A política, os evangélicos e a Igreja - Entrevistas - Instituto Jetro

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A política, os evangélicos e a Igreja

Gerson Moraes de Araújo
Publicado em 16.10.2012

Os noticiários mostram números que dizem que é o tempo dos evangélicos: crescimento numérico, envolvimento político, inclusive com o "poder nas urnas".

E não temos como negar o maior envolvimento e participação dos evangélicos e da Igreja com as questões políticas, seja com candidatos próprios da denominação, apoiando candidatos evangélicos ou debatendo sobre leis. (leia a notícia "A religião influencia o voto do brasileiro?")

Pensando nisto, o Instituto Jetro, entrevistou o vereador Gerson Moraes de Araújo.

Gerson de Araújo é graduado em Teologia e Pedagogia, e Mestre em Psicologia. Está em seu segundo mandato como vereador, foi eleito presidente da Câmara de Vereadores em 2011, e assumiu a Prefeitura de Londrina- PR no segundo semestre de 2012 até a posse do novo prefeito eleito, já que o ex-prefeito José Joaquim Ribeiro renunciou. Foi reeleito como vereador para 2013. É pastor da Igreja Presbiteriana Independente.


 Pr. Gerson Moraes de Araújo
Temos na Bíblia vários relatos de pessoas que foram escolhidas por Deus para liderar e agir politicamente (como José, Davi, entre outros). A Bíblia deixa clara a responsabilidade da Igreja em orar pelas autoridades. (1ª Timóteo 2:2-4). Mas, em sua opinião, é responsabilidade também da Igreja despertar e apoiar entre os cristãos, àqueles que se sentem "chamados" para atuarem na política?

Sim, mas, de forma muito consciente. Se, há alguns anos atrás havia preconceito quanto ao evangélico participar da política, hoje temos candidatos demais. Estamos passando por um "avivamento político", com aspectos positivo e negativo. Positivo no sentido da maior presença evangélica nos partidos e negativo por conta dos divisionismos, lutas e um número muito pequeno de eleitos. Soma-se a isto um  grande contingente de  candidatos despreparados, apesar de ótimos crentes. Cabe à Igreja levar o membro a ter consciência de sua responsabilidade como agente de transformação e ajudá-lo nesta preparação, pois o grande desafio é a questão ética, problema que muitas vezes reflete as fraquezas da própria igreja através da deficiência de ensino e modelo de liderança.  

Os líderes cristãos que afirmam serem "chamados" para a vida política como "voz profética" anunciando a vida e denunciando quaisquer sinais de morte na sociedade, não podem se deixar levar pelo uso indevido da sua posição, legislando a serviço de uma religião ou a favor de uma denominação em detrimento do bem comum. O que pensa sobre isto? 

É triste, mas é isto o que tem acontecido. Muitos candidatos são escolhidos pelas suas comunidades pelo exemplo de consagração, boa presença, palavra fácil e até mesmo um certo carisma. No entanto, todas estas qualidades foram apenas testadas no convívio evangélico, na "redoma" criada para que os crentes fiquem longe da influência do mundo e não na batalha que é travada nas lides políticas. Ele é um grande pregador, arrebata multidões, homem de oração, mas sem qualquer defesa diante das terríveis tentações do ganho fácil e das seduções do campo sexual. E alguns já vão preparados pela própria liderança no sentido que defendam a igreja e consigam o que for possível para facilitar determinados trâmites.

Em uma reunião de políticos evangélicos no Chile  chegou-se à seguinte conclusão: "Somos 20% da população mas somos 20% de "não notícia", isto porque as Igrejas tem pouca cultura política, quase nada de compromisso social e, o pior, nem sempre a ética é levada a sério. E, com esta constatação afirmaram: "Não precisamos de pastores, capelães, missionários, cantores e poetas, no legislativo precisamos de legisladores. Isto porque tem havido um tremendo equívoco na eleição de evangélicos, pois vão lá para pregar, cantar, ler a Bíblia, mas legislam ao sabor das malandragens.

Alguém afirmou com muita coerência: "No lugar do voto corporativo dos políticos evangélicos, precisamos do voto pragmático dos evangélicos políticos".

Muitas foram as reportagens mostrando o poder dos "evangélicos" nas eleições de 2010 e 2012. Acredita-se que os evangélicos votam a partir dos seus valores, e que a conduta do candidato é um fator decisivo para a escolha. Sendo assim, não votam no candidato porque o pastor "mandou", mas sim porque este apoia bandeiras semelhantes a sua fé. Qual é a sua opinião sobre isto?

Sem dúvida os evangélicos se constituem hoje em um grande poder e os candidatos conhecem esta realidade. Isto, no entanto, tem sido fator de transformação da sociedade? Para receber o voto dos evangélicos os líderes analisam o caráter, a conduta, o passado e as propostas do candidato no sentido de um aconselhamento honesto?

Para tristeza nossa, existe um pensamento de várias lideranças evangélicas de que o momento das eleições é propício para se conseguir o máximo dos políticos e partem para o agora ou nunca. E aí são eleitos os candidatos que nem sempre levam a sério a ética, a justiça e a seriedade no trato da coisa pública. E existem denominações que determinam em quem o membro vai votar. Com a proliferação das denominações, muitos líderes sentem a fragilidade de suas comunidades e acham muito normal estabelecer uma troca para dar apoio a este ou aquele candidato. Mas, graças a Deus, os evangélicos estão buscando se informar e nem todos se submetem às pressões.

Qual é a sua opinião sobre a performance dos políticos evangélicos em geral? Eles têm deixado a desejar nestes anos?

É claro que nem todos os políticos são desonestos ou incompetentes. Estas deficiências podem ser encontradas em qualquer segmento da sociedade. Assim como existe o corrupto existe também o corruptor; assim como existe o que compra votos, existe também o que vende o seu voto. Aliás, se o nosso país ainda sobrevive a esta cultura de desonestidade é porque uma minoria de políticos sérios o sustenta com suas posições firmes.

E, em relação aos políticos evangélicos eu creio que, pela base que cada um traz do ensino bíblico, do testemunho de seus pastores e da corrente de orações que os cerca, a maioria tem se comportado de forma adequada, contanto, obviamente, com as exceções de praxe. Agora, para tristeza nossa, em Londrina-PR o comportamento dos políticos evangélicos ao longo destes muitos anos tem deixado a desejar pois grande parte deles se corrompeu de forma clara e inequívoca, ainda que tenham continuado com o linguajar evangélico.

"Quando os justos governam, alegra-se o povo; mas quando o ímpio domina, o povo geme." (Provérbios 29.2). A corrupção antes era encoberta e surpreendia, hoje em dia já é presumida. O Sr. acredita que veremos dias de políticos que realmente legislam para o bem comum e que sejam engajados na construção de uma sociedade melhor para todos? O Sr. acredita que há como fazer"brilhar a luz de Cristo diante dos homens" (Mt 5:16) nas Camaras, Prefeituras, "Palácios"?

A Bíblia é muito clara quanto à qualidade dos governantes e o resultado em relação ao povo. Deus sempre foi muito rígido com os governantes que não correspondiam às Suas expectativas. Ao contrário da reta, que é o caminho mais curto entre dois pontos, a democracia é o caminho mais longo para se chegar a bons resultados quanto à ética, à seriedade, à competência, mas ainda é o melhor caminho pois permite a discussão e a possibilidade de se educar para a responsabilidade.

E eu creio que o Brasil, ainda que a duras penas, está sentindo os resultados destes anos de democracia pois os problemas estão vindo à tona e, ainda que a nossa justiça seja morosa, muitos estão pagando pelos seus erros. O julgamento do Mensalão é um grande exemplo de que as coisas podem melhorar ainda mais. Londrina, que tem passado por muitos anos de maus governos, tem dado exemplo de que a corrupção não precisa ser varrida para baixo do tapete, pois, com uma imprensa ágil, ministério público atuante e uma câmara firme, as pessoas que cometeram ilícitos estão hoje sendo processadas, o que, na minha opinião, inibe tentativas futuras.

E está provado que é possível existir político honesto. A corrupção não é obrigatória, pois, para aqueles que demonstram em sua maneira de ser, em seu linguajar, em seu comportamento que é uma pessoa com a graça de Deus, as tentações nem passam perto, pois "Deus é refúgio e fortaleza". E não existe melhor lugar para fazer "brilhar a luz de Cristo" do que no ambiente político, onde impera a escuridão da ânsia de poder, com todas as consequências nefastas.

Quais os conselhos que daria para àqueles que desejam atuar na política?

Filiar-se a um partido político fazendo uma séria análise de sua ideologia. Preparar-se durante um longo tempo antes de se aventurar a uma campanha. Aconselhar-se com quem já demonstrou seriedade e competência no trato da coisa pública. Orar muito, mas muito mesmo e solicitar que outros também orem. É preciso ter a seguinte consciência: Ser cristão com honra e dignidade; cultura; liderança e representatividade; testado na vida pública e com possibilidade de se eleger. Além da coragem para enfrentar este tremendo desafio, pois vale a pena o risco.

Encerro com um interessante relato de Bil Clinton,  ex-presidente dos Estados Unidos: "Aprendi com a minha denominação a fé em Jesus Cristo Salvador e a defesa da separação entre a Igreja e o Estado, mas foi estudando em uma Universidade Católica que aprendi que a fé deve ser construída coletivamente, deve ter impacto na sociedade e deve ser articulada intelectualmente".

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