Moradores de rua e a Missão Vida - Entrevistas - Instituto Jetro

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Moradores de rua e a Missão Vida

Clayton Massao Santos
Publicado em 02.10.2012

A mendicância não é uma exclusividade brasileira. Os moradores de rua ou mendigos, essa parcela da população existe não apenas nos países em desenvolvimento, mas também entre as nações mais ricas e desenvolvidas do planeta.

Culparemos os governos, a falta de oportunidade, de estudo, as drogas, as dificuldades de relacionamento. Mas, o fato é que eles continuam lá: nas ruas.

Tendo como teto o céu estrelado, o sol escaldante ou ainda a garoa e a chuva tempestuosa. Alguns moradores de rua têm certificados, diplomas, mas não têm parede para pendurá-los, não tem família. A rua é o que lhes restou. A cidade não os enxergam, não os respeitam. Na verdade, para alguns, eles incomodam e assustam, e  poucos, bem poucos, sensibilizam-se.

A Missão Vida tem acolhido estes moradores de rua (confira a entrevista dada ao Instituto Jetro em 2008 pelo Pr. Wildo, onde fala do início do Trabalho da Missão Vida e da responsabilidade social das Igrejas) e neste ano, fundou sua mais nova unidade em Rolândia - PR. Para falar um pouco mais deste trabalho e da realidade dos moradores de rua (mendigos), o Instituto Jetro entrevistou o Pr. Clayton Massao Santos.

Pr. Clayton é  Graduado em Teologia pelo Instituto Bíblico do Betel Brasileiro, começou seu ministério pastoral em 2003 na Missão Vida. Visitou igrejas em várias parte do Brasil com o trabalho de despertamento missionário. Coordenou o Centro de Oração, Centro de Formação Vida, Instituto Biblico Palavra e Vida, Centro de Reintegração. Foi pastor titular da 1° e 2° Igreja Vida e dirigiu o programa SSS - Sopa, Sabão e Salvação entregando alimento aos mendigos nas ruas durante 8 anos. Atualmente é o Coordenador geral do Centro de Triagem em Rolândia/PR.

 Clayton Massao Santos
Muitos mendigos hoje, eram empresários, pais de famílias, trabalhadores. O que fez com que deixassem suas casas para se sentirem acolhidos pelas ruas? Drogas? Cobranças sociais? Frustrações em relacionamentos? Como recuperar sua autoestima e a percepção de sua situação decadente desejando assim a mudança?

Clayton - Existem diversos motivos. O principal é o vício que gera irresponsabilidade, insustentabilidade no trabalho e problemas de relacionamentos graves na família. Em segundo lugar alguma decepção familiar ou perda de entes queridos, trazendo assim grande abalo emocional fazendo com que deixem de ter a noção da realidade em vista do sofrimento indo para as ruas. Isso sem descartar a questão espiritual de pessoas que são perturbadas e tentadas a viver este tipo de vida, que em seus entendimentos, não é uma vida ruim, pelo contrário, alguns até acham uma vida boa, pois na rua tem (uma falsa) liberdade, acordam na hora que querem, vão para onde querem, não tem que dar satisfação para ninguém da própria vida. Isso faz com que alguns se sintam acolhidos pelas ruas.

No começo do meu ministério pensava que os mendigos estavam nas ruas por causa da falta de oportunidade, e isso é verdade em alguns casos, mas infelizmente muitos estão por comodismo, por consequência dos vícios e da falta de perspectiva de vida. Diferente do que pensam alguns, a mendicância é um vício.

Há algumas "vantagens" , como citou, em morar na rua como: o consumo das drogas, os trocos, e a falta de disciplina. Para a recuperação dos moradores de rua, roupas e comidas não são suficientes. Quais são as etapas do programa de recuperação da Missão Vida? Qual a estrutura e como estão sendo realizados os trabalhos da mais recém unidade inaugurada em Rolândia-PR?

Clayton - A Missão Vida trabalha em três etapas: triagem, recuperação e reintegração. Na triagem os internos ficam cerca de 30  a 60 dias, depois eles são encaminhados para o Centro de Recuperação, onde eles completam o período de 7 meses. Se eles não tiverem para onde ir eles vão para o Centro de Reintegração. Graças a Deus, as estruturas são muito boas. O Rev. Wildo costuma dizer que se o mendigo não ficar por Jesus ele ficará pela estrutura, e depois ele vai poder ouvir falar de Jesus.

No total a Missão Vida tem sete núcleos localizados em seis estados diferentes, todos
voltados para recuperação de mendigos. Existem muitos obreiros e funcionários da Missão Vida que hoje atuam nas diversas unidades que são oriundos do programa de recuperação, inclusive no escritório, no Centro Educacional, no Salão Terra Nova e no Centro de Oração. Dezenas deles ex-internos. É impossível dimensionar exatamente quantos foram recuperados e reintegrados durante estes anos. Atualmente a Missão Vida oferece 530 leitos. As vagas para o reintegração são 40 e sempre são todas preenchidas. Mais do que números, temos muitas história para contar, e estas podem ser visualizadas na sessão Testemunhos do site da Missão Vida.

Em Rolândia/PR é uma área de 24.200 metros quadrados com 1 casa para obreiro, 2 campos de futebol. Refeitório, capela e alojamentos estão sendo reformados para atender ao padrão da Missão. Nesta fase as terapias ocupacionais estão centradas nessas reformas e manutenção da chácara. Atualmente temos 11 internos em Rolândia. 

O sr. concorda com que disse Zilda Arns para a VEJA: "qualquer projeto de combate à miséria só vai dar certo se os próprios excluídos se tornarem autores de sua ação libertadora. Eles devem ser sujeito, e não objeto, das ações. Não adianta fazer algo por eles. É fundamental que eles tomem parte ativa no processo. Eles começam a ganhar autoestima, a sair de uma condição de passividade para acreditar e lutar pela mudança da própria vida e da vida de sua comunidade. Necessitam apenas de capacitação, orientação e acompanhamento. Só assim poderão recuperar o valor humano latente."

Clayton - Eu concordo com a Zilda Arns, o processo, porém, começa com uma oportunidade e através dessa oportunidade ter capacitação, orientação e acompanhamento. Oportunidade de tomar um banho e vestir uma roupa limpa, de se alimentar adequadamente, de dormir sem frio, de se sentir seguro, de conhecer a Deus. Evidentemente, a atuação do indivíduo como sujeito no processo é fundamental para que não volte às ruas. Acredito que ninguém consegue prevalecer contra as adversidades da vida sem ter a mente e consequentemente suas atitudes transformadas.

Às vezes o mendigo sai das ruas, mas a mendicância não sai deles. Ainda estão com o comportamento de receber, receber, receber. Como diz o Rev. Wildo, o mendigo deixa de ser mendigo quando ele começa a dar, distribuir, compartilhar. Ele deixa de ser objeto de misericórdia para ser o agente da misericórdia. Quando as pessoas nos procuram para internar alguém, fazemos duas perguntas: 1) Ele quer? 2) Ele está disposto a se submeter ao tratamento obedecendo às condições da internação?

Porque a mudança em sua vida só pode começar a partir dele mesmo. Por isso, também, o processo de terapias ocupacionais das 6h30 às 20h, incluindo os cultos e devocionais, são tão importantes. O interno não é apenas alguém esperando o tempo passar e o transformar, é agente no próprio processo de transformação.

Graças a Deus eu nunca me acostumei com os milagres que o Senhor tem operado na Missão, não vejo os números, pelos números, mas vejo os números como indivíduos que foram alcançados pela graça de Deus.

Nossas igrejas não estão preparadas para acolher os mendigos. O que fazer? Como conseguir a empatia que o príncipe teve ao ficar na "pele" de mendigo, descrita na obra literária "O Príncipe e o Mendigo" de Mark Twain?

Clayton - É importante levar pessoas sérias, ou o próprio pastor da igreja falar sobre o assunto. As pessoas não estão prontas para o desconhecido. Quando o assunto é abordado à luz das escrituras e levado a ser executado em amor, pois sem amor, nem um corpo queimado em chamas tem valor. Imagine que apareça um mendigo no culto, o que fazer? Às vezes, a igreja repele esse tipo de indivíduo numa mostra de insegurança e atestado de não saber como reagir. Existem literaturas para a Igreja que abordam a questão de Missão Integral e obras de misericórdia. Em minha opinião, para sentir o que o mendigo sente, ou vamos para as ruas experimentarmos na íntegra o que eles sofrem, ou, o que eu sugiro, que observemos suas vidas e reações, colocando-nos em seu lugar através da observação e sentimento de compaixão. Fazendo assim, não teremos como ficar inertes frente a essas situações. Mais do que ver o problema, é necessário, assim como Jesus, parar e dar atenção a necessidade alheia. É necessário se importar de verdade.

Como as Igrejas podem ajudar o ministério e também, encaminhar moradores de rua para recuperação?

Clayton - As pessoas podem entrar em contato conosco pelo telefone do núcleo em Rolândia (43) 4102 0477, para encaminhamentos na região Sul. Demais regiões, é necessário ligar nos fones (62) 8112 0234 ou (62) 3318 4143 para verificar disponibilidade de vagas. Para doações, ligar (62) 3318 2085 ou envie um e-mail para: mvida@mvida.org.br.

Sapatos, roupas, alimentos, remédios, material de construção e doação em espécie são sempre necessários, tendo em vista que o atendimento é 100% gratuito. Outra forma de ajudar é agendar uma visita de uma equipe da Missão Vida. Lembrando que a Missão trabalha apenas com público masculino, exclusivamente mendigos, acima de 25 anos e que tenham disposição de passar pelo processo de recuperação de 7 meses, sujeito às normas da casa.   

Quais os conselhos para pastores e líderes que desejam atender aos moradores de rua com ministério próprio da Igreja?

Clayton - Existem alguns passos que são importantes. Uma visita da Missão Vida a fim de atender com workshop e Impacto Missionário, pode ajudar. Essas visitas são sem custo para Igreja.

Os pastores podem começar oferecendo uma refeição. Esta pode ser oferecida uma vez por semana, uma vez por mês, na própria igreja, ou nas ruas. Enfim, da maneira como a igreja acha que pode atender com regularidade. Outro ponto é formar uma equipe com chamado para este tipo de ministério para atender os mendigos. Com o passar do tempo, a igreja começará a conhecer os mendigos da região e identificar os que desejam tratamento. Neste ponto, os irmãos podem encaminhar para a Missão Vida ou outras instituições. Sem esquecer, de acompanhar estes moradores de rua.

No Livro " A triagem Perfeita de Jesus" falo sobre o processo de triagem e o passo a passo de todo o processo. Para fazer um pedido basta entrar em contato no e-mail citado acima. Existe também um congresso, denominado Ação e Adoração, que este ano acontecerá de 7 a 9 de dezembro, nas instalações da Missão em Cocalzinho/GO. Este é um bom evento de capacitação para quem deseja atuar ou já está engajado nesta área.

Por último, é importante lembrar que se a Igreja não pretende abrir um Centro de Recuperação, ela pode apoiar espiritual e financeiramente uma Casa de Recuperação de sua confiança.

Reprodução Autorizada desde que mantida a integridade dos textos, mencionado o autor e o site http://www.institutojetro.com e comunicada sua utilização através do e-mail artigos@institutojetro.com

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