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Gestores - alívio para pastores


O pastor Silvio Renato Neves é gestor da Comunidade Evangélica de Maringá (CEM) há dois anos. Bacharel em Administração de Empresas, possui 30 anos de experiência em administração na indústria e comércio. É formado em Teologia (Licenciatura) pelo Centro Teológico e Familiar de Maringá; possui 8 anos de experiência prática de aconselhamento.

Nesta entrevista, ele fala sobre como se deu o processo de implementação da função de Gestor na igreja, a repercussão de suas atividades no dia-a-dia da instituição e no ministério pastoral.

foto de Silvio Renato NevesO que levou a liderança da igreja a estabelecer a função de Gestor? 
Silvio - A Comunidade Evangélica de Maringá (CEM) é uma Igreja que procura se mover dentro dos dons e ministérios de Jesus. Compreendendo que tal totalidade se realiza na plenitude do Corpo, fundamenta-se dentro do princípio de Jetro (Êxodo 18) e busca apoiar homens e mulheres fiéis, tementes a Deus, cheios do Espírito Santo e escolhidos por Ele para que efetuem toda a obra. A maioria das atividades que desempenho hoje já estavam sendo desenvolvidas por outros funcionários administrativos e Pastores da CEM, desde muito antes de minha chegada aqui na igreja. Com o crescimento da sede e das congregações ao longo do tempo, multiplicaram-se também as atividades de todos os funcionários envolvidos no processo administrativo e pastoral. 

Neste período estivemos presentes em eventos sobre gestão ministerial e em contato com pastores que tiveram a experiências de adotarem um gestor, a exemplo do Pr. Ary Velloso, da Igreja Batista do Morumbi. Algo que nos impactou bastante foi refletir no pensamento:"Permita que o pastor seja pastor". Isto implica em deixar que as atribuições administrativas sejam concentradas no gestor, e desta forma, permitir que o pastor tenha tempo para o exercício efetivo de seu ministério. Ainda hoje continuamos buscar direção em assuntos estratégicos como finanças, comunicação, aspectos legais, humanos, de projetos, avaliações e de serviços. 

Como foi a implementação desta função na igreja? Você poderia descrever as etapas do processo até a implementação? 
Silvio - É necessária flexibilidade para a implantação de todo processo. Com certeza, nossa implementação foi e está sendo ainda cautelosa. Nossas atitudes, por mais bem intencionadas e excelentes, precisam ter a aprovação do Senhor. Tornei-me membro em 2001. Em 2003, passei a exercer a função de missionário em uma congregação, período em que acumulei, com minha esposa, funções de coordenação. Em 2004, passei a trabalhar na igreja em tempo integral, sendo que em 2006 fui consagrado pastor da CEM. Os membros e funcionários necessitam tempo para assimilar e aceitar a idéia de um novo cargo na igreja. A liderança de nossa Comunidade respeitou este tempo. Após ser consultada a liderança de base, houve então a contratação e comunicação à igreja e aos funcionários. A seguir, tivemos um tempo de aperfeiçoamento profissional, que incluía a participação em cursos e visitas a outras igrejas, que também tiveram a experiência de implementação de um gestor. Após, iniciamos a coleta de dados e o entrosamento com a igreja. Neste período, buscou-se a aceitação e o estabelecimento da nova função, entre os pastores, líderes, funcionários e diante da membresia. Foi neste momento que aprendemos muito, pois conhecemos a fundo o funcionamento de nossa Comunidade e seus ministérios. Neste período, a Pra. Presidente pode descansar um pouco da sobrecarga de suas atividades na igreja, especialmente na área administrativa. 

Na implementação, não necessitamos "apagar nenhum incêndio", pois encontramos o processo de controle organizacional e suas estruturas já muito bem estabelecidas e fixadas, onde a manutenção e acompanhamento foram suficientes. Agora, vivemos o período da sedimentação da função. Buscamos melhorar o que já existe e está funcionando, a aceitação tem sido promissora e cremos que o cargo de gestor já é uma realidade em nossa Comunidade. 

Quais as áreas ou atividades são mais influenciadas ou impactadas quando se estabelece um gestor na igreja? No caso de vocês, quais as mudanças mais evidentes? 
Silvio -
 A distinção feita nos assuntos estritamente administrativos na igreja permite o tratamento profissional mais adequado. Quanto à documentação legal, por exemplo, necessitamos de profissionalismo e organização. Os líderes podem se concentrar em tarefas ou então, mais abrangentemente, nas relações humanas. O gestor desempenha os dois papéis, mas pode, dentro de sua esfera de ação, separar assuntos administrativos de pastorais, encaminhando estes quando for necessário. Acreditamos que a evidência de tempo e condições para o pastor ser pastor será notada quando o gestor estiver atuando numa igreja. Por outro lado, como gestor, já fiz visitas à minha pastora presidente, em sua sala, onde não tratamos de nada administrativo e sim, recebi ministração pastoral. Ela tem sido também minha conselheira sábia nos momentos necessários. Portanto, temos que aprender a separar as coisas. De outra forma, a descentralização também é evidente com a figura do gestor e sua equipe de trabalho na igreja. Como exemplo, podemos citar rotinas extremamente burocráticas que necessitam ser realizadas, tais como: definição do quadro de horário de trabalho, descrição de atividades, e entrega de relatórios de atividades diárias, entre outras, devem ser implantadas, atualizadas e acompanhadas de perto pelo gestor que deve comunicar e corrigir os desvios e falhas. 

Por fim, nos processos que envolvem resolução de conflitos, com a figura do gestor, há uma certa desvinculação do pastor no primeiro momento, preservando-o de desgastes desnecessários. Poupado, o pastor pode, se necessário, concluir o processo, depois do assunto já ter sido esgotado em profundidade, e as conclusões e providências a serem tomadas estiverem clarificadas. 

A membresia já absorveu esta função a ponto de lhe procurar diretamente naquelas questões que não são mais de responsabilidade dos pastores? 
Silvio - 
Sim. Como sabemos, sempre existirão áreas de atuação comuns entre gestor e pastor, dependendo de cada caso em particular e de cada igreja. Com o tempo, são estabelecidos padrões de tratamento, para os mais variados assuntos. Se as etapas anteriores da implementação da função foram vencidas com sucesso, o gestor estará entrosado e aceito pela igreja. Com a figura e o papel do gestor bem esclarecidas, fica fácil saber quais assuntos devem ser tratados diretamente com ele. Claro que isto não pode ser imposto pois a autoridade é construída no compromisso, excelência e transparência dos relacionamentos. Este estabelecimento, é alcançado à moda antiga, com trabalho, paciência e oração. 

Quais as principais competências que um gestor deve ter, ou seja, quais as habilidades, conhecimentos e atitudes que esta função exige? 
Silvio -
 As contratações têm sido com ênfase em pessoas que saibam trabalhar em equipe, entender e assimilar pontos de vista diferentes. Entendo que são pré-requisitos necessários à função de gestor 3º Grau Completo na área Administrativa; experiência mínima de 10 anos na coordenação administrativa e de equipes; conhecimento e experiência em rotinas de órgãos públicos; informática; bom relacionamento interpessoal; organização; maturidade pessoal e espiritual, identificação e subordinação à visão. Quanto à personalidade, entendo que o gestor deva ser: persuasivo, quero dizer, convencendo e não impondo; articulado; ter visão sistêmica; equilibrado; estimulante; ter boa capacidade de entender as pessoas; bom senso de urgência; certa capacidade empreendedora e de tomar decisões; forte senso e experiência de trabalho em equipe com facilidade para delegar e disciplina para supervisionar; habilidade de negociador prazos e prioridades, com personalidade para dizer não se necessário; flexibilidade. O ideal de liderança é difícil de ser definido pois um estilo pode ser extremamente eficaz em um momento e logo a seguir inadequado em outro. O equilíbrio entre a personalidade forte e a mais flexível é sempre pretendido de acordo com o necessário ou a situação. 

A CEM possui uma equipe que atua na gestão sob a sua responsabilidade? Que funções e responsabilidades estão diretamente ligadas à gestão da igreja?
Silvio
- Sim, como já afirmei acima, a igreja já existia antes de minha chegada e tudo caminhava muito bem, apesar da sobrecarga. Esta equipe que já existia, e que está diretamente ligada à gestão, é composta dos funcionários da secretaria e tesouraria somados à figura do gestor e Pra. Presidente. Por outro lado, a diaconia, relaciona-se de perto com o gestor assim como a equipe do apoio. Os ministérios, por sua vez, concentram no gestor a prestação de contas, apresentação do planejamento anual e suas correções, formando o calendário da igreja. Também passa pela equipe de gestão o suprimento de materiais de consumo para a sede e congregações, assim como a verificação de necessidades de reforma física nos templos, construções, manutenção de veículos, móveis, equipamentos e utensílios. A gestão e sua equipe responde também pela parte jurídica, administrativa e tributária da igreja de forma geral. Para tanto, dispõe de escritório de contabilidade terceirizado, e uma equipe de advogados, engenheiros e profissionais da administração e outras especialidades, voluntários da igreja, que se revezam nas assessorias. É uma equipe preciosa, amorosa, competente e linda que o Senhor nos tem dado. 

O gestor, para o ministério do pastor ou pastora principal, pode ser comparado ao que Jetro representou para o ministério de Moisés? 
Silvio - 
Exatamente, pois como a excelência deve ser um hábito e não apenas um objetivo a ser alcançado, nossa gestão deve ser participativa, transparente e descentralizada. Jetro indicou a idéia de descentralização que veio desafogar Moisés e o povo. Experimentamos aqui o mesmo benefício para o ministério pastoral e a igreja, pois através de competências distribuídas, os trabalhos fluem com maior rapidez e menor sobrecarga. Questões urgentes e de expediente normal do dia a dia exigem encaminhamentos rápidos e pontuais. 

Na prática, como o trabalho do gestor beneficia o ministério pastoral? 
Silvio -
 No acúmulo de funções, o pastor fica sem tempo de exercer o ministério que o Senhor lhe deu, ou fica sobrecarregado. O gestor sempre estará em contato com o pastor presidente, trazendo a ele as informações processadas e analisadas. Desta forma, as tomadas de decisões são compartilhadas mas o trabalho administrativo e burocrático é centralizado no gestor e sua equipe. Mais uma vez: "permitir que o pastor seja pastor", sem deixar de participar da administração da igreja, é um alvo desejável e possível às igrejas que querem adotar a figura do gestor em seu processo administrativo. Que o Senhor nos dê sempre da Sua graça e sabedoria para podermos, como bons mordomos, discernir a necessidade e o tempo desta transição em cada igreja, como foi a sábia instrução de Jetro a Moisés.

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