Abuso sexual e a Igreja - Entrevistas - Instituto Jetro

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Abuso sexual e a Igreja

Rute Ferreira Leal
Publicado em 27.06.2017

Nas Igrejas ainda há dificuldade de falar sobre assuntos como: sexo, sexualidade, homossexualidade, abuso sexual e violência doméstica.Mas é altamente expressivo o número de mulheres evangélicas (quase 40% das atendidas) que declaram ser agredidas: física, psicológica, sexual e patrimonialmente; e quem diz isso são as pesquisas das ONGs que as atendem.(Confira o artigo ). Também há dificuldade de entender o papel fundamental que as Igrejas ocupam no ensino das Escrituras às crianças, promovendo um ambiente criativo, lúdico em linguagem própria para elas. O que dizer então de um ambiente de escuta e cuidado para essas crianças?  O Instituto Jetro entende ser relevante o alerta às Igrejas de uma realidade cada vez mais real: o Abuso Sexual infantil.

Para falar sobre isso, o Instituto Jetro teve um bate papo com Rute Ferreira Leal, graduada em Psicologia  e líder de um grupo de Mulheres que aconselham mulheres da Primeira Igreja Presbiteriana Independente de Londrina. O grupo trabalha justamente trazendo um ambiente propício e acolhedor para que as feridas provocadas por situações diversas, sejam saradas. O que se percebe é que muitas dessas mulheres revelam as marcas deixadas por um abuso sexual ainda na infância. 

Rute Ferreira Leal

Instituto Jetro - O que é o abuso sexual infantil? Quando acontece o abuso? RUTE - O abuso sexual infantil por definição é o envolvimento de uma criança ou adolescente em atividade sexual inapropriada com um adulto. Pode variar desde atos em que não exista contato sexual (voyeurismo, exibicionismo), até diferentes atos com contato sexual sem penetração (toques, carícias, masturbação) ou com penetração (vaginal, anal e oral). Estas práticas são impostas à criança ou ao adolescente pela força física, ameaças ou indução de sua vontade. É uma relação abusiva onde um adulto se satisfaz sexualmente através do corpo da criança sem que a mesma tenha poder de decisão (Borges & Dell´Aglio, 2008; Arantes, 2006).

O Abuso sexual Infanto-juvenil pode ser considerado como uma violência extrafamiliar ou intrafamiliar dependendo da relação que a criança ou adolescente tem com o autor. É definido extrafamiliar quando a atividade sexual é praticada entre uma criança/adolescente e um não membro da família, podendo ser conhecido ou desconhecido da mesma ou da família. O acesso do abusador, geralmente ocorre em ocasiões familiares ou quando possui confiança por parte dos pais ou responsável, também os atos podem ser realizados fora do ambiente familiar. É definido intrafamiliar quando o autor do abuso é da família. A relação pode ser entre pai-filha; irmão-irmã; mãe-filha; pai-filho; mãe-filho e ampliando compreende-se abuso sexual intrafamiliar aqueles praticados por avós (ôs), tios (as), padrastos, madrastas e primos (as). Essas relações são conhecidas também como incesto (Neves, Castro, Hayeck, Cury, 2010).

Instituto Jetro - Quais os sinais que uma criança/adolescente/mulher dá de que tem sido abusada?
RUTE - A criança abusada sexualmente pode ter alterações no sono, no apetite e no comportamento, observa-se mudanças como: agressividade, passividade, vergonha excessiva, isolamento, apatia, terror noturno, comportamento sexual inapropriado. É necessário ressaltar que essas informações citadas acima não são indicadores de provas. Em caso de suspeita é fundamental buscar ajuda de um profissional da área.

Instituto Jetro - O (a) abusador (a) não tem características visíveis, ou seja, pode ser parentes, educadores, homens, mulheres, crianças mais velhas, avós, vizinhos ou outras pessoas próximas, também não tem classe social. Como podemos prevenir as crianças de um abuso?
RUTE - 
Acredito que a maior prevenção é o diálogo aberto com as crianças e adolescentes. A criança é naturalmente curiosa quanto ao corpo. Entre 3 a 5 anos ( não é regra) passam a ter curiosidade sobre o corpo do outro. Surgem perguntas do tipo: "Por que o corpo do papai/mamãe ou amigo (a) é igual ou diferente do meu?" "De onde eu nasci?" Devemos responder com naturalidade e somente o que foi perguntado. À medida que a criança sentir necessidade de mais informações ela irá procurar. É importante proporcionarmos um ambiente de confiança e acessibilidade para as mesmas. Conversas direcionadas e intencionais sobre os cuidados com o próprio corpo e com a própria integridade. Segundo as diretrizes para programas de redução da vitimização da criança (McDaniel, 2001; Lampert e Walsh (2010) e Lampert (2011), estas conversas devem contemplar os seguintes pontos:

• Ensinar às crianças normas de segurança gerais (seu nome, nome dos seus pais, seu endereço, telefone, etc)
• Fornecer-lhes instruções explícitas sobre a posse de seu próprio corpo (meu corpo me pertence)
• Ensiná-las sobre as partes íntimas e anatomia de seu corpo
• Ajudá-las a distinguir entre um toque adequado e inadequado
• Ajudá-las a perceber que alguns "segredos" não devem ser guardados, mas informados a pessoa de sua confiança.
• Ensiná-las a identificarem pessoas de sua confiança
• Ensiná-las que podem dizer não e rejeitar comportamentos não desejados do adulto
• Explicar-lhes que adultos às vezes agem de forma inadequada ou inapropriada
• Deixar claro que o comportamento inadequado do adulto nunca é culpa da criança
• Ensinar-lhes que adultos ou crianças mais velhas cometem erros
• Ensinar-lhes que podem se enganar quanto às pessoas de sua confiança e o que fazer neste caso
• Estabelecer que sempre que ela for machucada ou agredida ela deverá buscar ajuda.
• Evitar (quando possível) de a criança dormir em locais onde ela ou a família não sinta plena segurança.

Instituto Jetro - Quais as principais marcas emocionais, sociais, psicológicas e espirituais são vistas em uma pessoa que foi abusada?
Estudos apontam a presença de uma diversidade de sintomas clínicos associados ao Abuso Sexual Infantil, como sequelas emocionais, comportamentais, cognitivas e sociais. Comportamento sexual inapropriado, baixa autoestima, sentimentos de desamparo, ódio e medo, relações interpessoais destrutivas, tendências suicidas, isolamento, fugas de casa, dificuldade de confiar no outro e estabelecer relações interpessoais tem sido descritos como as principais consequências e têm sequelas ao longo dos anos da criança até sua vida adulta. É importante ressaltar que os problemas que se ramificam não são somente pela duração ou frequência do relacionamento com o abusador, mas também por outros fatores.

A personalidade, dinâmica familiar e outras pessoas importantes que envolvem a vida da criança e do adolescente são fatores significativos. É frequente a presença de sentimento de vergonha, autoacusação, rejeição, impotência para esperar que coisas boas aconteçam e coisas ruins parem de acontecer. O sentimento de deter um poder extremo para causar o mal em outras pessoas também é vivenciado. Distorção da imagem corporal, sentimento de ambivalência, também levam alguns sobreviventes a sentirem medo de intimidade e ao mesmo tempo desejo por aconchego, outros a sentirem medo de abusar de seus próprios filhos. Há uma necessidade de controle relacional para se sentirem seguras, e tendem a desconfiança e ao isolamento (Borges & Dell´Aglio, 2008; Langber, 2002).

Nas sequelas físicas é predominante dependência de álcool, compulsões por comidas, uso e abuso de drogas e sexo e esbanjamento, normalmente para tranquilizar a ansiedade ou outros sentimentos dolorosos. É comum automutilação, como queimar-se, cortar-se, flagelar-se, morder- se, espetar com alfinetes, aranhar-se e bater a própria cabeça. As disfunções sexuais também são comuns. Algumas sobreviventes podem ter aversão ao sexo, enquanto que outras podem ter um interesse compulsivo, podendo apresentar comportamentos de risco. E quanto às sequelas espirituais o que ocorre é uma imagem distorcida de Deus que impede a pessoa de experimentar o amor e a graça dele. Muitas vezes o abusador diz que é da vontade de Deus que a criança obedeça a ele e usam desse argumento para cometerem o abuso sexual, causando dissonância na compreensão da criança (Langber, 2002). Outro fator preponderante para o desencadeamento das sequelas é o silêncio vivenciado pelas vítimas. O silêncio é representativo do medo em relação ao agressor, medo de ter problemas, medo do descrédito das pessoas, dos efeitos sobre a família e pelo desconhecimento de que aquela era uma situação inadequada. A criança ou adolescente são muitas vezes convencidas, ameaçados ou forçadas pelo abusador para não falar sobre o ocorrido. Este posicionamento faz com que a vítima mantenha de alguma forma um segredo com este agressor, que resultará em problemas psicossociais, doenças psicossomáticas, fugas da própria residência e morar nas ruas, estratégias para evitar a violência, mas ficando expostas a maiores riscos, como drogas e agressões (Pelisoli, Pires, Almeida & Dell´Aglio, 2010; Watanari, Soma, Silva, 2011). A Organização Mundial da Saúde (OMS) considera que o abuso sexual é um dos maiores problemas de saúde pública.

Instituto Jetro - Você coordena um curso para grupo de mulheres. Você se depara com situações de mulheres que apenas agora, adultas, falam sobre o abuso o qual foram vítimas quando crianças? Como atuar nas igrejas vencendo a cultura do silêncio e vergonha? Do que essas mulheres necessitam em nossas igrejas para serem restauradas?
RUTE - 
Sim, infelizmente é muito comum conversarmos com mulheres que somente na vida adulta se deram conta que sofreram com o "abuso sexual" na infância ou adolescência. Algumas confessam (nos grupos de acolhimento que temos), ser a primeira vez que falam sobre o assunto com outra pessoa. Acredito que Cristo veio para libertar-nos de todas as dores e precisamos de ambientes acolhedores, onde as pessoas possam falar de suas dores, suas raivas, seus medos. Às vezes fico triste por observar que algumas igrejas ainda pregam um evangelho tão "espiritual", tão triunfalista onde as pessoas não podem expressar suas angústias, seus medos. Parece que assumir a angústia nos diminui como seres humanos. Jesus disse: "Conhecereis a verdade e a verdade vós libertará". A pergunta é: Qual a verdade a seu, a meu respeito que precisamos que o outro ajude enfrentarmos? Como seremos livres se não enfrentarmos? Sim, somos seres espirituais, mas vivendo num corpo humano. Precisamos entender que Cristo se manifestou para que sejamos "melhores humanos" também, para isso é fundamental admitirmos nossas angustias, medos... uns para com os outros. Tiago 5:16 diz " Portanto, confessem os seus pecados uns aos outros e orem uns pelos outros para serem curados. A oração de um justo é poderosa e eficaz". Eu realmente creio na Palavra de Deus e tenho visto o Espírito Santo se manifestar nesse grupos de maneira eficaz na vida de mulitas mulheres. 

Instituto Jetro -  Quais as suas orientações para conselheiros e pastores que aconselham pessoas que revelam sofrer ou ter sofrido abuso sexual ou com pessoas que dizem ser ou terem sido abusadoras?

RUTE -  A orientação é sempre de acolhimento, seja o indivíduo um agressor ou uma vítima num momento expressar sua dor, sua angustia e suas conseqüências. Quando ocorrer algum caso de confissão de violência contra criança ou adolescente é fundamental que o conselheiro, pastor ou líder tenha conhecimento das redes de proteção contra violência que atuam na sua cidade para possível encaminhamento do caso. Quase todas as cidades contam com os seguintes orgãos:

• CREAS (Centro de Referência da Assistência Social). Tem como objetivo realizar o atendimento psicossocial a crianças e adolescentes vítimas da violência na faixa etária de 0 a 18 anos.
• NUCRIA - Delegacia do Núcleo de proteção à criança e adolescente vítima de crime
• Conselho Tutelar
• Ministério Público
• Disque 100 - serviço de ligações gratuitas vinculado à Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República (o denunciante não precisa identificar-se)
• Unidade Básica de Saúde - UBS

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