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O stress no ministério pastoral

Entrevista com Eunice Pedroso Moraes Assumpção
Publicado em 17.05.2006

Baseada em seus estudos e dissertação, apresentada em 2002 sob o título “Stress, trabalho e estilo de vida do ministro religioso", Eunice Pedroso de Moraes Assumpção clarifica nesta entrevista o conceito de stress e burnout, suas causas e implicações no ministério de líderes e pastores. Ela fala sobre a dificuldade de se tratar estes assuntos dentro das igrejas, principalmente sob a perspectiva da psicologia, e dá orientações aos que se encontram próximos a um esgotamento físico ou emocional em seus ministérios. Eunice é membro do CPPC; especialista em Teoria do Stress pelo Instituto Paulista de Stress, Psicossomática e Psiconeuroimunologia; mestre em Teologia pelo Instituto Mackenzie.

Há um bom tempo, o stress é tema largamente abordado pela mídia e o termo já faz parte do cotidiano das pessoas, dos mais jovens aos mais velhos, seja no trabalho, em casa, na escola, no consultório médico... Afinal, qual é a melhor definição para stress e quais os seus principais “sintomas”?

foto de Eunice Pedroso Moraes Assumpção
Eunice - É preciso dizer que o stress sempre fez parte do cotidiano do ser humano para garantir a sua própria sobrevivência. Explico: as reações de uma pessoa sob stress constituem o seu sistema de defesa em situações de risco e podemos entender que stress é a capacidade de cada ser vivo de se adaptar a situações que exigem esforço fora do comum. Essas situações nem sempre são perigosas, pode haver stress em ocasiões de extrema alegria, onde o organismo se mobiliza para enfrentar o diferente. Os principais sintomas podem ser agrupados em três fases: reação de alarme, fase de resistência e fase de exaustão. Já na primeira fase é possível observar importantes alterações: taquicardia, dores de cabeça, pressão alta ou baixa, sudorese, irritabilidade, insônia ou sonolência, tensão muscular, fadiga crônica, sensação de esgotamento e outros. Não se deve esperar que esses sintomas se intensifiquem para procurar ajuda, pois podem se agravar na segunda fase. Ao atingir a fase de exaustão, os sintomas serão específicos da patologia que vier a se instalar e isso depende das peculiaridades de cada pessoa (hereditariedade, por exemplo) e ela pode desenvolver doenças coronarianas, do trato digestivo, respiratório ou outras.

E na igreja, o stress está presente? Esse é um tema falado e trabalhado dentro de nossas igrejas?

Eunice - Embora as pessoas de um modo geral já venham discutindo temas relacionados ao stress, em um âmbito mais específico, o do ministro religioso, esse assunto ainda não é visto como essencial. O que vemos é que ainda é difícil admitir e cuidar dos efeitos nocivos do excesso de stress na pessoa e na família do sacerdote.

Em sua dissertação você focaliza o stress na vida dos ministros religiosos. Como os pastores, por exemplo, lidam com o stress? Eles geralmente o identificam e reconhecem a necessidade de tratamento?

Eunice - Creio que, principalmente do ponto de vista emocional, há grande dificuldade de reconhecer quando a carga se torna intolerável, é mais fácil admitir sintomas físicos. Foi o que demonstrou a minha pesquisa: a maioria coloca a si mesmo, e por vezes a família, em segundo plano. O rebanho ocupa seu maior tempo. Essa atitude pode gerar conseqüências perigosas, é como viver apagando incêndios: os danos da queimada podem ser irreversíveis.

Em seu estudo e pesquisas você identificou “fatores estressores” na vida dos ministros religiosos. Quais seriam os principais?

Eunice - Na vida pessoal encontramos: isolamento, falta de tempo para a família e sentimento de culpa por esse motivo, problemas de saúde, falta de privacidade, pressão econômica. Na vida ministerial: falta de ser pastoreado, solidão, sensação de ser sempre observado, medo de se expor, administração eclesial, falta de amizades profundas, desconfiança entre os pares, disputa pelo poder, preparo inadequado no seminário no aspecto de relações humanas, com muito academicismo, fora da realidade encontrada das igrejas.

Podemos considerar que o estilo de vida dos pastores, em geral, é um estilo de vida “estressante”?

Eunice - É sempre bom lembrar que o estilo de vida dos pastores e pastoras não foge do estilo de vida que predomina atualmente, onde o ativismo é comum e o cuidado com a saúde, exercícios físicos, alimentação adequada não são prioridades na vida da maioria das pessoas. Este quadro existe no meio eclesial, sem dúvida.

Um quadro de stress sempre exige um acompanhamento psicológico?

Eunice - Nem sempre, no entanto é preciso estar atento para a possibilidade de que, em uma situação prolongada de stress, podem vir à tona questões emocionais da família ou da vida pessoal do pastor, caso em que deve ser encaminhado ao profissional da área, psicólogo ou psiquiatra conforme o caso.

Como cristãos, especialmente quando se fala de pastores e líderes, temos uma tendência em tratar todos os tipos de questões focalizados apenas no aspecto espiritual. Diante disso, os tratamentos psicológicos são bem-vistos e bem-quistos pelos ministros ou prevalece o preconceito em relação ao acompanhamento médico e psicológico?

Eunice - Podemos dizer que temos visto esforços nas igrejas no sentido de esclarecimento quanto a tratamentos psicológicos, conseqüentemente a aceitação é maior. Contudo, ainda encontramos líderes que insistem em manter o foco apenas no aspecto espiritual. À época da pesquisa (2001) os seminários não davam tanta importância à questão do preparo do futuro pastor na área de psicologia; hoje já se pode observar algumas mudanças. O Seminário Presbiteriano do Sul em Campinas é um exemplo dessa mudança.

Como a família pode contribuir para que um quadro de stress na vida do pastor seja revertido? E qual o papel da igreja (membros e companheiros de ministério) neste processo?

Eunice - Essa é uma situação muito delicada, pois em muitos casos, a família do pastor ou pastora, também é vítima quando se instala uma situação de stress. Em todo caso, ajuda muito não estabelecer uma ação de “tapar o sol com a peneira”, o problema tem que ser reconhecido, aceito e tratado, o rebanho tem que ser orientado a ver essas dificuldades como de uma família normal, embora, como disse um dos colaboradores da pesquisa (pastor, casado, três filhos) “ ...o povo tem expectativas de santidade do clero... mas o pastor não é santo, ele tem defeitos, tem dificuldades...há um sentimento negativo de medo (por parte do pastor) porque a comunidade não permite que o pastor seja frágil”.

O que você identifica como as principais conseqüências do stress no ministério do pastor e quais as implicações para o rebanho?

Eunice - O grande risco é que pastores doentes, emocional ou fisicamente, ministram para igrejas doentes ou que podem se tornar doentes se o problema não for detectado e tratado.

Um importante tema também abordado pela psicologia e pela gestão de pessoas é o “burnout”. O que é o burnout e como identificá-lo?

Eunice - Embora alguns sintomas físicos já citados anteriormente sejam comuns ao stress e ao burnout, alguns autores preferem definir este último mais pelos sintomas emocionais que são: desligamento de atividades, emoções embotadas, desmotivação, desmoralização, paranóia, despersonalização, depressão causada pela perda de esperança, sensação de impotência, enfim o burnout não mata mas torna a vida sem valor. Já o stress pode matar prematuramente.

Assim como o stress, ele também é freqüente na vida dos ministros religiosos?

Eunice - Não conheço estatísticas no meio religioso, mas de um modo geral, há um número crescente de profissionais ligados à área de saúde sofrendo esses sintomas.

Que orientação ou conselho você deixaria para os líderes e pastores que se sentem à beira de um esgotamento físico ou emocional?

Eunice - Penso que a direção espiritual, tal como propõem autores como Archibald Hart, Eugene Peterson (Um Pastor Segundo o Coração de Deus) e outros, é um recurso importantíssimo a ser incluído na vida dos líderes religiosos. Do ponto de vista desses autores, a direção espiritual não se restringe a práticas espirituais, vai além porque cuida do ser como um todo, em sua dimensão física, emocional e espiritual. Para os amados pastores e pastoras que estão colocando atenção no seu dia a dia, fica a frase de Lennart Levy: “O ser humano é capaz de adaptar-se ao meio ambiente desfavorável, mas esta adaptação não acontece impunemente”.

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Título do artigo: O stress no ministério pastoral
Autor: Eunice Pedroso Moraes Assumpção


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