Combate à violência - Por que a Igreja não se envolve? - Entrevistas - Instituto Jetro

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Combate à violência - Por que a Igreja não se envolve?

Antonio Carlos Costa
Publicado em 21.09.2007

Todo o país está acompanhando pela mídia as manifestações contra a violência que têm mobilizado e impactado milhares de pessoas, realizadas pelo Movimento Rio de Paz, como a ocorrida em  4 de agosto, quando a Praia de Copacabana amanheceu com 3 mil montes de areia cobertos por sacos pretos. O protesto representava os mortos pela violência no Rio de Janeiro no primeiro semestre do ano. O que muitos não sabem é que este ousado movimento, que tem se espalhado por todo o país, é dirigido por um pastor, e tem contado com centenas de evangélicos entre os seus manifestantes mais ativos.

O líder do Movimento Rio de Paz é o teólogo e pastor presbiteriano Antonio Carlos Costa, nosso entrevistado. Antonio Carlos preside a Escola de Pastores (Niterói) e a Escola Teológica Reformada (Rio de Janeiro). Preside também o Palavra Plena Ministérios. Nesta entrevista, o pastor fala sobre a falta de envolvimento da Igreja em ações contra a violência, paralisada muitas vezes pelo conformismo e pela aceitação dos maus dias como um cumprimento profético e sinal dos últimos tempos. Antonio Carlos alerta a igreja para o seu potencial de transformação e mobilização social em defesa da vida e dos valores cristãos.

De forma geral, como você avalia atuação da liderança evangélica brasileira no combate à violência?

foto de Antonio Carlos Costa
Antonio Carlos - Nossa igreja não percebeu ainda que a violência é o problema social mais grave no atual momento da nossa história. Nossa média anual de homicídio está entre as maiores do mundo. Na Itália, só para que tenhamos uma idéia, para cada 100 mil pessoas, 1 é assassinada. No Chile esta estatística vai para 1,7, nos Estados Unidos, 5,6. Já no Brasil encontramo-nos na surreal marca de 27 brasileiros mortos mediante homicídio para cada 100 mil pessoas.

Por que a Igreja não se envolve?

Antonio Carlos - Estou certo que esta apatia é reflexo da nossa falta de compaixão, carência de instrução do púlpito, escatologia profundamente pessimista que não vem acompanhada de um conceito de graça comum, ceticismo quanto às instituições brasileiras, ausência de uma cultura de participação popular e medo.

Há aqueles que, vendo a questão da violência cada vez mais fora de controle, apontam para o fim dos tempos, aceitando que esta é a realidade e que de fato ficará cada vez pior. Você acredita que esta perspectiva tem influenciado um certo conformismo dos cristãos?

Antonio Carlos - Conforme acabei de dizer, parte do problema relaciona-se à nossa escatologia. Julgamos que as profecias estão se cumprindo, o mundo não tem jeito, as nossas instituições não têm esperança e até mesmo nos alegramos quando vemos tudo isto anunciando o fim dos tempos. Peço, contudo, que consideremos as seguintes questões: E se as gerações passadas de cristãos tivessem pensado assim? E se William Wilberforce, na Inglaterra, tivesse agido com a mesma irresponsabilidade e pessimismo, recusando-se a lutar pela causa do término da escravidão no seu país? E se Martin Luther King julgasse que como o mundo jaz no maligno, não fazia sentido em ele ir às ruas e lutar pelos direitos civis dos negros americanos? Você age assim quando no seu condomínio ocorre algum problema, como falta de luz, por exemplo? Hoje, somos herdeiros de conquistas sociais levadas a cabo por homens e mulheres que, embora acreditassem nas profecias bíblicas, julgavam que este mundo não tem que ser necessariamente tão ruim quanto possa ser. Esta gente cria que os valores do reino dos céus podem ser trazidos numa certa medida para este mundo. Julgavam que igreja não pode se calar quando a vida humana é explorada e privada dos seus direitos inalienáveis. Que todos saibamos: O Espírito Santo jamais será derramado sobre uma igreja de desalmados.

O senhor acredita que há algo que somente a igreja pode fazer e mudar neste contexto de impunidade, injustiça e violência? E haveria coisas também que, por outro lado, fogem totalmente da alçada e da possibilidade de ação dos líderes cristãos?

Antonio Carlos - A igreja é o setor da sociedade de mais fácil mobilização para a luta. Somos milhares, nos reunimos todos os domingos, a comunicação entre nós é rápida e carregamos (ou deveríamos carregar) no peito fatores predisponentes para a ação, como os valores do reino dos céus. Tenho observado no Rio de Janeiro a dificuldade das ONGs e movimentos sociais de reunir gente. Eles têm boas idéias, mas não tem povo. Um milhão de evangélicos sistematicamente nas ruas das nossas cidades, mudaria a história do nosso país, num contexto em que o poder público carece de apoio popular e força emprestada pela sociedade, já que os interesses escusos das nossas instituições fazem com que o que deve ser feito seja abortado no nascedouro, e isto quando o poder público decide fazer alguma coisa.

De forma prática, como um pastor, em sua igreja local, pode agir e mobilizar os membros e a liderança para fazerem a diferença na cidade e na comunidade em que atuam, na luta contra a violência?

Antonio Carlos - O primeiro desafio é o da instrução, o da base teológica. Sem entendimento não há esperança. Nosso povo é muito ignorante quanto a estas questões. Em conexão a isto, carecemos de informação sobre o funcionamento do Estado. Saber quais os canais de expressão democrática das aspirações do povo. Tudo isto deve ser falado com paixão. Uma mensagem como esta nos lábios de um pastor que prega como quem não crê no que afirma não tocará corda do coração de ninguém. Em seguida, tendo sido dada a base intelectual e as emoções tangidas pela verdade, a igreja pode se organizar para a luta. Dividindo tarefas, procurando se inteirar da situação para que sua ação não seja ingênua, indo para as ruas numa atitude de protesto, coletando assinaturas para mudanças na legislação, socorrendo os parentes das vítimas, exigindo o cumprimento da constituição federal, tirando as crianças das ruas e conduzindo-as para a escola, entre tantas outras ações mais.

Há efetiva participação das igrejas no movimento que você preside, o Rio de Paz, apesar de ser um movimento sem vínculos religiosos?

Antonio Carlos - Deus tem os sete mil que não se curvaram a Baal sempre. Por isso não estamos sós e hoje contamos com a ajuda de muitos evangélicos. Esta é a minha esperança. Dos mil que deitaram no calçadão de Copacabana em protesto contra a violência no Rio, 95% eram cristãos protestantes. Oro para que estes que estão prontos para agir se organizem para a luta pacífica, ordeira e democrática contra a violência no Brasil. E quem sabe, a partir daí enfrentarem outras afrontas mais à santidade da vida humana, como por exemplo a miséria, o ensino péssimo, o colapso do serviço de assistência médica, o tratamento desumano que nossos presos recebem nas nossas penitenciárias, entre outros absurdos mais. Lamentavelmente, a maior parte da igreja permanece num silêncio criminoso e parece que só partirá para a ação quando a tragédia atingir a sua vida.

Aqui na cidade de Londrina, tivemos a tristeza de perder recentemente um de nossos pastores, que foi assassinado dentro da própria igreja, enquanto dirigia uma vigília com alguns irmãos, que oravam justamente contra a violência na cidade. Que mensagem o senhor deixaria aos pastores que têm de fato almejado fazer a diferença e conduzir o povo com uma mensagem de esperança em meio a um contexto tão trágico?

Antonio Carlos - Que tirem os olhos do quadro desalentador do ponto de vista social e político e olhem para aquele que é poderoso para destruir, mediante o trabalho da igreja, as estruturas do mal. O nosso Deus reina. Ele não se encontra num trono roendo unhas, torcendo para que as coisas dêem certo. Mudanças históricas profundas podem ocorrer subitamente. Num piscar de olhos, o muro de Berlim desmorona e todos querem saber como pôde acontecer. A mão que sustenta o universo pode agir em nosso favor ao oferecermos nossos lábios a Deus para clamar: "Não matarás".

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