Sexualidade nas Igrejas - Entrevistas - Instituto Jetro

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Sexualidade nas Igrejas

Entrevista com Roseli Kühnrich de Oliveira
Publicado em 12.07.2010
Falar da sexualidade em algumas Igrejas ainda é um tabu. É assunto proibido ou vergonhoso. Sendo assim nossas crianças, adolescentes, jovens e casais ficam à mercê do que dita a sociedade e mais ainda, às diferentes e deturpadas informações nas novas tecnologias deste mundo contemporâneo. 

Qual o papel da Igreja quanto a este assunto? Como abordá-lo? Como lidar com assuntos como a homossexualidade e bissexualidade? Há uma separação entre espiritualidade  e sexualidade?

Para comentar sobre estas perguntas entrevistamos Roseli Kühnrich de Oliveira, graduada em Psicologia pela Universidade Paulista de São Paulo, especialista em Terapia Familiar e com mestrado em Teologia pela Escola Superior de Teologia (EST), no Rio Grande do Sul.

Vice-presidente do Corpo de Psicólogos e Psiquiatras Cristãos (CPPC Sul), e membro da Associação de Assessoramento e Pastoral da Família (EIRENE).

Autora do livro "Cuidando de quem Cuida: um olhar de Cuidados aos que ministram a Palavra de Deus", Editora Sinodal e co-autora em De Bençãos e Traições, a história das famílias de Abraão, Isaque e Jacó, Ed. Ultimato/ Esperança.

 foto de Roseli Kuhnrich de Oliveira 
Para você, a Igreja necessita abordar o tema da sexualidade? Por quê?  

Todos os assuntos que tratam do viver podem ser abordados pela Igreja, e as questões da sexualidade estão presentes ao longo do ciclo da vida pessoal ou familiar. A igreja - se não é, deveria ser - como Corpo de Cristo uma comunidade que não tem apenas um papel informador. Deve-se falar  das  várias expressões da sexualidade, pois ela tem múltiplas facetas.

Fomos criados para relacionamentos, e a sexualidade vai sendo construída ao longo dos anos recebendo contribuições da interação mãe e/ou, cuidador/a e filho/a, do relacionamento familiar, da religiosidade, da cultura, das ciências, de todos os tipos de mídia, etc. Assim, as igrejas em geral podem contribuir, pelo perfil pedagógico/formador que tem. Tanto no que se refere ao conhecimento e funcionamento do corpo humano como no aspecto social, relacional, familiar e  espiritual, entendo que existe uma importante contribuição ao diálogo.

A maioria das igrejas aborda o tema de forma repressora ou de forma explicativa/orientada pelos princípios bíblicos? Como devemos falar da sexualidade levando em conta os mais diferentes públicos que ela tem?

Durante muito tempo as igrejas mantiveram uma postura repressora. Posturas normativas geradas de interpretações particulares e peculiares de textos bíblicos podem até agir na formatação do comportamento exterior, mas não transformam o interior. Hoje, em algumas igrejas parece haver mais omissão do que repressão. Creio que através de palestras e cursos com pessoas com postura cristã, gabaritadas ou profissionais da área ( psicólogos/as, médicos/as, enfermeiros/as, e outros, ou seja, não somente por pastores/as), pode-se esclarecer as pessoas de diferentes faixas etárias e culturais. A linguagem acessível, direta com o uso de ilustrações propicia dicussão dos temas e reflexão.

As discussões sobre a homossexualidade e bissexualidade são muito efervescentes dentro da sociedade, como agir diante deste contexto?

Podemos ter diferenças de interpretação nas igrejas e podemos aprender a discutir idéias, sem massacrar, ridicularizar, punir ou afrontar as pessoas, sejam elas nossos irmãos/ãs ou não. Os sãos não precisam de médico, mas sim, os enfermos. Trabalhamos, evangelizamos e cuidamos de pessoas inteiras, e a sexualidade é bem mais do que um encontro de genitálias.

Acho importante sim, esclarecer o texto bíblico, propiciar a reflexão e a discussão, uma vez que nossa presente época reduziu a sexualidade a patamares primitivos. A excessiva erotização que atinge crianças e adultos tem deixado sua marca perversa.

A busca pelo sentido da vida acaba sendo reduzida a atividade sexual sem intimidade e muitas vezes sem um prazer. Adolescentes de nossas igrejas já tiveram mais parceiros sexuais do que muitos adultos. A busca de sensações que visa mostrar que se está vivo, tem contribuído para o padrão bisexual. Uma das consequências da atividade sexual prematura, onde ocorre o esvaziamento do sentido relacional do sexo, pode ser este.

Vários fatores, contribuem tanto para a homosexualidade quanto para a bisexualidade, contudo, entendo que muito mais do que fazer palestras sobre namoro (a maior parte dos adolescentes nem sabe o que é isso), pode-se falar sobre a dimensão da sexualidade no viver humano.
 
Como a sexualidade afeta os relacionamentos já que vivemos em uma época do "consumo" e do "descartável"?

De várias formas, mas certamente conduz a uma desvalorização e banalização. O descartável vai de copos a corpos. Sexualidade restrita ao fisiológico não gera intimidade existencial e companheirismo, ou seja, é nausea constante, que não supre.

Há separação entre a sexualidade e a espiritualidade?

Como pessoas, somos um todo, pois são várias as dimensões que compõem o viver humano, ou seja, somos seres bio-psico-sócio-eco-espirituais inseridos numa determinada sociedade, cultura, geografia e num determinado tempo da história! Podemos dividir para efeitos de estudo, mas somos um todo indivisível! Somos convidados pela Palavra a uma vida congruente, onde a transparência e verdade sejam muito mais de ações do que de palavras. É a verdade que liberta, e confessar, traz luz e cura. Confessar não só pecados, mas desejos e impossibilidade de vencer sozinho os desafios de uma vida pura.

O acesso fácil de informações pelas novas tecnologias atrapalha ou ajuda?

Depende da maturidade da pessoa, há casos de adolescentes que acessam sites pornográficos quando estão buscando informações, o que obviamente lhes fornece imagens tangenciais e deturpadas. Por outro lado, é possivel encontrar material de pesquisa séria e abalizada. Na minha experiência, eu diria que as famílias ainda tem dificuldade de tratar das questões relativas ao sexo, e por diversas razões. Em alguns casos, o fator cultural e/ou religioso inibe, em  outros, por acharem que os filhos/as já receberam as informações e que simplesmente irão agir de acordo com o figurino.

Existem também famílias onde o "ensino" é ministrado através das condutas disruptivas dos próprios pais.  Práticas de pais e mães que incluem pornografia, seja em revistas, filmes, internet, troca de casais, adultérios, mentiras, enganos, etc,  roubam a confiança dos filhos no que concerne ao laço que os une, e o pior, mostram a face cínica e hipócrita que corrói a fé ingênua e faz pequeninos tropeçar. "MELHOR LHES FORA NÃO TER NASCIDO", diz a Palavra.

Quais os conselhos para pastores e líderes no que tange ao tema "sexualidade nas igrejas"?

A igreja pode propiciar um interessante debate de pesquisas científicas recentes. Leia muito, atualize-se, busque ajuda e conhecimento. Um pastor não precisa ser sexólogo, não precisa entender e dar aula de todos os assuntos, mas pode buscar quem o faça e mais do que tudo, pode ser um pastor interessado por suas ovelhas.

Acompanhe a vida das famílias, visite, se interesse, celebre as conquistas de cada um/a e chore com os que choram. Saiba os nomes de cada criança, adolescente, jovens, adultos e idosos! Seja Pastor de Gente! Vocês tem o privilégio de acompanhar as famílias ao longo do ciclo vital, desde nascimentos, batismos, formaturas, casamentos, celebraçoes até o culto fúnebre. Escute, escute muito e fale pouco. Em primeiro lugar, cuide a si próprio e da sua família.

Ore muito: "guarda-nos do mal" . E ouse, torne seu ministério parecido com o de Jesus!

* Sugestão de Livros: "Sexo, desnudamento e mistério", de Ageu H. Lisboa; "Macho e Femea os criou", de Carlos Grzybowski, "Aconselhamento Cristão Transformador", capitulos 8, 9 e 10, de Manfred Kohl e Antonio Carlos Barro.

URL: http://www.institutojetro.com/entrevistas/entrevistas/sexualidade-nas-igrejas/
Site: www.institutojetro.com
Título do artigo: Sexualidade nas Igrejas
Autor: Roseli Kühnrich de Oliveira


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