Entrevistas

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Meditação cristã


A meditação cristã é foco da recente obra de Osmar Ludovico, Meditatio, publicada pela Editora Mundo Cristão. Osmar foi nosso convidado para uma entrevista sobre a importância dos momentos de silêncio e meditação na vida dos líderes cristãos, e como chegar nestes momentos, vivendo-os intensamente. Nos últimos trinta anos, Osmar pastoreou as Comunidades de Jesus em São Paulo, Rio de Janeiro e Curitiba. Estudou no seminário Palavra da Vida, em Atibaia, e participou de cursos com John Stott, na Inglaterra, e com Hans Bürki, na Suíça. Atualmente dirige cursos de espiritualidade, revisão de vida e seminários para casais, pastores e missionários. Confira a entrevista:

 foto de Osmar Ludovico

Em suma, o que caracteriza a meditação bíblica?
Osmar - A meditação cristã é uma das mais significativas páginas da História da Igreja. Foi muito utilizada e praticada pela Monástica e  sistematizada na Lectio Divina pelo monge cartuxo Guigo II (1173-1180). Hoje é também conhecida como Meditação Cristã ou Leitura Orante das Escrituras. Guigo II utiliza a idéia de uma escada para a prática da Lectio Divina, sugerindo uma subida para um encontro no alto, no monte de Deus e logo uma descida para um encontro nas profundezas, no fundo do coração.

E quais seriam os “degraus” desta escada?
Osmar-  Statio (preparação), Lectio (leitura), Meditatio (meditação), Oratio (oração), Contemplatio (contemplação), Discretio (discernimento), Collatio (compartilhar) e Actio (ação) são os degraus desta milenar tradição de ler a Bíblia. Estes passos constituem um movimento integrado em que cada degrau conduz ao outro. Lentamente, saboreando cada passo, em direção ao topo para em seguida descer ao vale, voltar ao concreto e ao cotidiano. Assim diz Guido: “A leitura – Lectio – é o estudo atento da Escritura feito com um espírito totalmente orientado para sua compreensão. A meditação – Meditatio – é uma operação da inteligência, que se concentra com a ajuda da razão, na investigação das verdades escondidas. A oração – Oratio – é voltar com fervor o próprio coração para Deus para evitar o mal e chegar ao bem. A contemplação – Contemplatio – é uma elevação da alma que se levanta acima de si mesma para Deus, saboreando as alegrias da eterna doçura. E completa: “A leitura leva à boca o alimento sólido, a meditação corta-o e mastiga-o, a oração saboreia-o, a contemplação é a própria doçura que alegra e recria”.

Então não se trata de simplesmente realizar um estudo bíblico?
Osmar - Não. O objetivo não é um estudo bíblico ou uma exegese. É leitura bíblica que nos conduz a uma experiência de encontro com Deus e a uma experiência de oração., como descrito em Êxodo 33.11: “Falava o Senhor a Moisés face a face, como qualquer um fala ao seu amigo”. O propósito da Lectio Divina não é, simplesmente, aumentar o nosso conhecimento intelectual, mas nos levar a um encontro vivo com Jesus Cristo. Tal encontro não nos deixa ilesos, mas faz com que nossa pobreza espiritual aflore, nossos pecados venham a tona, bem como nos indica o caminha da transformação de nossas vidas.
 
Qual o maior benefício que os momentos de silêncio, recolhimento e meditação podem trazer à vida e ao ministério dos pastores e líderes cristãos, geralmente tomados pelo ativismo das programações e responsabilidades ministeriais?
Osmar - Somente quando entramos numa silenciosa e solitária é que somos levados ao coração de nós mesmos e ao coração de Deus. Aí sintonizamos com a presença silenciosa de Deus em nós, numa relação de amor, onde somos acolhidos e amados. Deste lugar sereno, no fundo da nossa alma, na solitude e no silêncio, jorra uma fonte de eterna satisfação e alegria, que nos conduz à experiência amorosa e livre de encontro com o outro, o meu semelhante. É só quando sei estar sozinho diante da face silenciosa e amorosa de Deus, é que minha narrativa é transformada, minha linguagem deixa de ser explicativa, argumentativa para se tornar a linguagem da intimidade.
 
Sites de buscas, que nos levam em segundos aos milhares de sites de estudos bíblicos e sermões prontos, bíblias cada vez mais completas e diversificadas...O senhor acredita que tantos recursos disponíveis hoje aos pastores e líderes os têm afastado deste caráter meditativo sobre a Palavra de Deus?
Osmar - Acredito que sim. O ministério é baseado em técnicas e produção mental. Perdeu-se a dimensão da intimidade e do coração. Na maior parte do tempo, os programas de treinamento e capacitação são baseados em técnicas seculares para aprimorar habilidades, aumentar o desempenho e maximizar os resultados. Ou seja, um conceito de mercado. A proposta e a linguagem destes programas é, geralmente, distante do projeto de Jesus de Nazaré. Com isto, corremos o risco de ver uma geração de pastores eficientes no domínio de técnicas de gerenciamento, marketing e formação de equipes vencedoras, mas com uma vida espiritual e familiar precárias.

Sua obra ("Meditatio") reúne vários textos gerados em seus momentos de silêncio e meditação. O senhor comenta sobre Davi, que escrevia seus sentimentos e canções, que compõem o livro de Salmos. Escrever, registrando o que se medita nos momentos de silêncio, deve ser uma prática na vida dos pastores?
Osmar - Não quero dar receitas, mas simplesmente lembrar que a revelação de Deus se apóia numa palavra que foi escrita. Escrever nossas orações nos ajuda a sermos mais específicos, a sermos mais poéticos, e ao longo do tempo possibilita um acompanhamento do nosso itinerário biográfico, emocional e espiritual.  Aprendemos a orar com os Salmos, que é um diário de orações de homens como Davi, Core e Moisés. Estes salmos nos conduzem ao centro da oração: o temor, o desejo, os afetos, a realidade humana. Temor não é medo que afasta, mas uma profunda reverencia e respeito diante daquele que não compreendemos completamente, daquele que se revela, mas que continua envolto no mistério, pois não suportaríamos sua presença plena. É o inefável, o inominável, o inescrutável. O desejo porque fazemos contato com aquela saudade infinita escondida no nosso coração e lançamos sobre Deus todo nossa busca existencial e espiritual como o náufrago se agarra à bóia. O afeto porque Deus é amor, é Trindade Santa, Pai, Filho e Espírito Santo intimamente ligados e interpenetrados. Deus que subsiste em si mesmo amando entre os três, e desejando que o amemos e que vivamos amorosamente entre nós. E finalmente porque tudo isto se situa além do racional e do cognitivo. A oração é poesia, é cântico. É feita de metáforas como alguém que, tendo visitado um país estranho e desconhecido, só pode contar aquilo que viu através de comparações.

Com tantos anos de experiência como pastor, o senhor tem algum conselho para que os pastores consigam se “desligar” dos problemas das ovelhas, das solicitações, dos convites...e simplesmente se aquietarem para ouvir a Deus?
Osmar - O ativismo é fruto de um coração inquieto e ambicioso. Resgatar o tempo sabático, isto é, parar para celebrar a vida, sem nenhum compromisso, trabalho ou solicitação é um mandamento do Deus. Jeremias 31.3 fala do amor eterno, sem pressa. Deus anda lentamente porque é eterno, não tem a limitação da cronologia. Na mitologia grega o deus Cronos devora seus filhos. O amor tem seu ritmo, precisa de tempo, de um ritmo interior, diferente a velocidade tecnológica dos computadores e do fast-food. Tudo que é mais profundo é lento, é diferente das soluções mágicas e instantâneas, precisa de tempo. A ternura não pode ser dada rapidamente, amizades precisam de tempo para se consolidar, e o perdão é um processo que demanda paciência. Para trilhar um caminho de intimidade e da escuta mais profunda precisamos desacelerar, andar num outro ritmo, sair do frenesi, da euforia e da agitação que nos fragmenta. Significa estar inteiro em cada encontro, em cada palavra, em cada sorriso, em cada lágrima, remindo o tempo e alcançando um coração sábio, pois o tempo é fugaz e o que realmente importa é o quanto nós amamos e fomos amados. Invocar a graça e a ternura eterna de Deus sobre a minha vida é entrar no tempo do descanso, no Schabat, na salvação, no Shalon de Deus, na plenitude.

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