Liderança por relacionamentos - Entrevistas - Instituto Jetro

carregando...

Liderança por relacionamentos

Entrevista com José Roberto Cristofani
Publicado em 11.04.2017

Somos seres relacionais!

Hoje, mais do que nunca, é necessário enfatizar e fortalecer nossa compreensão do significado da comunhão/relacionamento em nossas comunidades de fé. E como podemos fazer isso? Há várias formas de se fortalecer a comunhão dos santos, mas cremos que a mais básica seja os relacionamentos entre o povo de Deus. Uma liderança bíblica deve satisfazer as necessidades dos seus liderados, a mais básica é Relacionamento.

O Instituto Jetro  conversou sobre o tema com José Roberto Cristofani - Doutor (PhD) em Bíblia, pela EST - Escola Superior de Teologia da IECLB, Educador nas áreas de Teologia e Educação Cristã, Poeta e Escritor. Autor dos títulos: Presbiterato por meio de relacionamentos , Meditações no Primeiro Testamento e Meditações para Celebrar Casamento. Atualmente colabora na IPI do Ipiranga e desenvolve ações como Secretário de Educação Cristã do Presbitério do Ipiranga (IPIB).  É Pastor Presbiteriano há 30 anos. Diretor-fundador da Educatech E-Learning Solutions, empresa que fornece soluções para EAD - Ensino à Distância. Conheça o blog  do Dr. Cristofani. 

Rev. José Roberto Cristofani

Instituto Jetro: A Liderança por meio de Relacionamentos tem como núcleo a influência que uma pessoa exerce sobre a outra. Poderia falar sobre esse tema?
Cristofani: No meu livro Exercendo o Presbiterato por meio de Relacionamentos eu sustento essa ideia de "influência" de uns sobre os outros como uma via de mão dupla, isto é, uma pessoa que lidera pode ser influenciada pela liderada e não apenas influenciá-la, portanto, é uma influência recíproca.
Que fique claro, porém, que estou me referindo àquela influência de mentes transformadas pelo Evangelho de Cristo e não qualquer tipo de influência pessoal do líder. É necessário ter essa clareza sobre o poder dessa influência, caso contrário criaremos cópias de nós mesmos e não discípulos de Jesus.

Afirmo, também, que a influência deve ter por critério os princípios da Palavra de Deus manifesta na pessoa de Jesus. O caráter do Mestre é o parâmetro insubstituível nos relacionamentos e aqui não vale pensamentos do tipo "como influenciar pessoas", ao contrário, como viver com outros de tal forma que o Evangelho visto em nós influencie outras pessoas. Isso evita a influência de certos princípios, à vezes perniciosos, de algumas escolas de liderança e psicologia corporativa, aplicados sem nenhum critério por alguns líderes.

Instituto Jetro: Estamos interessados em ajudar as pessoas a crescerem e se tornarem o melhor que podem ser? Nós nos colocamos à disposição dos outros mesmo quando não sentimos vontade? Procuramos o bem maior das pessoas que lideramos? (Levando em conta o que vivemos em nossas comunidades).
Cristofani: Perguntas difíceis de serem respondidas, pois afetam o cerne da liderança por relacionamentos. Mas considero que tais questionamentos mostram o ideal que devemos buscar: o crescimento dos liderados. Nos relacionamentos precisamos primar pelo equilíbrio das relações que, em termos de desenvolvimento pessoal, afeta tanto líderes quanto liderados resultando em um crescimento mútuo. Erra o líder que acha que somente o liderado se tornará melhor sob sua liderança.

De fato, muito mais vezes do que gostaríamos, não estamos à disposição daquelas pessoas que lideramos, pois nem sempre nos encontramos em condições de atendê-las. Contudo, em um relacionamento saudável as partes envolvidas devem conhecer, com certo grau de profundidade, as limitações umas das outras e, assim, procurar ajudar na superação delas.

Instituto Jetro: James Hunter no seu livro: "Como se tornar um líder servidor os princípios de liderança de O monge e o executivo" indaga: "Até onde Moisés teria ido se fizesse uma pesquisa de opinião pública no Egito?" (Será que estamos mais preocupados em O que nossos liderados querem ouvir ou o que eles precisam ouvir?). Muitas vezes temos que dar o que é preciso e não o que se deseja.
Cristofani: Moisés não teria saído do Egito, pois os gritos de "queremos as panelas de carne do Faraó" teriam dominado a pesquisa de opinião na proporção de cem para um. (rsrs) Penso que aqui se trata do desejo e da necessidade, tanto de pessoas quanto de comunidades. Noto que todos nós, líderes e liderados, como pessoas comuns, tendemos a exagerar em nossos desejos, aquilo que queremos e minimizar as nossas necessidades, aquilo que precisamos. Então, como líderes ficamos entre o satisfazer os desejos ou as necessidades das pessoas. Neste particular a liderança por meio de relacionamentos é também bastante eficaz, pois ao nos relacionarmos com nossos liderados podemos ajudá-los a perceber suas reais necessidades e ajudá-los a tirar o foco dos seus desejos.

Instituto jetro: "O primeiro dever de qualquer líder é criar mais líderes". Concorda?
Cristofani: Discordo! O primeiro dever de qualquer líder é liderar, pelo menos se considerarmos do ponto de vista cristão. Explico: na igreja os diversos carismas devem ser descobertos. Chamo de carismas os variados dons distribuídos pelo Espírito Santo entre os convertidos. Lidando com os dons, então, o papel primordial do líder é burilar esses talentos e identificar entre eles os carismas de liderança e, assim, liderá-los à maturidade.
O risco de um líder "criar" outros líderes é que alguém pode preferir uma pessoa submissa, sem iniciativa, sem traços de líder, para poder manipulá-la sem contestação e com a possibilidade de que ela nunca chegue à maturidade. Infelizmente a cultura do "caudilho" tão popular na América Latina ainda permeia corações e mentes de muitos líderes.

Instituto Jetro: Em termos de direção participativa eclesiástica, a pesquisa de Hawthorne (cidade próxima de Chicago, estudos na Western Eletric para identificar os fatores que afetam a produtividade) indica que o colaborador da igreja se sente extremamente motivado quando: a) Pode usufruir de um razoável sistema de comunicações formais e informais; b) É parte integrante da gestão eclesiástica; c) Tem liberdade para discutir métodos e técnicas de trabalho com os dirigentes da comunidade. Qual dessas três áreas é a mais deficiente nas igrejas, em sua opinião?
Cristofani:
 Creio que não é possível generalizar, entretanto o modelo do líder carismático, solitário e único, que detém a formulação da missão e visão, que normalmente encontramos em muitas comunidades de fé é um fator inibidor desses três fatores. Entendo, por outro lado, que a falta de participação do colaborador, vamos chamá-lo assim como no item c), nas esferas de planejamento, direção e decisão é um fator desestimulante para qualquer pessoa, pois não permite o engajamento total da pessoa em um determinado projeto do qual ela foi alijada. Quem ajuda a planejar e decidir assume vínculos profundos e de longa duração com o projeto.

Instituto Jetro: No seu livro "Exercendo o Presbiterato por meio de relacionamentos" o Sr. aborda as necessidades recíprocas de líder e liderado: acolhimento, afetividade, atenção, apoio, conforto, apreciação, aprovação, incentivo, respeito. Poderia falar um pouco sobre elas e dar algumas dicas de como lidar com tais expectativas e necessidades?
Cristofani: No meu livro apresento uma abordagem que leva em conta a integralidade do ser humano. Por isso, os vínculos afetivos e emocionais ocupam um lugar muito importante nos relacionamentos. Quando temos em conta que relacionamentos criam e satisfazem necessidades recíprocas começamos a entender que não estamos em uma relação assimétrica, na qual um guru iluminado conduz um débil ignorante das trevas para a luz. Não, não! Pelo contrário, o que seria de uma liderança na qual não houvesse respeito mútuo? Ou não se obtivesse apoio? Ou, então, não tivesse aprovação? Digo que seria uma liderança escravista, onde um se impõe sobre a vontade do outro.....

Instituto Jetro: O que gostaria de dizer para os liderados que estão lendo esta entrevista?
Cristofani: Minhas queridas e meus queridos de forma alguma se submetam a uma liderança que não tenha por base o relacionamento cristão. Quer saber as características de uma liderança por meio de relacionamentos? 

Uma liderança baseada em relacionamentos estimula relações simétricas. Isto é, apesar de líder e liderado exercerem papéis diferentes, ambos são pessoas que merecem respeito e consideração. Isso é importante porque possibilita ao líder encarar o liderado não como um objeto ou mão de obra disponível aos seus propósitos, antes com um cooperador empoderado pelo Espírito Santo. Por outro lado, as relações simétricas permite ao liderado olhar o líder não como um guru iluminado, mas como um cooperador levantado pelo mesmo Espírito para ajudá-lo no seu amadurecimento como pessoa.

Uma liderança fundada em relacionamentos proporciona a realização de pessoas antes do que de tarefas. Muitas lideranças surgem e se mantêm focadas em tarefas a serem realizadas, como se a maturidade viesse pela realização desses trabalhos. Isso é um equívoco, pois são pessoas maduras realizam uma missão de forma cabal e não o contrário. O foco nas tarefas não conduzem à maturidade, todavia o foco nos relacionamentos proporciona a plena realização das pessoas. Uma liderança alicerçada em relacionamentos promove a distribuição de responsabilidades e participação. Os relacionamentos acontecem em situações históricas específicas, isto é, são modelados pelas circunstâncias do dia a dia. E quem conhece melhor essas situações do que aquelas pessoas que as vivenciam? Por isso, os relacionamentos ajudam cada um a assumir suas respectivas responsabilidades e terem participação ativa nas decisões e execução dos planos de ação para a superação dos obstáculos que se apresentam.

Instituto Jetro: E para os pastores e líderes?
Cristofani:
Meus queridos e minhas queridas exercitem, ainda mais, a liderança por meio de relacionamentos. É somente pelo exercício relacional que alcançamos nossa meta de ajudar pessoas a conquistarem o crescimento na vida cristã e, de resto, no seu trabalho, vida familiar etc. Digo isso porque um liderado bem-sucedido no processo de se relacionar com o seu líder ou sua liderança terá aprendido lições de alto valor para todos os níveis de relacionamento.

No meu livro eu distribuo os relacionamentos em quatro níveis: Primeiro nível: Relacionamento Espiritual - com o Senhor: este nível é o mais fundamental, pois dele dependem todos os outros relacionamentos estabelecidos em todos os outros níveis. Segundo nível: Relacionamento Pessoal - consigo mesmo: modo como a pessoa se relaciona com o seu próprio ser, suas qualidades e deficiências. Terceiro nível: Relacionamento Familiar - com a família: como a pessoa lida com sua família e com o seu papel social dentro dela. Quarto nível: Relacionamento Comunitário - com a comunidade: como uma pessoa lida com a igreja em particular e a sociedade em geral.

Acredito que uma pessoa que aprende o valor dos relacionamentos e como vivê-los de forma saudável está apta para servir ao Senhor e a comunidade de forma madura e responsável.

Reprodução autorizada desde que mantida a integridade dos textos, mencionado o autor e a fonte como: http://www.institutojetro.com/ e comunicada sua utilização através do e-mail artigos@institutojetro.com

Leia também:
Refletindo sobre os processos de relacionamento nas organizações
Usando de sabedoria nos relacionamentos
Confiança: a base de todo relacionamento
A vocação e os vocacionados

URL: http://www.institutojetro.com/entrevistas/entrevistas/lideranca-por-relacionamentos/
Site: www.institutojetro.com
Título do artigo: Liderança por relacionamentos
Autor: José Roberto Cristofani


Comentários