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Lideranças que transformam pessoas e empresas


Como trabalhar com personalidades, visões tão diversas e fazer com que todos sigam para o alcance e até mesmo a superação das metas? A resposta pode estar no conceito apresentado pelo pesquisador do modelo de Liderança Transformacional de Bernard Bass, que se caracteriza por ser inspiradora.

"A proposta que a Liderança Transformacional traz para as organizações reside no desenvolvimento de uma visão ou aonde a empresa quer chegar, comunicá-la aos membros, inspirar e motivar as pessoas para seu alcance, obtendo delas o compromisso e a convergência dos esforços de todos", afirma Alberto Ruggiero, consultor organizacional e especialista em liderança. 

Alberto Ruggiero é Administrador de Empresas pela FEA/USP, pós-graduado em Gestão Estratégica de Negócios pela FGV, Psicologia Organizacional pela Universidade Metodista, e Marketing pela FAAP. É Mestre em Administração de Empresas pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Atua há 20 anos com gestão empresarial, com ênfase em educação, treinamento e desenvolvimento para todos os níveis organizacionais. Integra o quadro de profissionais da MOT - Mudanças Organizacionais e Treinamento, atuando em projetos direcionados à formação, qualificação, aperfeiçoamento, desenvolvimento e educação dos talentos humanos.

O Instituto Jetro teve permissão para a publicação da entrevista ao RH.com.br sobre este tema.

Alberto RuggieroRH.com.br - Em 1985, Bass teorizou o conceito de Liderança Transformacional. O que isso significou para o âmbito organizacional e principalmente para a Gestão de Pessoas?
Alberto Ruggiero -
Para o âmbito organizacional significou, em termos conceituais, o fim da era da relação comando-controle das lideranças para com seus liderados. Por que em termos conceituais? Porque ainda observamos a manutenção, por parte de muitos líderes, dessa prática somada à conivência das respectivas empresas, já que muitas delas estão preocupadas somente com os resultados finais, não importando os meios pelos quais foram alcançados.

Já para a área de Gestão de Pessoas significou um ponto de mudança profundo porque coincidiu com o processo de transição democrática pelo qual o Brasil passava culminando com a eleição de um presidente civil. Foi em meados dos anos 80 que a área de Gestão de Pessoas ou de RH como ainda é conhecida, passou a questionar seu papel na esfera organizacional, já que até então sua função era muito mais cartorial do que tática ou estratégica na maioria das empresas.

RH - Qual a proposta que a Liderança Transformacional traz para as organizações?
Alberto Ruggiero -
A proposta que a Liderança Transformacional traz para as organizações reside no desenvolvimento de uma visão ou aonde a organização quer chegar, comunicá-la aos membros, inspirar e motivar as pessoas para seu alcance, obtendo delas o compromisso e a convergência dos esforços de todos. O líder precisa promover e cultivar uma visão que dê sentido e significado aos propósitos e às ações organizacionais, pois sem isso qualquer esforço terá sido em vão. Nesse enfoque também fazem parte desse contexto uma orientação mais participativa na qual as pessoas sejam estimuladas a fornecer ideias, bem como a flexibilização, tornando o ambiente menos rígido.

RH - Esse conceito pode ser aplicado em qualquer segmento corporativo?
Alberto Ruggiero - Não pode ser aplicado. Esse enfoque requer maturidade profissional dos membros da organização, pois como lida com flexibilização, orientação a ideias e ao empowerment, a Liderança Transformacional não funcionará em culturas corporativas rígidas, nas quais impera o controle, a burocracia e o forte comando baseado na palavra final do líder, sem participação e envolvimento dos profissionais.

RH - Quais são os seus principais benefícios?
Alberto Ruggiero - Na minha visão os principais benefícios desse enfoque estão concentrados na abertura, na flexibilidade e no empoderamento dos níveis hierárquicos mais altos para os mais baixos, fazendo emergir a inteligência e as ideias que as pessoas trazem, criando clima de maior participação dos profissionais nas decisões que afetam seu trabalho, contribuindo para a formação da uma cultura corporativa na qual a inteligência organizacional é apreciada e estimulada.

RH - A Transformacional caracteriza-se por pontuar a liderança inspiradora. O que isso significa na prática?
Alberto Ruggiero -
Significa traduzir os objetivos e as metas organizacionais em metas individuais, fazendo com que as pessoas entendam o que se espera delas e como cada um contribuirá para alavancar o que foi planejado. Para isso é importante que o líder preste atenção a cada membro da equipe, conhecendo o que os motiva, respeitando suas forças e fraquezas e trabalhando para que estas sejam melhoradas e as outras potencializadas. Deve também, fornecer responsabilidades compatíveis com as atividades desenvolvidas, transferindo à equipe responsabilidades pelos resultados obtidos.

RH - O lado intelectual dos membros da equipe é estimulado, quando se opta por adotar a Liderança Transformacional?
Alberto Ruggiero - Como já dito, a Liderança Transformacional só funciona em ambientes que estimulam a flexibilidade, o compartilhamento de ideias e a transferência de responsabilidades dos níveis organizacionais superiores para os inferiores, somado ao grau de maturidade da equipe. Na verdade é como se eu estivesse dizendo à equipe que confio nela e sei que os membros do time farão o melhor que puderem para alcançarem o que foi previsto.

RH - Através da Liderança Transformacional é possível realizar, por exemplo, a prática do coaching?
Alberto Ruggiero -
É possível. Isso porque mesmo num ambiente onde impera alta maturidade profissional, erros podem ocorrer. Como um dos preceitos da Liderança Transformacional é a transferência de responsabilidade para cada membro da equipe, se algo não saiu como previsto, o líder pode e deve utilizar a prática do coaching, extraindo do coachee onde errou, no que errou e quais ações tomará para reparar o erro.

RH - É notório que toda mudança mexe com o lado comportamental. Consequentemente, as pessoas podem apresentar resistência às inovações. No caso específico da Liderança Transformacional, o que deve ser feito para que isso não se torne um entrave no processo?
Alberto Ruggiero -
A Liderança Transformacional não é uma política na qual é estabelecida e que deve ser cumprida à risca por todos a partir de hoje. É um processo. E como todo processo leva tempo, ainda mais em se tratando de pessoas. Antes de adotá-lo, é necessário, em primeiro lugar, verificar a cultura corporativa vigente, ou seja, se os altos escalões desejam genuinamente trabalhar com essa prática. Se não começar daí, é melhor nem tentar.

Em segundo lugar toda a liderança da empresa precisa ser trabalhada com relação às novas crenças adotadas pela organização. É claro que alguns ficarão pelo caminho, pois seus valores vigentes não combinarão com uma cultura de abertura, flexibilidade e transparência. A organização deve estar preparada para desligar esses profissionais, premiando-os pelos bons serviços prestados até então.

Em terceiro lugar, os líderes remanescentes devem atuar sob esse novo comportamento após todo um trabalho de desaprendizagem e reaprendizagem do novo processo. Precisa-se de tempo de maturação para a nova forma de trabalho, pois os líderes serão os precursores da mudança de cultura das pessoas já que se elas estão acostumadas a esperar que o líder dê a última palavra, agora o líder espera que cada um contribua com ideias. E isso não ocorre num passe de mágica. Não é magia, é tecnologia.

RH - Geralmente, que fatores comprometem o trabalho daqueles que procuram implantar a Liderança Transformacional?
Alberto Ruggiero -
Não corresponder ao que se esperava. E isso ocorre, sobretudo, quando não se planeja a mudança, pois se a empresa trabalhou tanto tempo sob um determinado enfoque de liderança, como ela espera que se atue sob um novo enfoque num tempo tão exíguo? As pessoas, primeiramente, se sentirão incomodadas e desconfiadas devido à mudança de padrão. E para se acostumarem precisam de tempo. E isso pode ser frustrante quando uma empresa acha que começando hoje, amanhã já estará totalmente implantado e em pleno funcionamento. Nada mais ingênuo.

RH - Alguma consideração final para quem deseja adotar a Liderança Transformacional?
Alberto Ruggiero -
Sim. Se a adoção dessa nova forma de liderar for apenas para "inglês ver", só para dizer que a empresa é flexível e tal e que impera a cultura participativa, esqueça, não faça e deixe como está. Isso porque o resultado será pior e o grau de desconfiança aumentará e a credibilidade ficará reduzida. Muitas empresas adoram implantar chavões acreditando que do nada a mudança ocorrerá. Sem trabalho árduo, comunicação, vontade, preparo e, principalmente, respeito, a nova filosofia será esquecida, sem antes ser credenciada como motivo de piada e chacota nos corredores da empresa.

Reprodução Autorizada desde que mantida a integridade dos textos, mencionado o autor e o site http://www.institutojetro.com e comunicada sua utilização através do e-mail artigos@institutojetro.com

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