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Demissão?

Entrevista com Marco Antonio G. Vieira
Publicado em 02.05.2016

Agir com justiça e benevolência para com os empregados é uma das mais importantes responsabilidades de um empresário cristão. Mas a responsabilidade do empregado para com o empregador também é um princípio igualmente importante. O que a Bíblia diz sobre demissão? Problemas com funcionários precisam ser resolvidos, e não protelados, porque nunca irão desaparecer por si mesmos. Mas, isso não quer dizer sair pela organização demitindo todo mundo. Antes de tomar tal decisão, você precisa fazer um esforço para entender o que está passando e cumprir alguns princípios básicos para uma demissão o menos traumática possível.

Para falar sobre o tema, o Instituto Jetro entrevistou Marco Antonio G. Vieira que atua como gestor administrativo financeiro da Igreja Batista Morumbi desde 2013. Marco é graduado em Administração de Empresas pela FAAP e pós-graduado em Administração Financeira pela Faculdade Metodista.

Marco Antonio VieiraInstituto Jetro - Há muita confusão quanto à responsabilidade do empregador para com seus empregados e vice-versa. Muitos empresários cristãos ficam desajeitados para demitir um funcionário por receio de que seja visto como mau testemunho, mas também há os empregados que acreditam que por trabalharem para outro cristão, ficariam no emprego para "sempre", independentemente do seu comportamento e desempenho. Como lidar com estas duas expectativas errôneas?

Marco - Não devemos perder o foco que uma relação empregado - empregador é uma relação trabalhista, e assim deve ser tratada por ambos. Muitos empresários cristãos começam errando já na seleção do candidato. Muitas vezes por desejar um empregado cristão, o processo de seleção na contratação fica mais flexível, e isso acaba prejudicando a escolha. Depois da contratação, o empregador trata o empregado de forma mais amigável diferente dos outros empregados não cristãos. Por outro lado, o empregado diante desta situação, começa a se sentir mais seguro, negligenciando cada vez mais nos seus afazeres.

Se o empregador for um cristão sério, ele agirá de forma equitativa com todos os seus empregados e com isso não terá receio em tomar as atitudes necessárias no caso de uma demissão. Já o empregado cristão deverá ter um comportamento profissional dentro dos padrões bíblicos, preocupando-se em testemunhar Cristo através deste comportamento.

Instituto Jetro - Nos anos 90 surgiu fortemente o incentivo ao desenvolvimento da "espiritualidade nas empresas" e o quanto ela poderia ser benéfica para a produtividade. Muitas empresas desenvolveram atividades "espirituais", mas de fato não se importavam com as pessoas - a não ser quando lhe era conveniente. Como fugir de "atividades espirituais" de aparência?
Marco- Todo cristão conhece os preceitos bíblicos para conduzir sua vida física e espiritual. E nosso comportamento deve ser espontâneo, uniforme e verdadeiro independente do ambiente que estamos. Em uma empresa, as "atividades espirituais" só darão bons resultados, se os empregadores sentirem motivação para fazer isso como um "ministério" para ajudar no crescimento do próximo e do Reino (os benefícios ocorrerão tanto para a empresa quanto para os empregados).

Instituto Jetro - Larry Burkett em seu livro "Negócios à luz da Bíblia" lista princípios bíblicos para demissão de um empregado: 1) Ter um detalhamento das atribuições do cargo; 2) ter um detalhamento dos padrões exigidos para o cargo: horário, vestimenta, desempenho esperado; 3) comunicar suas expectativas de maneira clara; 4) comunicar - de maneira clara e por escrito - suas insatisfações, assim que surgirem e 5) estabelecer um período para correção. Percebe-se que as demissões são menos traumáticas quando estes são cumpridos, embora para alguns empregados mesmo com todos esses cuidados há transtornos. Concorda com estes princípios e têm utilizado em sua experiência com o processo demissionário?
Marco - Concordo plenamente com estes princípios, inclusive todo profissional de RH sendo cristão ou não, sabe que comunicar as atribuições, responsabilidades, políticas da empresa, etc., é fundamental para o bom relacionamento empresa - empregado. Mesmo utilizando estes princípios, tivemos alguns processos demissionários meio traumáticos, decorrentes de falhas na manutenção destes princípios. Geralmente usamos a falta de tempo para justificar estas falhas.

Instituto Jetro -  A luta entre a liderança e cristianismo permitem que as queixas se acumulem (pois não queremos desgastes), sendo que o problema poderia ter sido corrigido muito tempo antes. Você acredita que o grande problema é na comunicação?
Marco -
Sim acredito, mas não sei se é só por causa da "luta entre liderança e cristianismo". Um bom líder ainda mais cristão, evita os desgastes justamente ao não permitir que as queixas se acumulem. Nas Igrejas, além da precariedade da formalização com regras claras das relações trabalhistas, percebo que alguns que exercem liderança, nem sempre tem o perfil ou foram treinados para isso. Nestes casos, os problemas decorrentes da comunicação ineficiente ou inexistente fica bem evidente.

Instituto Jetro - Poderia falar sobre as razões para demissão: 1) desonestidade; 2) desobediência; 3) preguiça e 4) incompetência ?
Marco -
Existem vários outros motivos que causam uma demissão, porém focando nestes podemos citar:

Desonestidade - no caso de empregados cristãos, nem sempre é um problema de caráter (uma conduta habitual), mas um momento de fraqueza, de "cair em tentação", em I Cor 10:12 temos "Assim, aquele que julga estar firme, cuide-se para que não caia!". Cada caso deve ser analisado com muito critério, as vezes uma admoestação é suficiente, outras vezes é necessário demitir.

Desobediência - percebo que isso ocorre bastante quando o liderado já não acredita mais em seu líder. Quando a quebra da credibilidade resulta em desobediência, ou mesmo a rebeldia é causada por outro fator, a demissão é inevitável.
Preguiça - o que tenho visto são casos que classifico como: "falta de tempo para trabalhar", ou seja, o indivíduo arruma tanto afazeres particulares durante o horário de trabalho, que acaba sem tempo para realmente fazer o que é preciso.

Incompetência - dificilmente encontramos esta razão para demissão, ocorre quando selecionamos mal, ou por decorrência de uma promoção errada. As vezes, o empregador quer dar uma chance para o funcionário que é exemplar no que faz, e o promove para um cargo de liderança, sem observar os critérios técnicos para esta escolha. O resultado é a demissão do promovido por falta de competência para a nova função. Na verdade faltou competência para o chefe.

Instituto Jetro - Se já é complicado o processo de demissão para um gestor cristão em uma empresa, como você definiria a demissão de um empregado da Igreja que além de empregado é membro desta? Quais as particularidades que devem ser levadas em conta?
Marco - Uma demissão é sempre algo desagradável, principalmente neste caso. Normalmente quando chegamos no ponto de demissão é porque todo o processo de conversa sobre responsabilidade e atribuições da função, expectativas do chefe em relação ao subordinado, treinamentos, avaliações de desempenho já foram feitos e não foram suficientes para evitá-la.

No caso de Igreja, além de todas as práticas conhecidas na área de RH, precisamos ter uma atitude que podemos chamar de pastoral, precisamos "caminhar uma milha a mais". Levar em conta outros fatores que podem estar influenciando para o desempenho negativo do empregado, como problemas familiares; um pecado não confessado; dúvidas sobre sua fé; etc.. Depois de esgotar todas as possibilidades para recuperar e manter o empregado na função, aí sim, pode-se optar pela demissão. É bom fazer uma entrevista demissional, estando sempre disposto a ouvir críticas, ela ajuda bastante para "ajustes de rota".

Instituto Jetro - Quais os conselhos que daria para gestores de igrejas para o processo demissionário, inclusive de pastores?
Marco - Acho que o melhor conselho que posso dar é: evitem demissões. Como? Em primeiro lugar - recrutando e selecionando bem, com critérios bem definidos, e um processo seletivo profissional, sujeitando todos ao mesmo processo seletivo, mesmo os indicados por irmãos, ou recomendados pela liderança da Igreja. Em segundo lugar - manter uma política de cargos e salários, treinamentos, e promover a integração da equipe.

Mas caso tenha que participar de um processo demissionário, coloque o caso diante do Senhor em oração, converse com irmãos que saibam guardar sigilo, analise a situação como gestor, mas também através dos princípios bíblicos. Uma vez que esteja convencido da necessidade de demitir, não demore para agir, pois assim você evita desgastes entre as partes envolvidas.

Você precisará preparado para enfrentar uma situação, que é a de lidar com os que acharam a demissão injusta. Conforme o caso, não é possível ser completamente explícito sobre o ocorrido, e achar uma maneira de justificar o fato sem expor demasiadamente as partes é prioritário.

Instituto Jetro - Considerações finais sobre o tema?
Marco - Apesar de a demissão de empregados ser algo inerente à toda organização, ela é sempre desagradável, principalmente em Igrejas. Por isso, evite-a. Não fugindo, ou procrastinado, mas sim mantendo uma boa gestão de pessoal e seguindo exemplos bíblicos.

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Título do artigo: Demissão?
Autor: Marco Antonio G. Vieira


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