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"Fake News" e a Igreja

Entrevista com Marcos Bontempo
Publicado em 27.03.2018

Famílias que tentam fugir do caos, crianças mortas e um cenário de devastação deixado pela guerra na Síria - Oriente Médio são as imagens que retratam o conflito e tomam conta das redes sociais. Mas, algumas imagens foram feitas, em muitos casos, de registros antigos que mostram confrontos de outros países e algumas até não têm qualquer relação com o conflito sírio, como costumam identificar as legendas. Um fotógrafo "bonitão" da ONU que postava fotos dele em várias situações e lugares de guerra chamaram a atenção de 120 mil seguidores no seu Instagram. Enganou jornalistas de jornais conceituados com suas histórias de guerra (onde nunca esteve)e fotos roubadas. Poderíamos citar muitas outras histórias nas Redes Sociais que em comum tem: A MENTIRA.

O surgimento e os problemas atuais das "Fake News" não são um problema do MEIO DIGITAL, mas sim um problema recorrente de nós, os EMISSORES.

O Instituto Jetro teve um bate papo sobre o assunto com Marcos Bontempo. Marcos é Diretor Editorial da Ultimato, Engenheiro Agrônomo e Mestre em Economia. É presbítero da Igreja Presbiteriana de Viçosa-MG.

Marcos BontempoInstituto Jetro - As Fakes News têm algumas características em comum? Como podemos reconhecer as notícias falsas? Marcos - Sim, poderia sugerir algumas poucas e boas. Por exemplo: 1) Elas não têm origem - ninguém sabe, ninguém viu, são apenas "compartilhadas"; 2) Prometem solução imediata ou destruição iminente, dependendo do assunto ou do personagem; 3) Maltratam a língua portuguesa; e, 4) Invariavelmente, têm a pretensão de separar o joio (eles) do trigo (nós).  Acredito que o exemplo dos cristãos de Bereia apontado por Lucas - ele próprio um "investigador" dos fatos -, pode nos ajudar a reconhecer as notícias falsas.

Instituto Jetro - Tem gente que anda tão preocupado em se mostrar e agradar, que acaba se perdendo e transformando a sua vida nas Redes Sociais na maior "Fake News". O que dizer dos perfis e dos compartilhamentos em Redes Sociais?
Marcos- Um festival de horrores... Claro, as redes sociais também podem ser usadas de maneira redentora, para usar as palavras de David Lyon, um cristão especialista em vigilância e tecnologia. Mas, acredito que a facilidade de "editar" tanto as nossas alegrias como as nossas dores, assim como o sucesso ou o fracasso, nos torna ainda mais próximos do que Jesus chamou de "sepulcros caiados". Aliás, nesse texto Jesus diz algo como "tudo o que fazem é para serem vistos pelos homens". Ou seja, o que chamamos de "perfil" é a velha hipocrisia e o narcisismo, agora com making off e pós-produção. E, pior, os "likes" acabam funcionando como "recompensa", aquela mencionada por Jesus, dada aos que oravam em praça pública.

Nós vivemos em uma cultura do control C e contrl V, em que as coisas podem ser editadas e descontextualizadas. A ética, a honestidade e a desonestidade têm implicações não apenas individuais, mas sociais. O que aconteceu com a "gente crente" que nem se dá o trabalho de checar a informação antes de compartilhá-la?
Marcos - Não crescemos. Ainda estamos tomando leite, sentindo coceira nos ouvidos, pensando de nós mesmos além do que convém, etc. Nada muito diferente dos exemplos bíblicos dos primeiros cristãos. Talvez, a capacidade de copiar e colar tenha facilitado uma vida cristã, digamos, "declaratória". Não precisamos mais ler a Bíblia, orar, participar de alguma comunidade, compartilhar a casa, a mesa, o pão. Basta repetir frases de efeito - não raramente copiadas -, sobre ética, espiritualidade, ideologia, missão, teologia e qualquer outro assunto, para saber "com quem estamos falando". Ou, no mínimo, de que "lado" estamos.

As Fake News podem levar as instituições e atores dominantes a usar seu poder para suprimir fontes de notícias alternativas, censurar ideias, rastrear indivíduos e bloquear seletivamente o acesso à rede. Sendo assim uma informação poderá ser filtrada, removida ou escondida. O que poderia falar sobre este aumento da supervisão e vigilância que já está batendo às portas e que podem ameaçar a Liberdade de expressão, anonimato e privacidade?
Marcos -  O assunto é longo. Mas, um detalhe importante nesse contexto é que saímos da velha discussão sobre "liberdade de imprensa" para, agora, falar de "liberdade de empresa". O que a revista Veja, a Rede Globo, o Facebook, entre outros, publica ou esconde envolve interesses, ideologia... e muito dinheiro. Censura, rastreamento ou bloqueio, quem diria, é feito diariamente pelos donos das empresas e não exatamente pelos governos totalitários. Alguns sinais: em fevereiro a Folha de S. Paulo saiu do Facebook; a Apple e as maiores editoras norte-americanas estão em guerra com a Amazon que, ao mesmo tempo em que responde a processos na Europa, compra grandes jornais nos Estados Unidos; e, Mark Zuckerberg se defende de um escândalo de uso ilegal de dados que pode envolver a perda de 50 bilhões de dólares. E nós, onde estamos nisso? Bem, nós entramos com os nossos dados. De graça. Enfim, é preciso estar atento. Agora, falar de vigilância é falar de políticas públicas. E, embora tenhamos o Marco Civil da Internet, na prática, ainda estamos engatinhando. Ano passado Ultimato entrevistou David Lyon, sociólogo cristão, especialista e conhecido mundialmente em trabalhos sobre vigilância que vale a pena ser ouvido. Para ele, denunciar desvios é um trabalho importante, especialmente quando governos ou corporações são infiéis ao seu chamado.

Os pesquisadores afirmam que o jeito como as redes sociais funcionam é um incentivo à propagação de mentiras. No modelo de negócio atual, quem publica uma notícia ganha dinheiro a cada clique. E se notícias falsas se espalham mais do que as verdadeiras, elas dão mais dinheiro. E são as pessoas que espalham e não os bots (robôs). Muito disso vem de um engano intencional, para influenciar as eleições, angariar dinheiro para apoio político ou beneficente, ou até mesmo promover leitores e aumentar acessos. Como denunciar?

Quero evitar falar mais do mesmo, mas acredito que estamos passando por um momento de transição, de regulamentação, de construção de leis para o que até pouco tempo não existia. Bem, os bots, ao que parece, vieram pra ficar. Para o bem e para o mal. E todos os dias estamos lidando com eles na web. E, claro, pessoas e empresas são contratadas com fins específicos para melhorar ou prejudicar audiência, reputação, ideologia, vendas, etc, etc. E muitos têm sido denunciados, multados, respondem a processos e, pasme, também presos. Um detalhe. Mais do que denunciar, é preciso falar e espalhar a verdade. É nossa função como cristãos. E, em meio à multidão de vozes, é importante lembrar que "opinião pública" é diferente de "opinião publicada".

No seu artigo para a Ultimatoonline você lembra Isaías 59.3: "Vocês têm as mãos manchadas de sangue e os dedos sujos de crimes; vocês só sabem contar mentiras...". E chama as fake news de "inovação da velha e conhecida fofoca: das delações premiadas à última do irmão (ou do pastor) da minha igreja, tudo precisa ser compartilhado. Sem escrúpulos, sem verificação, sem discernimento". O que podemos aprender com o profeta?
Primeiro, que "nós somos os mesmos e vivemos como os nossos pais...". E me refiro aos nossos primeiros pais. Não mudamos nada. As armas e os equipamentos é que são diferentes. Segundo, que a verdade ou a mentira não está no "meio" (canal), mas em quem fala. No emissor. E, de novo, é preciso lembrar o que a Bíblia fala sobre "o que contamina o homem"... Enfim, nós sabemos que a língua é a nossa "rede" e "mídia" social mais antiga. A original. E Isaías sabia disso. Ele desconfiava de si mesmo: "Ai de mim! Estou perdido! Pois sou um homem de lábios impuros e vivo no meio de um povo de lábios impuros". (Is 6.5). O que veio depois, é detalhe.

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Título do artigo: "Fake News" e a Igreja
Autor: Marcos Bontempo


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