Coração de líder - Entrevistas - Instituto Jetro

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Coração de líder

Entrevista com Marco Fabossi
Publicado em 11.02.2016

Liderança não é uma posição, mas uma escolha, uma decisão que se estabelece a partir do momento em que o líder substitui a pergunta: "Que vantagens a liderança pode trazer pra mim?" por "Que vantagens minha liderança pode trazer às pessoas?" ou "Qual é a vantagem das pessoas em ter-me como líder?".

Coração de Líder é um livro dedicado àqueles que são ou desejam tornar-se líderes, não por causa dos benefícios que a liderança lhes pode trazer, mas pela possibilidade de influenciar e desenvolver pessoas através de suas atitudes e exemplo. O líder que age com o Coração de Líder se torna o "número um" colocando as pessoas em primeiro lugar; é um líder que conhece e acredita no potencial das pessoas, que reconhece o seu papel no desenvolvimento delas, e que cria um ambiente de aprendizado contínuo, fazendo com que a valorização e o crescimento do capital humano saia da abstração para a prática, estabelecendo assim a verdadeira sustentabilidade nas organizações.

O Instituto Jetro entrevistou o autor do livro. Marco Fabossi é graduado  em Administração de Empresas pela FEI-ESAN com Especialização e MBA pela FGV. Atuou como Executivo em Empresas Nacionais e Multinacionais, e atualmente é Sócio-Diretor da Crescimentum - Alta Performance em Liderança. Palestrante, Escritor, Trainer e Coach com foco em Liderança. Coach Executivo e Coach de Equipe, certificado pelo ICI, filiado ao ICF. Life Coach pelo Instituto Holos. Master Practitioner em PNL. Autor do Livro "Coração de Líder: A Essência do Líder-Coach" (coracaodelider.com.br). Autor do Blog da Liderança (blogdofabossi.com.br). 

Marco Fabossi

Instituto Jetro - Você diz que o mundo sofre com a falta de verdadeiros líderes, aqueles que se interessam pelo ser humano. A que se deve esta falta?                                                                                   Marco - Antes de responder diretamente a essa pergunta, é importante entender que o líder não existe para si mesmo, mas para as pessoas que lidera, afinal, se não existirem "liderados", o papel do líder é totalmente dispensável. Digo isso porque muitos líderes ainda não perceberam esse fato, e acreditam que são as pessoas que devem servi-los, quando na verdade são os líderes que devem fazê-lo às pessoas. Pra que isso aconteça, é preciso ter interesse genuíno nas pessoas, no seu crescimento e bem-estar, amá-las com amor ágape (que espera nada em troca), ter empatia por elas, e humildade para reconhecer que o papel de líder não o torna melhor ou superior a qualquer outra pessoa. Infelizmente, a falta de líderes acontece justamente porque muitos líderes tropeçam em algumas dessas características, e o maior obstáculo de todos é uma palavrinha pequena, mas muito poderosa: ego. Muitos líderes estão tão focados em garantir que sejam vistos, reconhecidos, aclamados e até "endeusados", e em vez de usarem sua autoridade para formar seres humanos resilientes e independentes, preferem usar o seu poder para submeter e amedrontar as pessoas, tornando-as dependentes e incapazes de pensar por si mesmas.

Instituto Jetro -  Como formar líderes que são comprometidos com os resultados, mas acima de tudo, com o ser humano?
Marco - Primeiramente ajudando nossos líderes a compreender que só existe uma pessoa capaz de formar novos líderes, o próprio líder. Um líder não se forma em sala de aula, mas no dia a dia, caminhando junto, colocando os braços ao redor, incentivando, corrigindo, desafiando, acompanhando. Se quisermos colher tomate, precisamos plantar a semente de tomate. Se quisermos colher novos líderes, comprometidos com o ser humano e com os resultados, é preciso plantar a semente da liderança, algo que só um líder pode fazer por meio do seu próprio exemplo, por isso, a única maneira de formar estes novos líderes é ajudando nossos atuais líderes a compreenderem o que já respondi na primeira pergunta, e que não existem resultados sem pessoas; são elas que fazem o melhor resultado acontecer, portanto, se elas estiverem bem cuidadas, motivadas, engajadas, preparadas e empoderadas, certamente o melhor resultado virá. Portanto, de uma maneira simples e lógica, os melhores resultados só virão por meio de pessoas preparadas e dispostas a buscá-los. A Neurociência tem ajudado a compreender cientificamente como as pessoas funcionam e isso pode facilitar o entendimento de líderes mais lógicos e racionais, que normalmente enxergam os resultados antes das pessoas. Acabei de escrever um artigo no meu blog  que fala sobre este tema. Talvez você possa aproveitar algo do artigo também.

Instituto Jetro -  "O líder faz o líder". O que poderia dizer mais sobre esta afirmação?
Marco -  Só um líder pode produzir outro líder. Essa expressão também me remete à uma reflexão a outra frase comum que ouço as vezes: "A situação faz o líder". Obviamente que em muitas situações onde não existe uma liderança formal, ou mesmo quando existe, novos líderes aparecem. Como numa situação emergencial. As vezes o "chefe" fica parado e aparece alguém pra resolver o problema. Podemos dizer que essa pessoa liderou essa situação, e isso pode ter acontecido por vários motivos, mas não poderíamos dizer que essa pessoa é um líder, porque liderança vai muito além de resolver problemas pontuais. Portanto, não é a situação que faz um líder, mas a sua decisão de liderar para tornar melhor aquilo que está ao seu redor no presente, para que isso colabore para a construção de um futuro melhor para todos. E pra isso é preciso apoio, como comentei na pergunta  acima.

Instituto Jetro - Por que o nome "Coração de líder" para o seu livro?
Marco - Por que é impossível liderar apenas com a razão. No artigo que citei anteriormente do meu blog, eu menciono que o cérebro humano é muito mais emocional do que racional e, portanto, será impossível liderar pessoas sem considerá-las integralmente. Elas não entram da porta do trabalho, ou da igreja, ou de suas casas, e deixam suas emoções, sentimentos e problemas do lado de fora. Elas veem inteiras, e o líder, se quiser ser bem-sucedido como tal, precisa considerá-las como gente, e não apenas como recursos para chegar a resultados no final do mês.

Instituto Jetro - Poderia falar sobre os dois papéis: gestor e líder ?
Marco - O sucesso de qualquer organização depende de fatores técnicos e humanos, ou se preferirmos: gestão e liderança. Vários estudos indicam que o desempenho de uma organização depende, em números aproximados, de 80% de fatores humanos e 20% de fatores técnicos. Mas, apesar dessa constatação, ainda percebemos muitas organizações empregando a maior e melhor parte de seus esforços aos fatores técnicos, deixando em segundo plano os fatores humanos; e, com essa postura, tornam-se cada dia mais frágeis e vulneráveis. Segundo John Kotter, tornam-se, organizações supergerenciadas e sublideradas.

Uma situação bastante comum no cotidiano das organizações é a promoção de pessoas que se destacam técnica, tática e operacionalmente em posições de liderança, sem que haja a devida preparação e formação desse novo líder. Todo bom profissional busca aperfeiçoamento e trabalha forte para progredir em sua carreira, portanto, esse ciclo de crescimento é absolutamente natural e necessário. O problema, contudo, é que a maioria desses profissionais são conduzidos a posições de liderança sem a menor ideia do que significa cuidar do mais valioso recurso da organização: as pessoas. Elas possuem conhecimentos que as tornam bons técnicos e até gestores, mas não têm qualquer formação e suporte para se tornarem bons líderes fazendo com que, com o tempo, sejam naturalmente levadas a fazer uso do poder e controle para manter sua nova posição. O final dessa história é mais ou menos assim: a equipe perde um ótimo vendedor e ganha um péssimo supervisor de vendas.

Gestão é o que fazemos, liderança é o que somos. São papéis diferentes na mesma pessoa. O gestor-líder tem a responsabilidade de potencializar as possibilidades de sinergia entre gestão e liderança, através do alinhamento dos interesses do negócio e das pessoas, já que as organizações necessitam tanto de gestão quanto de liderança, em doses diferentes e em momentos diferentes. Se houver um desequilíbrio exacerbado nessa relação, principalmente no que tange ao foco excessivo na conquista de resultados de curto prazo, fatalmente, haverá negligência e desatenção em relação às pessoas, colocando em risco o presente e o futuro das próprias organizações. Portanto, um dos primeiros modelos mentais que devemos estabelecer com relação a esse tema é que gestão e liderança não são conflitantes, mas complementares, e precisam ser dosadas de maneira que mantenha o equilíbrio necessário, de acordo com o momento e a situação.

Costumo fazer uma analogia da Gestão e Liderança com uma bicicleta. A roda traseira é o que movimenta e faz o negócio girar: estabelece metas, planeja e controla despesas e receitas, cria regras e processos, define indicadores de desempenho, acompanha, ajusta, com foco principal em resultados. Em nossa bicicleta, a roda traseira representa a gestão. A roda dianteira, por sua vez, é o que dá direção e equilíbrio a tudo isto: é o que inspira e motiva as pessoas, mantendo a equipe unida em torno de objetivos comuns, caminhando na mesma direção. Dá o primeiro passo rumo à visão de futuro, transmitindo confiança à equipe, conquista autoridade pelo respeito e serviço às pessoas, trabalha para aumentar a confiança e diminuir o controle, e foca na formação de novos líderes. A roda dianteira representa a liderança.

Quanto mais o Gestor-Líder consegue manter as duas rodas em movimento, mais rápido e mais longe chegará sua bicicleta, ou seja, melhores serão os resultados para todos: gestor, organização e pessoas. Se ele preferir andar com uma roda apenas, seja ela a traseira ou dianteira, terá problemas. "Líder é como o pastor de ovelhas, que seguindo não à frente, mas atrás e com a ajuda do cão, conduz o rebanho fazendo-o acreditar que é ele que decide o caminho a seguir". (Nelson Mandela)

A relação entre as ovelhas e seu pastor é algo puramente pessoal, baseada mais em confiança do que em imposição; uma relação que busca cuidado em vez de realização pessoal. Como a ovelha tem boa visão apenas para a curta distância, não é raro que ela se equivoque e tome caminhos errados. O pastor vai buscá-la e, ao encontrá-la, a reconduz ao rebanho. Quando inimigos naturais se aproximam, o pastor utiliza sua vara para defendê-las. O cajado é usado pelo pastor para indicar a direção, para puxar a ovelha para perto de si ou para resgatá-la de algum barranco ou buraco.

Na preparação do pasto, o pastor tem de ser muito cuidadoso, pois pode haver perigos para os quais a ovelha está despreparada. O pastor vai à frente do rebanho e remove esses perigos antes que as ovelhas cheguem. No antigo Oriente Médio, era costume o pastor dar nome a cada ovelha, tal o senso de relacionamento e intimidade entre eles e, quando ele as chamava pelo nome, elas prontamente o seguiam. Algumas vezes, pelo conforto do aprisco, pelo medo dos perigos lá fora, ou simplesmente pela preguiça, as ovelhas não queriam sair. Então, o pastor tinha de entrar, posicionar-se atrás das ovelhas e gentilmente conduzi-las para fora, tirando-as de sua zona de conforto. Quando todas saíam, ele ia adiante delas conduzindo-as para os diversos destinos do dia.
O que podemos perceber, portanto, é que o líder e o pastor de ovelhas têm muito em comum. Assim como um pastor, o líder estabelece relacionamentos com seus liderados, com base em transparência e confiança. O líder defende e protege seus liderados.

Quando alguém se equivoca, muitas vezes por não ter a visão do todo, o líder o reconduz para o caminho certo e o reintegra à equipe. O líder é quem desbrava e prepara o caminho por onde seus liderados irão passar, mas também é quem empurra a equipe quando existem sinais de desmotivação ou insegurança.

Perceba, contudo, que na analogia de Nelson Mandela, existe a figura do cão, o grande parceiro do pastor. Peço antecipadamente desculpas pela analogia, mas aí está o gestor, completando assim, juntamente com o pastor, a figura do Gestor-Líder. O líder, no papel de pastor, e o gestor, atuando como cão. A combinação do trabalho desses dois personagens é que traz o equilíbrio necessário para que sejam cumpridas as expectativas do rebanho e de seu dono. Nas mãos do cão, por mais qualificado que seja, o rebanho não chegaria muito longe, porque o cão não sabe muito bem para onde estão indo, já que sua visão é de curto alcance. Tampouco o pastor conseguiria bons resultados sem o cão, que, por apresentar habilidades únicas e peculiares, torna-se imprescindível para que a visão de futuro do pastor seja colocada em prática.

Instituto Jetro - O que falar das perguntas que todo líder deveria fazer a si mesmo: "Qual a vantagem de ser líder?" e "Qual é a vantagem das pessoas em ter-me como líder?
Marco - Bem, mais que falar sobre as perguntas, é preciso que os líderes as respondam com sinceridade, primeiramente qual é a pergunta que entendem ser mais adequada para um líder. Nosso país (e algumas igrejas) vive hoje o reflexo de líderes que preferem se fazer a primeira pergunta, e com isso buscam maneiras de encontrar benefícios (ainda que escusos) para si mesmos. Se quisermos um mundo melhor para todos, nossos líderes precisam escolher e responder à segunda pergunta, porque é para as pessoas que eles existem. Pra completar, eles podem se perguntar: "Eu gostaria de ser liderado por mim? Por que?", "Eu me seguiria?".

Instituto Jetro - Como ser um líder de sucesso? Quais os seus conselhos para pastores e líderes?

Marco - Busque tornar-se um líder que realmente faça diferença na vida daqueles que estão à sua volta, ajudando-os a se tornarem melhores profissionais, líderes mais eficazes e, principalmente, melhores seres humanos. Não existem líderes perfeitos, tampouco existem líderes que não estejam em aperfeiçoamento, portanto, o aprendizado contínuo, natural e espontâneo é o caminho que lhe permitirá crescer e deixar de lado a antiga ideia de que é possível avançar com aquilo que eu já sei. O mundo, os cenários e as organizações mudaram e continuam mudando. Portanto, sua liderança também precisa mudar. Já não há espaço para líderes que vivem reclamando que sua equipe não é aquilo que eles gostariam que fosse, sem perceber que, na verdade, eles podem não ser o líder que essa equipe gostaria de ter. Assim sendo, não espere que excelentes profissionais casualmente batam à sua porta procurando algo para fazer. Se quiser ser o líder de uma equipe de alto desempenho, empenhe-se no desenvolvimento das habilidades e do caráter de seus liderados.

O Líder não se queixa das situações, mas as transforma. Logo, nunca deixe de se desenvolver como líder; descubra seus pontos fortes e invista neles. Seja corajoso e claro em meio às incertezas, não se prenda ao passado, trabalhe forte no presente e mantenha os olhos no futuro, formando líderes que também ajam com o Coração de Líder, porque a diferença entre o passado e o futuro está no presente, que está em suas mãos.

Seja alguém comprometido com os resultados mas, acima de tudo, comprometa-se com o ser humano. Sirva as pessoas com amor, caráter e integridade, e evite usar o poder, a autoridade e a influência para servir seus próprios interesses. Não se preocupe com honra pessoal, mas esteja atento às necessidades daqueles que estão ao seu redor. Viva uma vida com sentido, propósito e equilíbrio; persiga objetivos e resultados legítimos, porque em suas mãos está a oportunidade de construir um futuro cheio de fé, amor, respeito, esperança, dignidade e espiritualidade.

Não se esqueça de que seu legado não será determinado pelos bens que deixou, pelas organizações que liderou, pelos recordes que estabeleceu ou pelos produtos que desenvolveu, mas pelas vidas que influenciou e pelos líderes que formou.
Você pode até preferir deixar as coisas como estão e permanecer numa zona de conforto e monotonia, mas também pode decidir por ser ousado, cultivando a semente da liderança, liderando a si mesmo, transformando sonhos em visão, liderando de corpo, alma e espírito, servindo as pessoas, priorizando a autoridade ao poder, comunicando com responsabilidade, fazendo da pergunta sua maior aliada, agindo com ética, e atuando como um Líder Formador; transformando suas ações em algo realmente importante e relevante para as pessoas, para as organizações, para a humanidade e principalmente para você, porque, dessa maneira, estará cumprindo o verdadeiro propósito para o qual você foi criado. Especialmente para pastores, não deixe de perguntar-se: "O que Jesus, como líder, faria nessa situação?".

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Título do artigo: Coração de líder
Autor: Marco Fabossi


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