liderar a igreja hoje.  

Quais os conselhos para pais-pastores e para os filhos de pastores?

Para o pai-pastor: Seja sábio. Crie seu filho da forma mais natural possível. Evite que ele só tenha amigos cristãos, não os crie numa "bolha". Fale abertamente com eles sobre todas as questões. Não tenha medo das perguntas difíceis. Lute para que dentro da sua igreja seu filho seja tratado sem distinção. Ame ao seu filho e o considere sua principal ovelha. Cuide dele entendendo que ele é o seu ministério ANTES da igreja. 

Para os filhos: Sejam sábios. Entendam seus pais como trabalhadores que tem nas mãos a maior de todas as missões, que é livrar as pessoas do inferno e levá-las ao conhecimento de Jesus Cristo. Como os médicos, seu pai lida com o pior que as pessoas carregam dentro de si. Como os médicos, seu pai vive cercado de pessoas doentes. Perdoe-o quanto ao tempo. Aproveite ao máximo o tempo juntos. Veja o seu pai como uma pessoa normal e imperfeita. Ame-o como alguém que tem um amor tão grande capaz de amar uma causa de forma apaixonada, mas que é obrigado, por conta do ofício, a viver numa guerra espiritual constante. 

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