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Aconselhamento para crianças

Entrevista com Marcelo Quirino
Publicado em 30.10.2012

Vemos em nossas Igrejas um grande despreparo para o trabalho infantil, de fato não são todas. Muitas tem se destacado nesta grande obra. Contudo, a maioria delas apenas entretem as crianças para que elas "não atrapalhem" o culto. As crianças vão aos seus "cultinhos"  para pintar, brincar ou assistir algum filme e não há uma mensagem especifica para sua vida cristã.

Segundo uma pesquisa de Lionel Hunt ,1% dos convertidos fizeram sua decisão antes dos 4 anos de idade, 85% a fizeram entre os 4 aos 14 anos. Dos 14 aos 30 apenas 10%, e somente 4% após os 30 anos. Estes dados reforçam nossa responsabilidade: "Ensina a criança no caminho que deve andar, e ainda quando for velho não se desviará dele" (Pv 22. 6).

Se não há ministérios infantis fortes nas Igrejas, também não há um olhar mais atento para as suas necessidades espirituais, psicológicas/emocionais e físicas e muito menos para o tema "Aconselhamento para crianças" que é algo novissímo.

Nesta entrevista ao Instituto Jetro sobre o seu livro "Aconselhamento Infantil", o psicológo Marcelo Quirino mostra a importância deste trabalho.   

Marcelo é graduado em Psicologia pelo Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, com Licenciatura Plena em Psicologia pela Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Técnico em Administração de Empresas pelo Complexo Educacional Vilar dos Telles. Realizou trabalhos voluntários na UNESCO/Estado do Rio; na ONG Renascer, no INCA e no Governo Federal/SESI. Realizou atendimentos de Psicologia Clínica em Duque de Caxias/RJ. Atualmente é Psicólogo Clínico no Centro de Referência de Tratamento para Crianças e Adolescentes II em Campos dos Goytacazes no Rio de Janeiro.

É membro da Primeira Igreja Batista no Guarani - São João de Meriti/RJ há 13 anos e palestrante nas áreas de Psicologia Organizacional, Psicologia e Educação e Relacionamentos. Conheça o site do autor.

 Marcelo Quirino
A que se deve a produção deste livro e qual o seu objetivo?

Eu ainda procuro uma editora para o livro. Por enquanto é uma produção independente. A produção deste livro se deve a dois fatores principais: minha experiência profissional com atendimento com crianças e a ausência de material de aconselhamento voltado especificamente para crianças. Na época da lançamento de meu livro fiz um levantamento bibliográfico e não havia absolutamente nenhum livro com o tema.

Os motivos secundários são a dificuldade de se tratar em aconselhamento com crianças, a pouca frequência de atendimentos pastorais infantis e a falta de preparo adequado de pastores e líderes para desempenhar com qualidade a tarefa de atendimentos pastorais.

Esse livro é fruto de experiência própria com atendimentos infantis em clínica particular e posteriormente no Centro de Referência e Tratamento da Criança e Adolescente, onde trabalho como servidor público. É um tema do qual gosto muito. Atualmente percebo uma extrema carência em habilidades de educação dos pais. Esse livro pode ajudar também a pais e educadores nesse aspecto, não é só voltado para aconselhadores não.

Na entrevista " Educando os próximos líderes" do Instituto Jetro com Cris Poli (Supernany), ela afirma que: "A Igreja deve ter um ministério para crianças onde seja desenvolvido um trabalho em unidade com os pais através de palestras, workshops e reuniões para orientações sobre como educar seus filhos". Em sua opinião, qual é o papel da Igreja para com a saúde física-emocional-mental-espiritual das crianças?

A igreja tem um papel indispensável com a saúde integral da criança. Não diria que esse trabalho é opcional, mas entendo como um dever da igreja ter um ministério específico para crianças e que aborde as diversas dimensões dos pequeninos, como a saúde física, emocional, social e espiritual.

Muitas igrejas se limitam a ter EBD e culto infantil. Ressalto que isso é extremamente insuficiente para um ministério que se queira prestador de serviços integrais para a criança.

Com essa atual visão limitada das igrejas, as atividades para a criança se restringe a atividades sociais e de aprendizado espiritual, contudo, a atividade de cuidado emocional, prevenção e intervenção não é realizado ou quando muito é efetuado por professores de escolinha que ao menos sabem as fases do desenvolvimento infantil e estão ali emprestados depois de muito se implorar para que se responsabilizassem pelo ministério. Eles não têm preparo psicológico e muito menos acadêmico para tratamento de crianças na igreja. Sabemos que o trabalho é voluntário, mas critico a falta de uma visão pastoral voltada para um ministério integral com preparo acadêmico de professores infantis nas igrejas.

Quem pode atuar como um conselheiro infantil? Quais as características, conhecimentos necessários para desempenhar esta função? Que tipo de ferramentas de Aconselhamento Infantil você propõe no livro?

Os preparados, sejam quais forem. A questão é o que estabeleceremos como critério para definirmos quem é o preparado e que tipo de preparo é necessário para o desempenho eficaz dessa tarefa importante.

Creio que o bom senso deve nortear os critérios para se definir o preparado. Um curso de aconselhamento, a pratica supervisionada do aconselhamento, o gosto pela atividade, e a habilidade em atendimentos lúdicos de aconselhamento já são pontapés iniciais para o preparo.

Não necessariamente a atividade de aconselhamento deve ser desempenhada por um pastor ou líder de ministério. O aconselhamento é um dom divino conforme descrito em Romanos 12, I Coríntios 12 e 14 e Efésios 4. Os dons que geralmente um aconselhador possui são múltiplos, tais como exortar, ensinar, discernir, ciência, conhecimento, discernimento de espíritos e cura, levando-se em consideração os dons descritos nesses capítulos bíblicos.

A ferramenta proposta no livro é essencialmente o manejo de técnicas lúdicas para ouvir e compreender a criança em sua problemática que geralmente está inserta na família.

As mudanças na sociedade como o aumento de pais divorciados, educação terceirizada para as escolas ou babás, avanços tecnológicos ou o consumismo, têm repercutido na saúde mental-emocional das crianças?

Sim, é o que percebo em meus atendimentos clínicos. Diria que de 10 atendimentos infantis que realizo, 8 tem relação direta com a problemática dos pais.

Seja crise familiar, separação, inabilidade de educar, problemas dos pais com seus pais, repetição de padrões patogênicos de interação familiar, projeção no filho de problemas emocionais parentais, ódio inconsciente contra a criança, crianças assumindo papel de pai ou mãe e retardando ou tornando o desenvolvimento infantil precoce, insuficiência cognitiva e cultural dos pais, dentre outros fatores patogênicos.

O que precisamos perceber é que psicologicamente somos devedores à nossa época. Somos seres históricos, culturais, simbólicos e, portanto localizados num tempo especifico. Desde o pós-guerra onde a quantidade de mão de obra masculina decaiu, a revolução feminina na década de 70 com a inserção da mulher no mercado de trabalho buscando direitos iguais, a tecnologia, a liberalização do direito para minorias, a globalização e o transculturalismo, dentre outras transformações sociais, percebemos uma mudança que nos coloca no que chamamos de pós-modernidade. Um período peculiar e formador de identidades coletivas sociais e principalmente um período formador de identidades eclesiásticas e religiosas inclusive. Mal-aventurado é o líder que não sabe ler as consequências psicossociais desse tempo em seus liderados.

O que a Igreja/Conselheiro Infantil pode fazer diante do conhecimento de que a criança sofreu algum tipo de violência (sexual, psicológica, moral) ou que sofre dos transtornos psicológicos como o TDAHI (Transtorno do Deficit de Atenção, Hiperatividade e Impulsividade), cibervício, depressão, desajustes do ego e de conduta?

A atividade de aconselhamento infantil possui um limite, modo de intervenção, um foco específico, objetivos espirituais, indicações e contraindicações. Por isso é importante a formação para que não haja atividade iatrogênica (atividade terapêutica prejudicial) no aconselhamento infantil.

Um aconselhador infantil pode ser tanto alguém com foco em espiritualidade como um Psicólogo com atendimento especializado. O profissional inserido na igreja poderá desempenhar uma atividade terapêutica de aconselhamento voltado para um trabalho em conjunto com os pais e a criança.

Já o não-psicólogo que aconselha crianças nas igrejas deve entender que seu trabalho é restrito à bíblia e ao tratamento espiritual das crianças. Nesse sentido, seu trabalho possui foco educativo-espiritual para a criança, para os pais e para a família em qualquer caso.

Já diante de temas específicos, o acompanhamento por um profissional é condição sine qua non para o desenrolar eficaz da atividade do próprio aconselhador. O aconselhador pode confortar biblicamente a criança, a família e amparar espiritualmente crianças hiperativas.

Não podemos cair no romantismo de que a atividade de aconselhamento infantil é indicada para todos os casos. Há casos em que é contraindicada por suas limitações e restrições de objetivos estruturais.

Quais os conselhos para pastores e líderes quanto ao cuidado com as crianças da sua Igreja.

De maneira geral, preparo, gosto pela atividade, visão para formar líderes de aconselhamento e não somente professores de EBD e desenvolvimento de ministérios integrais voltados especificamente para as crianças. Tecnicamente, desenvolvimento de atividades lúdicas em aconselhamento, desprendimento, linguagem simples, expressividade, paciência, atenção à expressividade infantil nem sempre clara.

Como conselho de profissional, indico o trabalho conjunto com psicólogos, assistentes sociais, parceria com a família, muita sabedoria e perspicácia para não exercer atividades iatrogênicas para a família e zelo com a saúde da criança.

Taticamente, o líder deve desenvolver um plano de preparo de lideres, de estrutura do ministério infantil integral com aconselhamento profissional incluído, e de recursos necessários para o bom desenvolvimento do projeto.

Há de se ter em mente que a saúde emocional das crianças e o trabalho com aconselhamento infantil pode ser um caminho de evangelização de famílias na comunidade da igreja e um bom reforço nas bases sócias e psicológicas futura da comunidade cristã local.

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Título do artigo: Aconselhamento para crianças
Autor: Marcelo Quirino


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