Entrevistas

Compartilhe

Experiências de sucessão


Muitos fatores estão envolvidos numa sucessão quer seja no ambiente eclesiástico ou empresarial. Entrevistamos o Pr. Messias Anacleto Rosa e Pr. Mathias Quintela de Souza para falar dos aspectos emocionais, as dificuldades e preocupações na escolha do sucessor, e também, para dar conselhos àqueles que estão “passando o bastão” e os que irão sucedê-los.

Pr. Messias é graduado em Teologia pelo ISBL. Pastoreou a igreja em Umuarama, Florianópolis e em janeiro de 1973 assumiu a 1ª Igreja Presbiteriana de Londrina, sendo jubilado em 2007, mas ainda compondo o corpo pastoral desta Igreja. Autor de vários livros, entre eles, o devocionário Refrigério que ganhou o prêmio ABEC (Associação Brasileira de Editores Cristãos), sendo considerado o melhor livro desta categoria em 2002.

Pr. Mathias é graduado em Teologia pela Faculdade ABECAR em Mogi das Cruzes, especialista em Missiologia pelo Centro Evangélico de Missões Viçosa, Minas Gerais e pela Faculdade Teológica Sul Americana (FTSA). Pastoreou diversas igrejas entre elas: Maringá, Apucarana, Arapongas e Curitiba, São José do Rio Preto, Campo Grande e Florianópolis. Em janeiro de 1998 ingressou no corpo pastoral da Primeira Igreja Presbiteriana Independente de Londrina onde é atualmente o pastor titular.

Quais os aspectos envolvidos quando se vive um momento de sucessão? Como identificar que este é o momento certo para ser sucedido?
Messias 
– Eu creio que em primeiro lugar estão envolvidas as lembranças de toda uma caminhada e também a preocupação se a sucessão vai dar certo. Em resumo as emoções são: em relação ao passado, as lembranças e em relação ao futuro, as preocupações. Ao suceder o Pr. Jonas, a emoção que mais me envolveu foi o peso da responsabilidade de dar continuidade a um trabalho que estava sendo feito ao longo dos anos por uma pessoa extremamente capaz. Eu sempre digo: “suceder a um líder que não foi bem sucedido no seu trabalho não é tão difícil, mas suceder alguém que teve sucesso no que fez é extremamente difícil”. A preocupação é se você está à altura para dar continuidade ao que estava sendo feito. Com relação ao momento certo, creio que no campo eclesiástico, é identificado pelo Espírito de Deus e, no mundo lá fora, são vários fatores. Eu acredito que o melhor momento é quando tudo vai bem. Minha experiência foi muito tranqüila, estava numa reunião de líderes, saí um minuto e ao retornar ouvi Deus falando que estava na hora de passar o bastão.

Mathias – Quando temos a convicção de que Deus está conduzindo o processo da transição, principalmente por se tratar de liderança espiritual, a nossa parte é feita com alegria e na certeza de que o projeto na qual estamos envolvidos tem futuro promissor. Deus também nos capacita a discernir os sinais do tempo para que as decisões sejam tomadas na hora certa.

Quais as preocupações que devemos ter para passarmos o legado a outra pessoa?
Messias  O sucedido não pode sair ferido, amargurado e azedo, e o sucessor às vezes, querendo mostrar serviço, pode ter atitudes, mesmo sem intenção, que ferem não só o que saiu mas muitos que ficam dos liderados. O ideal é ter espírito de nobreza, de sabedoria, de grandeza. Porém isto não é fácil, devido à natureza egoísta do ser humano. Devemos entender que a glória é de Deus. Como igreja evangélica, precisamos crescer muito nesta área, pois muitas vezes a forma de sucessão não faz sentido. Pegam-se pastores de outra região, de outra cultura e os fazem assumir uma igreja com características diferentes, e esta tem que aceitá-lo. Desta forma, sofrem tanto os liderados quanto os líderes, e isto não pode acontecer. 

Mathias  Seguir com zelo as instruções dadas em 2 Tm 2.2: “O que de minha parte ouviste através de muitas testemunhas, isso mesmo transmite a homens fieis e também idôneos para instruir outros”. Assim, esta cadeia de discipulado que começou com o Senhor deve prosseguir até a sua volta em glória.

O dito: “Não importa como entramos, o melhor é como sairemos” é verdadeiro?
Messias – Eu discordo um pouco desta afirmação porque o “não importa” é relativo. Em qualquer área de atividade, a forma como você começa também é importante. Na Fórmula 1, por exemplo, como você começa é importante, se você está na pole position ou não. Porém, também podemos interpretar como: ainda que o início não tenha sido bom, o importante é a forma com que você termina, e este é o mais difícil. Hoje, 65 % dos líderes começam bem, avançam mais ou menos e terminam mal. É importante começar bem, prosseguir muito bem e terminar de forma excelente. Um pensador chamado Stanley Jones disse: “Discipline os seus começos porque eles determinam o seu futuro”.

Mathias – Não. Jesus foi enfático: "O que não entra pela porta no aprisco das ovelhas, mas sobe por outra parte, esse é ladrão e salteador. Aquele, porém, que entra pela porta, esse é o pastor das ovelhas" (Jo 10.1-2). Jesus é o nosso paradigma. Como discípulos dele, devemos entrar pela porta estreita da renúncia do "ter", prosseguir no caminho apertado da realização do nosso "ser" em Cristo  para que o nosso "fazer" seja significativo e produza os resultados que glorificam a Deus. Usando uma figura do atletismo, inspirado por Guimarães Rosa, podemos dizer que tão importante quanto a largada e a chegada, é a travessia. 

O sucessor deve ser uma escolha do atual líder ou da igreja?
Messias – É importante que seja escolhido pela igreja, porque é um princípio democrático, mas nem sempre. É muito complexo dogmatizar as coisas. Eu creio que é possível trabalhar as duas propostas. Quando o sucessor é escolhido também pelo líder, este deve ter a sensibilidade de auscultar a comunidade, mas com cuidado, pois nem sempre a comunidade compreende o processo. Esta falha é muito comum, tanto no campo religioso, quanto nos campos empresarial, político, e outros, porque o líder vê ângulos que a comunidade não vê, e vice versa. O ideal é que o sucessor seja indicado pelo líder, porém com a sensibilidade, o discernimento e a graça de Deus para ouvir, auscultar, sentir a comunidade, não é bom que esta escolha seja isolada, da parte de um como da parte de outro, o ideal é que ambos participem do processo.

Mathias  A escolha é de Deus. Cabe ao atual líder e à igreja, esta representada pela sua liderança, conduzir o processo de transição de tal maneira que no final possam chegar à mesma conclusão do primeiro concílio da igreja reunido em Jerusalém: "Pareceu bem ao Espírito Santo e a nós" (At 15.28) tomar essa decisão.

Quais os tipos de dificuldades na estrutura da igreja que uma sucessão pode trazer? 
Messias – Isto depende muito do sucessor. Quando você sucede um líder, quer ele tenha sido bom ou não, você não pode chegar e impor sua forma de trabalhar. O sucessor deve ser hábil, sensível e ter humildade. As estruturas sofrem quando o líder não tem habilidade e perfil. Eu digo com muita transparência que só terei certeza se um pastor é bom após 10 anos de trabalho. Não estou duvidando dele, mas até lá irei observá-lo, pois quando começamos, somos como vassoura nova, ela varre que é uma beleza.

Mathias – As dificuldades de qualquer tipo surgem quando a ênfase está na posição, não na função do líder. Isto acirra as ambições. Ora, na igreja, corpo de Cristo, da qual Ele é a cabeça, todos nós temos a mesma posição: somos servos, ou melhor, escravos de Jesus Cristo, chamados para as diversas funções neste corpo (Rm 1.1). Todas igualmente importantes, sendo a liderança pastoral uma dessas funções.

Em sua opinião, qual o melhor exemplo bíblico de uma sucessão bem feita?
Messias – Moisés e Josué. Josué andou com Moisés 40 anos. No meu caso, eu acho que a sucessão do Pr. Jonas Dias Martins deu certo porque quando eu assumi, o fiz já como pastor titular. Ele já estava bem velhinho e cego, mas eu procurei prestigiá-lo e nunca me apresentei como pastor da igreja, embora eu o fosse de fato. Andamos juntos e foi muito bom, da mesma forma foi Josué um companheiro leal de Moisés. Foi uma sucessão sem traumas.

Mathias  A sucessão de Elias por Elizeu. Elizeu tornou-se discípulo e servo de Elias (1 Rs 19.19-21), seguiu e serviu fielmente o seu mestre até que recebeu porção dobrada do seu espírito (2 Rs 2.9-14). Deus fez por intermédio de Elizeu o dobro dos milagres feitos por meio de Elias. A sucessão é bem sucedida quando o sucedido é ultrapassado pelo seu sucessor.

Quais os conselhos para aqueles que estão “passando o bastão” para outra pessoa? E quais os conselhos para aqueles que irão sucedê-los?
Messias 
– Para os que estão deixando o cargo, aconselho que sejam nobres, apoiando, incentivando, no sentido de acompanhar, sem interferir e atrapalhar. É como um pai que casa o filho. Este conselho se aplica a todos nós, não somente na vida religiosa, mas também na vida familiar e política, após passarmos o bastão, não cabe a nós interferir, mas infelizmente é isso que acontece. É por este motivo que deixo o mesmo conselho para os que sucedem, sejam nobres no sentido de dar o respeito e o carinho ao que saiu. Apesar de ser comum na nossa sociedade, esquecer o sucedido, aquele que assume deve ter habilidade para prestigiar. Quando é assim a tendência é de ir bem. 

Mathias – Para os que estão sendo sucedidos, aconselho confiar no sucessor e descansar quanto ao futuro da obra, do empreendimento. Para o sucessor, receber o legado com humildade e responsabilidade, com o compromisso de não apenas preservar, mas de desenvolver o patrimônio espiritual, moral e, também, material, recebido.

Reprodução autorizada desde que mantida a integridade dos textos, mencionado a fonte como: www.institutojetro.com e comunicada sua utilização através do e-mailartigos@institutojetro.com.