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Ética na vida ou vida ética?


Muitas decepções e questionamentos. Em que mundo estamos? A falta de ética nos cerca de todos os lados. Mas, até onde somos éticos? O que fazemos para mostrar a ética de Cristo em nossas vidas? Temos ética na vida ou uma vida ética? Grandes e pequenas atitudes mostram no que cremos. A entrevista que segue nos desafia a olhar para o próximo e perceber que é somente através dele que podemos ter realmente uma vida ética. 

A entrevistada é Rosalee Velloso Ewell, doutora em Ética e Teologia Bíblica pela Duke University - EUA, mestre em Teologia pelo Fuller Theological Seminary (Pasadena, EUA) e bacharel em Ciências da Religião pelo Westmont College (Santa Barbara, EUA). Atua como pesquisadora, escritora e editora do Novo Testamento para o Comité Latinoamericano de Literatura Bíblica (San José, Costa Rica) e Langham Partnership International (Londres, Reino Unido).Também atua no conselho do Lausanne Theology Working Group para o Congresso de Lausanne 2010 - Cidade do Cabo e está envolvida em vários projetos sobre evangelismo, Bíblia e missão. Tem experiência como professora e pesquisadora em Teologia Bíblica, Ética, e Teologia Sistemática, com ênfases nas áreas de hermenêutica, ética e política, diálogos entre as religiões e ética e economia.É casada e mãe de 3 filhos.

 

 foto de Rosalee Ewell

A maioria das pessoas está decepcionada com a situação da ética no mundo. Não aguentam mais assistir a tantos casos de desonestidade e má-fé, quer seja na Igreja Católica, Evangélica, na política, no mundo dos negócios ou nas relações interpessoais. Mas ainda assim, resolve "mentir um pouquinho", "não pagar impostos", "burlar uma norma aqui" ou "furar um fila ali". Como aplicar a ética cristã num mundo extremamente relativista?
Rosalee: 
Em todos os períodos de sua história, a igreja e seus líderes sempre enfrentaram problemas, sejam eles por causa do relativismo ou por outras razões. O que faz a diferença é se a igreja ou a pessoa cristã está preparada para enfrentar tais crises, porque ética cristã não é algo que se "espera" para aplicar somente em tempos difíceis, mas tem a ver com a vida de discipulado e missão. Se no dia-a-dia estamos nos preparando, através do estudo da Palavra, com oração, com amizades cristãs saudáveis, etc., no dia em que chegar uma crise ou uma decisão mais complicada, não teremos tanta dificuldade em enfrentá-la. A vida ética é a vida de discipulado - aprendendo a sermos seguidores de Jesus - e também é a vida de missão, para que o mundo veja em nós algo diferente, algo que mostre ao mundo quem é o verdadeiro Deus.

Porque Jesus veio temos agora uma ética, a ética de Cristo. E esta ética só pode ser visualizada pelo mundo no testemunho da Igreja. Em sua opinião, as ações da Igreja de hoje testemunham a ética de Cristo?
Rosalee: Antes de Cristo, Deus já havia falado para seu povo, Israel, sobre o que queria deles - Ele queria um povo santo, um povo missionário para que os outros povos pudessem ver quem é Deus.  Esta mensagem ou esta ética não muda com Cristo, mas é reforçada através do ministério, vida e morte de Cristo. Como mencionei antes, a Igreja sempre teve suas crises. Em Corinto eles estavam enfrentando batalhas sobre que tipo de carne era possível comer, também tinham crises sobre sexualidade e casamento. A cada momento a igreja precisa discernir qual o caminho certo para ser verdadeiramente a Igreja de Cristo. Para nós hoje, a questão de onde vem a carne para o churrasco não é um grande dilema, mas para os cristãos em Corinto era. Nós temos outros problemas e falta-nos exemplos e líderes capazes de dizer a verdade em amor, mostrando com suas vidas e através de um engajamento sério com a Bíblia qual o caminho de fidelidade para sua congregação. A igreja falha e continuará falhando, mas às vezes são estas as melhores oportunidades para que o povo volte-se para Deus e mostre ao mundo um testemunho diferente, tal como foi o caso em Corinto.

Por que a regra de ouro: "Faça ao próximo o que gostaria que ele fizesse a você" é tão difícil de ser vivida nos dias de hoje, mesmo entre os cristãos?
Rosalee: Acho que é porque não temos noção do que isto significa. Vivemos isolados, não conhecemos nossos vizinhos, nem sequer perguntamos sobre onde vivemos e por que vivemos desta forma. Neste isolamento e individualismo, torna-se muito difícil ter uma idéia sobre o que o próximo gosta. Quem é o próximo quando nem sei o nome do meu vizinho do andar superior? Na igreja, a maioria entra e sai no domingo sem se dar ao trabalho de conhecer uma pessoa nova, muito menos chegar ao ponto de conhecer alguém tão bem para poder fazer algo que ela goste.  Para sermos mais fiéis, precisamos gastar mais tempo juntos - necessitamos daquilo que a Bíblia chama de koinonia - comunhão. Koinonia requer disciplina e tempo - tempo juntos estudando, jantando, jogando futebol, etc. Numa sociedade que diz que "tempo é dinheiro" como a igreja pode mostrar que isso é contrário ao evangelho?

John Maxwell no livro "Ética é o melhor negócio" afirma que "na verdade há apenas dois pontos importantes quando se trata de ética. O primeiro é um padrão a ser seguido. O segundo é a disposição de fazê-lo." Em sua opinião, em qual dos dois pontos temos mais dificuldades: na escolha do padrão a seguir ou na disposição de segui-lo?
Rosalee:  O mais difícil é que pensamos que tanto para achar o padrão, quanto segui-lo depende de nós e que estamos sozinhos nesta jornada. Sempre afirmo que não se pode ser ético sozinho - é impossível. Da mesma maneira que Pedro precisou de Paulo para corrigi-lo, e os discípulos precisavam de Maria Madalena para mostrá-los o que realmente significava seguir Jesus, e Paulo, Barnabé, Timóteo, Marcos também precisavam uns dos outros, etc., da mesma forma nós precisamos uns dos outros para caminharmos na vida de discipulado. A Bíblia nos dá ferramentas e nos chama para participarmos de uma história transformadora, mas para seguir e participar desta história, temos que ir juntos, como igreja, como comunidade onde a verdade é sempre dita, onde aprendemos a servir o outro assim como Jesus serviu seus seguidores. Quando um irmão não está caminhando bem, ele precisa de outro irmão para ajudá-lo a retormar o curso. Sem tal apoio, acabamos nos isolando e reproduzindo todo um individualismo e narcisismo que são produtos de uma cultura totalmente pagã e contrária ao evangelho.

Muita gente acredita que adotar uma postura ética pode limitar suas oportunidades e capacidades de ser bem-sucedida na vida. 
Rosalee:
 Depende do que significa "bem-sucedido". Se por este termo entende-se prosperidade econômica, poder, etc. então é bem possível que seguir a vida de discipulado não seja o caminho para esta pessoa conseguir tais coisas. O poder que Jesus oferece não é o poder do mundo, mas é aquele que serve, que transforma através de seu serviço. Veja como os discípulos são severamente repreendidos por Jesus quando argumentam sobre quem é o maior entre eles. Não podemos espiritualizar tais textos só para nos sentirmos melhor sobre nossos bens ou nosso poder.  É claro que existem cristãos que são "bem-sucedidos" pelos parâmetros do mundo, mas isto não significa que devam ser menos servos, menos discípulos.  Às vezes o trabalho árduo e a disciplina levam ao sucesso, mas às vezes não. A questão é se este trabalho, seja ele qual for, está em linha com a vida e os ensinamentos de Jesus.

Quais os conselhos para pastores e líderes?
Rosalee: O principal conselho que tenho é que formem pequenos grupos. A vida do líder é uma vida solitária. Sem um grupo pequeno, no qual possa se falar francamente sobre seu ministério, sobre seu casamento, suas finanças, etc. é muito mais fácil o líder ser tentado e não ter as ferramentas ou as amizades necessárias para enfrentar a tentação. O diabo vai usar sua solidão então é necessário tratar dela antes que ele a use.O segundo conselho é que neste grupo também faça-se um estudo sério da Bíblia. Vivemos em dias que pensamos que a Palavra não vale tanto para a vida prática. Sabemos que as tentações virão - até Jesus foi tentado! E na hora do "vamos ver" como foi que nosso Senhor enfrentou tais dificuldades? Foi com a Palavra. Se Jesus precisava das Escrituras, imagine nós! Sem esta arma, não temos como enfrentar as crises e seguirmos como discípulos de Jesus.

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