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O Google e o canibalismo


Publicado em 12.11.2008

Imagino que o eventual leitor não está interessado em saber o que significa “pneumatologia”. Talvez tenha alguma dúvida sobre “teologia da prosperidade” ou, quem sabe, sobre algo mais prosaico como “batismo”. Não importa. Para perguntas sobre as três palavras entre aspas, o Google tem mais de 1 milhão de respostas. É o que levaria o autor de Eclesiastes a afirmar que “não há limites para fazer livros” (Ec 12.15). Livros digitais, diga-se de passagem.

Não tenho pretensões a “guardião da sã doutrina” e me refiro apenas à canibalização da mensagem bíblica. A emergência das novas mídias, em especial na internet, com os penduricalhos de praxe, parece mudar a relação do cristão-consumidor com as Escrituras. Das muitas versões da Bíblia aos vídeos bizarros, são inúmeros os atores na comunicação do conteúdo cristão. Doutores da lei disputam espaço com neófitos. Ambos podem criar, transformar, dar voz local ou espalhar até os confins da terra cada conteúdo — original ou não.

Desnecessário mencionar o ambiente plural, o supermercado de opções e os modernos vendilhões do templo. Embora nem sempre claramente identificáveis, todos a uma se acotovelam por cada “bit” das boas novas servidas nas gôndolas virtuais. Pastores e ovelhas se expõem como nunca antes e todos os dias “descobrimos” e “recomendamos” mensagens e artigos que não lemos e vídeos que não vimos, mas que fazem da vida cristã algo como “Religião para Colorir”. Tudo com a bênção e graças ao supremo canibal.

Não. Não quero sugerir censura. Não sou contra a internet. Ao contrário, que o texto e os valores bíblicos sejam distribuídos a mancheias. E, especialmente, que a Bíblia seja aberta à moda de Beréia (At 17.10). Ou, ainda, que nossa alma não seja “customizada” como se fosse uma ovelha que não tem pastor. Na verdade, melhor seria um movimento antropofágico bereano, um movimento que perscruta, que desconfia e que côa aquilo que o “Grande Filtro” nos impõe. A facilidade do “copiar e colar” transformou, num piscar de olhos, não-leitores em escribas, “velhinhas caducas” em eruditos e até lobos em cordeiros midiáticos. Nada de novo, a não ser a versão do seu “browser”.

Tenho minhas dúvidas de que os milhares de sites ou a fartura de “blogs” possam aumentar a edificação ou o conhecimento bíblico. Talvez aumentem a “coceira nos ouvidos” (2Tm 4.3) ou, no máximo, parafraseando C. S. Lewis, os mecanismos de busca nos ajudem a “mostrar alguma eficácia quando necessários a uma nota de rodapé”. É fácil perceber que estamos entregues ao narcisismo virtual e aperfeiçoando a oração do fariseu, que “ora de si para si mesmo” (Lc 18.11). A novidade é que, ao contrário do fariseu, que era visto por uns gatos pingados em praça pública, nossa praça é o mundo, e contamos ansiosos cada segundo de “visualização”.

Não ignoro as belas novidades do ciberespaço, as redes sociais, a construção colaborativa e as possibilidades de interação. No entanto, tais ferramentas não significam generosidade, inclusão social nem, menos ainda, misericórdia ou instrumentos de justiça. É verdade que nem sempre as relações pessoais — sem “interface”, sem uma tela ou uma máquina que faça a mediação da minha relação com o outro — são, de fato, pessoais. No entanto, embora pareça caduco falar em emissor e receptor, é preciso reafirmar o que ouvimos, o que nos contaram nossos pais, o que cremos. O canal de comunicação, as novas plataformas não são mais importantes do que a mensagem. “To search”, buscar, não é preciso. Discernir é preciso.

Este artigo é parte integrante da edição 313 da Revista Ultimato publicada pela Editora Ultimato. Para Reprodução Autorizada os interessados deverão entrar em contato direto com a editora.

URL: http://www.institutojetro.com/artigos/reflexao/o-google-e-o-canibalismo.html
Site: www.institutojetro.com
Título do artigo: O Google e o canibalismo
Autor: Marcos Bontempo

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