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Scripts sexuais do relacionamento conjugal cristão

Entrevista com Samuel Costa
Publicado em 26.06.2012
O livro "O Comportamento secreto: uma análise de scripts sexuais de casais em conflito" do Pr. Samuel Costa da Silva é o resultado de uma pesquisa corajosa e inédita, pois o autor entrevista indivíduos declaradamente evangélicos (membros de igrejas evangélicas históricas) e analisa sua sexualidade. 

A análise apóia-se na consideração de fatores sociológicos referentes à formação de crenças sociais e individuais, tais como as sanções recebidas em casa, quando criança ou aquelas experimentadas no ambiente de trabalho, na igreja, escola, ou quaisquer outros ambientes sociais, bem como através de inculcações de máximas populares, valores e símbolos tradicionais

Todas as perguntas formuladas estavam ligadas a uma pergunta principal: "Quais são os scripts sexuais que regem o relacionamento conjugal cristão?"

Samuel Costa da Silva é pastor da Igreja Presbiteriana "Encontro Vinho Novo", em Brasília-DF, com doutorado e pós-doutorado em Sociologia pela UnB. Seu ministério é marcado pela exposição das Escrituras Sagradas, também analisando os temas atuais à luz da Palavra de Deus. É casado com Mônica Gontijo e tem dois filhos.

Confira a entrevista concedida ao Instituto Jetro.

Samuel Costa da Silva 
Qual é o objetivo do livro?

Samuel - O livro é um resumo de minha dissertação de mestrado. À época em que eu a realizei pretendi analisar a influência da educação cristã sobre os problemas reais das pessoas que frequentam as igrejas evangélicas. Na verdade, entrevistei vinte casais, todos membros de igrejas históricas, que espontaneamente me contaram suas experiências sexuais em detalhes. A partir de suas experiências passeia analisar a influência que o ensino cristão exercia sobre seus comportamentos e, principalmente, sobre suas crenças e valores para, então, fazer uma avaliação da real influência da educação cristã. Acabei descobrindo o que suspeitava. De modo geral, a educação cristã se restringe a ensinar as lições que todo mundo já sabe, e raramente trata das necessidades íntimas daqueles que se converteram e precisam de respostas sinceras para seus dilemas pessoais. Uma dessas questões é a sexualidade. Na igreja, pouco se discute esse assunto à luz da Palavra de Deus, a não ser eventualmente nos encontros destinados aos casais, e, mesmo assim, geralmente de forma superficial. Numa sociedade altamente erotizada, como a sociedade brasileira, a igreja não deveria se calar, mas dar respostas honestas sobre sexualidade.

O que são scripts sexuais?

Samuel - Scripts são os programas, geralmente inconscientes, que norteiam nosso comportamento, que nos fazem agir como agimos. Os scripts, de um modo geral, revelam-se por meio de nossas crenças íntimas, de nossos valores mais arraigados. E não estou falando apenas de crenças e valores religiosos, pois os scripts muitas vezes nos fazem agir na contramão das crenças religiosas, dos valores espirituais defendidos publicamente. Richard G. Erskine ensina que as crenças advindas dos scripts são produzidas a partir de decisões que foram tomadas na primeira infância, antes que a criança tivesse alguma consciência do que suas alternativas são para sua existência no mundo, mas também inclui as decisões tomadas durante o período de desenvolvimento da vida de uma pessoa, geralmente quando ela está sob pressão.

Poderia falar um pouco sobre alguns dos scripts revelados descritos no livro?

Samuel - Foram vários os scripts descobertos na pesquisa e analisados no livro. De um modo geral, confirmou-se a hipótese de que os cristãos evangélicos sofrem sozinhos, sem terem a quem recorrer, quando a questão é a sua sexualidade. Há boas crenças norteadoras do comportamento sexual do casal cristão, mas de um modo geral, as crenças sexuais destoam das crenças religiosas dos entrevistados. Boas crenças discutidas na pesquisa estão relacionadas à relação sexual como meio de satisfação não apenas biológica, mas emocional. Também pôde ser observada a crença de que a boa relação sexual é a que envolve a conquista por meio do romantismo, ou ainda a crença de que a boa relação sexual é a que satisfaz a ambos os cônjuges. Contudo, também se descobriu crenças sexuais divergentes das crenças religiosas dos casais entrevistados. Algumas dessas crenças referem-se ao aumento do desejo sexual associado ao risco de serem flagrados em público, ou ainda aos "parceiros invisíveis" durante a relação sexual, ou também ao uso da violência física consentida durante o ato.

"Homens e mulheres por serem cristãos e acharem que a infidelidade é totalmente impossível, acabam se acomodando quanto à aparência e não investem o suficiente em sua vida sexual como casal." Em sua opinião, este é o motivo para tantas infidelidades conjugais no meio cristão? Se não, quais os motivos principais que abrem esta brecha?

Samuel - Esse é apenas um dos fatores analisados na pesquisa. Contudo, creio que o que mais tem conduzido os casais a terem problemas com a infidelidade está relacionado à perda de intimidade. O casal moderno tem perdido, dia a dia, a sua própria intimidade, pois a modernidade trouxe como consequência uma perda de intimidade. A intimidade é imprescindível aos bons relacionamentos, às amizades duradouras, às caminhadas permanentes. Quando nos permitimos viver com intimidade em relação a quem amamos, então vamos mais longe. Casamentos acabam por falta de intimidade, não por falta de sexo. Amizades se desfazem por falta de intimidade, não por falta do que falar, e igrejas se tornam frias e se dividem por falta de intimidade, não por falta de liturgias e ritos religiosos. A intimidade é fundamental para qualquer relacionamento. Um casamento cheio de intimidade é outro casamento! Ele enfrenta o que vier pela frente e não se desfaz. A intimidade sempre me levará ao segundo passo, que é a cumplicidade. Cônjuges íntimos são cônjuges cúmplices. E essa cumplicidade invariavelmente levará à defesa mútua, um do outro. Ambos se apoiarão e se sustentarão diante dos conflitos próprios da existência.

Como a vida do crente evangélico casado pode agradar a Deus e ao mesmo tempo satisfazê-lo sexualmente?

Samuel - O casal agrada a Deus e se satisfaz sexualmente observando os princípios encontrados na Bíblia. O primeiro desses é o princípio da liberdade. O casal é livre para aproveitar a sua sexualidade como melhor lhe parecer, desde que seja realizada sob os princípios da nova vida, pois "para a liberdade foi que Cristo nos libertou" (Gálatas 5:1). O segundo princípio é o da posse. O corpo do marido pertence à esposa, e o corpo da esposa pertence ao seu marido. O texto de I Coríntios 7:1-4 é claro quanto a essa questão. Outro princípio é o do amor. A Bíblia declara que o amor não constrange, não "força a barra", não reivindica direitos de posse. "O amor não pratica o mal contra o seu próximo" (Rm. 13:10). Há também o princípio da glorificação. O sexo deve ser experimentado de tal maneira que, ao final, o casal possa glorificar a Deus pelo que acabaram de fazer. Por fim, o crente deve considerar o princípio do prazer. Basta ler o livro de Cantares e se verá prazer sexual derramando por todas as suas páginas.

Em sua opinião, os casais evangélicos conhecem os princípios bíblicos quanto à área sexual?

Samuel - De um modo geral, percebo que os casais evangélicos desconhecem os princípios básicos que regem a sua vida sexual, uma vez que boa parte das igrejas, quanto ao sexo conjugal, equivocadamente acaba tratando mais das regras do que dos princípios que regem a conduta sexual de marido e mulher. Curiosamente, o Senhor reserva um silêncio eloquente sobre as práticas sexuais no casamento. Na Bíblia há uma série de atos sexuais considerados ilícitos e pecaminosos pelo Senhor, mas nada se diz quando o assunto é sexo no casamento. A razão desse silêncio é porque Deus considera isso tão íntimo que Ele próprio deixou que o casal resolvesse diante Dele o que melhor lhes satisfizesse. E essa decisão deve ser tomada com base em princípios, uma vez que Deus não deixou regras específicas para a sexualidade conjugal

Qual a responsabilidade dos pais para a formação ou deformação do caráter de seus filhos e também da futura vida sexual destes?

Samuel - Os pais têm grande responsabilidade na educação sexual de seus filhos. Cabe a eles tratar dessa questão com toda clareza possível, conversando com seus filhos abertamente sobre suas duvidas e curiosidades, mas sempre mantendo um equilíbrio entre a ausência de respostas e a excessiva informação sobre o assunto. Obviamente, nem sempre depende apenas dos pais, que os filhos sejam ajustados sexualmente.

De que maneira o líder cristão de uma comunidade eclesiástica deve tratar o sexo na vida cristã?

Samuel -  O líder cristão deve tratar o sexo na vida cristã como Deus o trata, com toda naturalidade. Deve tratá-lo como uma bênção de Deus, reservado ao relacionamento conjugal. Também deve ver o sexo numa perspectiva de adoração ao Senhor, por mais paradoxal que isso possa parecer. Deus nos criou sexuados também para que essa área da nossa vida o glorifique como criador. Necessidades sexuais são tão legítimas quanto as demais necessidades biológicas, e os pecados sexuais deveriam ser tratados com a mesma naturalidade com que se tratam os pecados relacionados ao caráter, como a maledicência, o egoísmo ou a desonestidade.

Quais as conclusões do estudo realizado?

Samuel -  Algumas observações, a partir da pesquisa. 1) Os casais evangélicos têm enormes carências quanto à questão sexual, pois praticamente não se fala de sexo nas igrejas, e os pastores se esquivam de tratar do assunto, porque eles mesmos estão em busca de uma resposta para suas indagações pessoais; 2) Boa parte dos casais evangélicos vive uma crise nessa área, e geralmente um dos dois está insatisfeito com sua vida sexual; 3) Há uma grande carga de culpa relacionada à questão sexual, pois no imaginário coletivo religioso, sexo está intimamente associado a pecado (mesmo quando realizado no casamento); 4) Há muito pouca liberdade sexual entre os casais evangélicos, pois ambos os cônjuges (ou um deles) consideram algumas práticas sexuais entre os dois como tabus; 5) A maioria dos casais faz um divórcio entre a vida sexual e sua vida espiritual, de modo que sexo nada tem a ver com Deus e sequer é nomeado em suas orações ou é motivo de ação de graças; 6) Entre os casais evangélicos há uma tendência de leitura fundamentalista da Bíblia, contrapondo-se à uma prática liberal.

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Título do artigo: Scripts sexuais do relacionamento conjugal cristão
Autor: Samuel Costa


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