Liderança de jovens e adolescentes - Entrevistas - Instituto Jetro

carregando...

Liderança de jovens e adolescentes

Entrevista com Daniel Zemuner Barbosa
Publicado em 23.02.2016

Como podemos ajudar os adolescentes e jovens de nossas igrejas a entender o propósito de Deus para suas vidas quanto à integridade, santidade, entendimento do seu chamado e liderança para a sua geração?

Com certeza não é um trabalho simples, fácil!

Deve ser um trabalho intencional, repetitivo, criativo e estratégico. Pr. Daniel Zemuner compartilha um pouco de sua experiência com adolescentes e jovens.

Graduado em Teologia pelo Seminário Teológico Rev. Antônio de Godoy Sobrinho e em Administração pela Universidade Estadual de Londrina. Trabalhou 6 anos na 9ª IPI de Londrina e 6 anos na 1ª IPI de Sorocaba. É pastor na Primeira Igreja Presbiteriana Independente de Londrina - Pr, ministrando também aos Adolescentes e Jovens.

Daniel Zemuner Barbosa

Instituto Jetro - Conte um pouco de sua experiência. Quais os desafios e alegrias de trabalhar com adolescentes e jovens?               Daniel - Desde muito cedo tive a oportunidade de trabalhar com essa galera. Quando adolescente, fui líder; quando jovem, também. Em meados de 1998 nossa igreja entendeu a visão da Igreja em Células, e neste período, tentamos vivenciar células de jovens e adolescentes, mas a experiência não foi muito positiva. A visão ainda não estava clara para todos nós. Em 2000, aos 20 anos, a igreja me enviou para o Seminário Teológico. Quando terminei, em 2003, fui pastorear uma pequena igreja na zona norte de Londrina. Durante alguns anos estive envolvido com a Juventude da IPI do Brasil, pregando em congressos e viajando todo Brasil ministrando em acampamentos e treinamentos para líderes. Em 2006 me casei com a Camila e temos dois filhos, o Daniel e a Beatriz (8 e 5 anos). Deus foi tão detalhista, que colocou ao meu lado alguém também apaixonada por juventude.

 No final de 2008 assumi como Pastor Titular da Primeira IPI de Sorocaba; uma igreja robusta e centenária, numa oportunidade que me fez amadurecer demais. Cuidar de toda igreja, desde as crianças até os mais idosos, é muito gratificante. Porém, sempre tivemos um carinho especial pelos jovens e adolescentes e as portas continuavam se abrindo para acampamentos e, em alguns casos, a Camila também pregava.
Hoje, aos 37 anos, voltamos à Londrina e estamos trabalhando desde o início do ano passado na Primeira IPI de Londrina, igreja onde tudo começou. Parte do nosso trabalho é cuidar desta moçada. Seguimos apaixonados pela juventude e desejamos marcar esta geração.
O maior desafio é o dinamismo com que as coisas acontecem. A taxa de mudança da sociedade é infinitamente maior do que a taxa de mudança da igreja. Quando achamos que aprendemos a lidar com a juventude, já estamos obsoletos, quando começamos a entender a linguagem, o comportamento e suas emoções, eles já mudaram. As gerações X, Y e Z são muito distintas entre si, e cada uma delas precisa ser tratada com especificidade. Nossa maior alegria é ver, anos depois, aqueles adolescentes "complicados", apaixonados por Jesus e se transformando em jovens maduros e líderes das próximas gerações.

Instituto Jetro - O Sr. concorda que um dos erros mais graves que as Igrejas cometem é ter "Ministério com Adolescentes/Jovens" ao invés de "Ministério de Adolescentes/Jovens". Expliquemos a diferença: o primeiro tem um líder adulto que traz estudos bíblicos e programa as atividades com os adolescentes/jovens, o segundo, é um grupo de adolescentes/jovens que são liderados por um adolescente/jovem que planeja ouvindo o grupo os estudos bíblicos e atividades que serão desenvolvidas sob a supervisão e apoio de um pastor ou líder adulto. Quem realiza o ministério são os próprios adolescentes/jovens.

Concordo. Aliás, a igreja comete muitos equívocos, assim como, com as crianças. Oferecemos salas inadequadas, pessoas mal preparadas, estruturas improvisadas e esperamos que a próxima geração seja apaixonada por Cristo e pela igreja. Isso não vai acontecer! O trabalho com as gerações precisa ser muito mais intencional do que achamos. Investir nas próximas gerações é garantir que o cristianismo continuará sendo algo realmente verdadeiro na vida da igreja. Não por acaso, algumas igrejas históricas e tradicionais acabam "perdendo" seus jovens e adolescentes, que migram para igrejas cujo trabalho com juventude é mais dinâmico e apropriado. Algumas destas igrejas acabam atraindo jovens de igrejas menores ou de regiões periféricas, afinal, este pessoal gosta de andar em grupos.

Via de regra, quando um líder adulto assume a dianteira deste trabalho, aos poucos vamos percebendo um certo desânimo, pois, este líder, apesar de ótimas intenções, nem sempre consegue ler as reais necessidades. Líderes mais velhos acabam trazendo respostas a perguntas que não estão sendo mais feitas e perguntam a respeito de coisas que eles já sabem as respostas. É uma geração muito complicada, informada, daí a necessidade de desenvolver trabalhos bem direcionados, separando-os em faixas etárias mais específicas, despertando líderes entre eles mesmos. Hoje, percebo claramente, a necessidade de trabalhar separadamente os pré-adolescentes (11 a 13 anos), adolescentes (14 a 17 anos) e jovens (a partir de 18 anos). Com os jovens, em alguns casos, é necessário, ainda, separar os universitários e os jovens casais. Não dá pra trabalhar um pacotão de ideias que alcance a necessidade real que cada um está enfrentando.

É triste reconhecer, mas, infelizmente, bons ensinos e boas intenções não têm sido suficientes para alcançar o coração das novas gerações. É necessário muito mais criatividade e estratégias bem desenhadas para a realidade de cada igreja local.

Instituto Jetro - Como o Sr. trabalha as três áreas para a sabedoria de adolescentes e jovens: a sabedoria do saber, a sabedoria do fazer e a sabedoria do ensinar a outros?
Daniel - Saber, fazer e ensinar são três verbos essenciais para este trabalho. É um campo muito vasto e que precisa ser esmiuçado. O saber nem sempre se torna sabedoria. O fazer nem sempre significa fazer a coisa certa. E o ensinar, então, tem se tornado motivo de grandes preocupações, pois, muitos estão tentando ensinar aquilo que ainda não sabem, não fazem e em muitos casos não creem. Vivemos um tempo onde eles conhecem a respeito de muitas coisas e fazem da sabedoria do saber um campo de conveniência. A intencionalidade e a perseverança neste trabalho nos leva a ter percepções bem aguçadas para que a finalidade do trabalho seja alcançada de maneira eficiente. Queremos que eles saibam exatamente o quê? Para fazerem o quê? Para ensinarem a quem?

Nosso eixo central tem sido comunicar a respeito de Jesus e da santidade que conhecê-lo nos leva a ter. A juventude não tem se posicionado com relação à santidade e isso nos leva a fazê-los saber primordialmente a profundidade dos princípios bíblicos e, como numa reação em cadeia, levá-los a fazerem o que já sabem e, como consequência, ensinar outros a fazerem também. No trabalho com juventude a multiplicação se dá quando multiplicamos líderes. Temos vivido esta experiência através de pequenos grupos, que chamamos de células, onde cada jovem tem oportunidade de saber, fazer e ensinar. Quando entendemos a profundidade destas três áreas, então temos um foco que vai nortear nossa vida e nosso ministério, dando propósito e direção, trazendo transformações e garantindo que o fazer ensinar a fazer é a garantia de que o trabalho atual terá longevidade e impacto para as próximas gerações. Jesus nos deixou isto como legado. Em duas chamadas claras ele disse: Vinde e vos farei e Ide e fazei.

Instituto Jetro - A explicação do porquê adolescentes (filhos de crentes) se afastam da igreja no relatório da Evangeliza Brasil é que "Na medida em que vivenciam as transformações da adolescência e o cérebro se torna mais capaz, as coisas que eram simplesmente aceitas passam a ser alvo de contestação e escrutínio. Isso é bom, mas família e igreja não estão preparadas para verem seus adolescentes contestarem a fé que tinham tão candidamente na infância. A contestação é reprimida como algo indesejável e deixada sem as necessárias respostas". O que fazer para dar a eles as respostas de que precisam?
Daniel - Eis o ponto central: família (ou a falta dela)! Há muito tempo estamos percebendo o impacto negativo que as famílias modernas estão sofrendo e constantemente discutimos sobre como sermos profícuos no trabalho com os adolescentes. A fé das crianças de 7 a 10 anos já não é mais tão cândida. Nesta faixa etária muitos já têm acesso à pornografia, por exemplo, entre tantos outros males. Por vezes os adolescentes se afastam dos pais e da igreja por que são levados a se calarem a respeito de suas dúvidas. A família não tem tido o cuidado necessário para fazer de seus filhos, discípulos verdadeiros de Cristo. Qual não é o impacto de ensinar o adolescente a negar seus reais sentimentos? Frases do tipo: "Cala a boca moleque, isto é pecado!" ou "Você não pode pensar assim!" são tão comuns e tão nocivas. A fé dos pais não tem sido suficiente para fazê-los permanecerem firmes na caminhada eclesiástica.

Os pais precisam estar muito mais antenados do que em qualquer outro momento da história. Se os adolescentes têm alguma dúvida, o "Dr. Google" e/ou os amigos trarão as respostas. Nem sempre as respostas estarão corretas, nem sempre serão suficientes. Temos percebido que a chamada "família colcha de retalhos" não para de crescer. Com isso, temos muitas crianças negligenciadas vivendo uma infância desestruturada. Tenho estado muito preocupado com o número grande e crescente de adolescentes que foram abusados na infância. Os desvios na sexualidade são cada vez mais comuns e aceitos entre eles.
Gostaria que a resposta fosse mais simples, mas o remédio é amargo e a resposta é muito mais abrangente do que imaginamos.

No entanto, o Senhor da História, o Deus Soberano, que governa a humanidade de geração em geração sempre levantará profetas para trabalharem com desprendimento, entusiasmo e eficácia, anunciando que Jesus continua sendo o único caminho para a salvação e que a Igreja ainda é o corpo através do qual somos nutridos e edificados. A perseverança, o constante aprendizado e a sensibilidade por parte da liderança poderá garantir que estes adolescentes sejam confrontados pela Palavra e colocados graciosamente no caminho de volta.

Instituto Jetro - A janela demográfica mais importante para evangelização no Brasil é a de 4/24, ou seja dos 4 anos a 24 anos. Segundo a pesquisa da Amme Brasil, com pessoas de 10 a 79 anos de idade sobre o tempo de sua conversão utilizando 3 categorias (4 a 10 anos, 11 a 17 anos, 18 a 24 anos) as categorias da adolescência e juventude foram onde ocorreram mais conversões. A que se deve? Quais as características/ vantagens que facilitam esse processo?
Daniel - Este é um resultado bastante motivador. Significa que há esperança! É possível que muitos destes adolescentes e jovens tenham tido a experiência de nascerem num lar cristão e até mesmo cresceram sendo ensinados em alguma igreja. Mas, de fato, entendo que a conversão está bastante relacionada com a compreensão do sacrifício de Jesus e, neste caso, a partir da adolescência é que a mente do indivíduo concatena melhor as ideias. Uma criança cujos pais se separaram, chega à adolescência sendo um terreno muito fértil para ensinarmos a respeito da filiação que temos em Deus. Confrontar adolescentes em crise é muito desafiador, mas, com as ferramentas adequadas conseguimos lançar as redes e ganhar muitos deles diante de tantas inquietações a que estão sujeitos pela instabilidade da idade.

Já com os jovens, as conversões estão muito relacionadas com o perdão de suas maluquices de anos anteriores. Como o adolescente está tendo acesso a muitas coisas cada vez mais cedo, tanto mais cedo começa sua vida de promiscuidade. Cigarro, drogas, bebidas em excesso e muito sexo fazem parte da realidade dos adolescentes. Vai chegando a juventude, os confrontos da universidade, um casamento precoce, uma gravidez indesejada, vai trazendo consciência a este jovem que agora precisa dar conta da vida. Pode ser que não haja traumas, pecados horrendos que necessitem de arrependimento, mas a juventude é época de definições. As tomadas de decisões são mais responsáveis e o evangelho pode entrar com mais naturalidade numa mente um pouco mais madura.

Mas, não nos enganemos. Não é qualquer discurso e qualquer tipo de trabalho que desperta o interesse nestas novas gerações.

Instituto Jetro - Como preparar os adolescentes e jovens para evangelizar e engajá-los nesse esforço missionário? Quais as atividades que devem ser desenvolvidas pensando na visita de seus amigos à Igreja?
Daniel - Creio que cada faixa etária precisa ser pensada com especificidade. As estratégias para adolescentes podem não dar certo para os jovens e vice-versa. Creio que a visita dos amigos à igreja já é um sinal de que este adolescente ou jovem já esteja fazendo seu trabalho. Não creio mais em visitas inesperadas. Creio em cenários estrategicamente montados para realizarmos colheitas.

Não há receitas nem atalhos. O caminho é o da maturidade espiritual. E maturidade não é recebida via download. Maturidade espiritual é algo que precisa ser buscada constante e intencionalmente. Qualquer tentativa de evangelismo com adolescentes e jovens imaturos pode resultar em problemas futuros. O caminho é o do ensino bíblico. Se a fé não estiver sendo bem estruturada através de profundidade no ensino bíblico, tudo pode ser fogo de palha e movimentos cíclicos. É muito comum as igrejas terem um líder carismático que lidera por algum tempo.

Quando este líder casa, ou muda de cidade, ou se cansa, o trabalho fica estagnado e a igreja fica esperando a chegada de um próximo; mas quando há uma visão de que é necessário capacitar aqueles que já estão ali, creio que as coisas começam a acontecer, mesmo que lentamente. Somente a maturidade espiritual será capaz de engajá-los de maneira realmente efetiva no trabalho missionário. Esta maturidade levará esta juventude a amar o ser humano e quando tiverem oportunidade falarão tranquilamente sobre sua fé em Cristo e terão facilidade em acolher seus amigos, pois terão claro na mente a necessidade de evangelizar e discipular num processo constante e natural.

Instituto Jetro - Quais os seus conselhos para pastores e líderes que desejam um ministério de adolescentes e jovens vibrante e profícuo?

Daniel - Esta é uma pergunta bastante abrangente, pois temos muitas realidades diferentes. Contudo, creio que existem alguns preceitos que caibam em qualquer cenário. Na verdade, não há segredo, o princípio básico é conduzi-los a uma vida de oração e leitura da Palavra. Pode parecer uma resposta muito simples. Mas não é simplista. Todas as histórias que conhecemos de igrejas, cidades e até mesmo nações que experimentaram grandes avivamentos, a marca é o levante de profetas que anunciam Jesus Cristo de Nazaré e que denunciam o pecado, chamando o povo de Deus para uma vida verdadeira de devoção e constante amadurecimento espiritual pela Palavra.

Além destes quesitos, perseverança e paciência serão indispensáveis nesta caminhada. O aprendizado, sobretudo dos adolescentes, se dá por repetição. A insistência no ensino de algumas verdades pode solidificar o aprendizado.
Oração e leitura da Palavra. Perseverança e paciência. E uma boa dose de criatividade. Em dias de Instagram, Facebook, Twiter, Vlogs e Tumblr é quase loucura imaginar que vamos conseguir a atenção desta juventude atrás do púlpito, vestindo terno e gravata, cantando os mesmos hinos de sempre. Inovar nem sempre significa inventar, mas reinventar. Os pastores e líderes que prevalecerão nesta geração são aqueles que observarão estas premissas. É assim que tenho trabalhado.

Instituto Jetro - Quais são as suas dicas para formar líderes adolescentes/jovens?
Daniel - Amor, inspiração e intencionalidade. Ao responder esta última questão, quero finalizar mencionando o episódio do evangelista Filipe interagindo com o eunuco etíope, narrado em Atos 8.26-40. Trata-se de um texto muito rico através do qual percebemos a sensibilidade de Filipe e a direção de Deus no ensino de alguém. No verso 31 o eunuco pergunta a Filipe: "Como poderei entender, se alguém não me explicar?". O verbo explicar poderia ser substituído pelo verbo guiar ou conduzir, conforme sugere o original grego hodegeo. O Pr. Ricardo Agreste, no texto "Pastorear em meio ao caos", escreve que esta palavra era utilizada para identificar os guias que conduziam as pessoas através do deserto. Logo, a formação de líderes relevantes se dá por meio de condução, pegar pela mão, pagar o preço do discipulado assim como fez Moisés com Josué, Jesus com os discípulos, Barnabé com Paulo, Paulo com Timóteo e isso só é possível se tivermos amor, se formos referenciais e se fizermos disso um trabalho constante e realmente intencional.

Não há espaços para amadorismos. Digo isso com dor no meu coração. Mas estamos perdendo as próximas gerações e deixando-os escapar pelo vão dos dedos por causa de teimosia e falta de vontade. Nunca pastoreei exclusivamente jovens e adolescentes, mas sempre me preocupei em saber se estou sendo compreendido por eles e se não estou fazendo papel de ridículo. Deus faz o que quer, com quem quer, na hora e do jeito que quer, mas estou convicto de que não se forma líderes adolescentes e jovens por acaso. Filipe fez o que todo líder deve fazer, explicar as escrituras até que os olhos dos eunucos se abram para Jesus. Quando alguém descobre o júbilo da salvação, então viramos a chave e, assim, temos um novo líder.

Reprodução Autorizada desde que mantida a integridade dos textos, mencionado o autor e o site http://www.institutojetro.com e comunicada sua utilização através do e-mail artigos@institutojetro.com

Leia Também
Mantenha o coração quebrantado
No entendimento das gerações
Eu escolhi esperar
Educando os próximos líderes

URL: http://www.institutojetro.com/entrevistas/entrevistas/lideranca-de-jovens-e-adolescentes/
Site: www.institutojetro.com
Título do artigo: Liderança de jovens e adolescentes
Autor: Daniel Zemuner Barbosa


Comentários