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O plano, a estratégia e os mitos


Publicado em 14.06.2006

O assunto deste texto, apesar de fazer parte da história das boas práticas em gestão há tempos, causa arrepios em muitos leitores e especialmente em líderes de igrejas. Para evitar que muitos desistissem da leitura ao se depararem com a expressão “planejamento estratégico” no título, a opção foi separar os componentes básicos em plano e estratégia. Com isso, espero que este artigo tenha mais chance de ser lido. Para completar o título, como esta prática é muitas vezes acompanhada de “idéias falsas, sem correspondente na realidade”, foi fácil associar a palavra mito.

Ainda que em evidência desde a década de 70, vemos organizações imaturas e resistentes ao planejamento estratégico. Para quê fazer planos se Deus está no controle de tudo? Este parece ser um mito bem consolidado dentro das organizações cristãs. Planejar chega a “lembrar pecado”. Afinal, Ele já não nos revelou a Missão? Outro mito sinaliza na direção do tempo. Para quê planejar as mesmas ações ano após ano? Vamos “fazejar” logo e parar de perder tempo com planejamento. Vamos colocar as “mãos na massa”, minha gente! Se a palavra reunião já dá arrepios, imagine então esta palavra associada a planejamento? Reunião de planejamento chega a causar problemas cardíacos! Isso sem falar em um outro enraizado mito que é o da dificuldade em ser executado. É muito complicado, é difícil, dizem alguns. Envolve gente demais, reuniões demais, dinâmicas demais, é complexo demais... não vale a pena.

No nosso bem conhecido texto bíblico onde Jesus aborda a construção da torre há um verbo para o qual chamo a sua atenção: assentar. Este verbo remete invariavelmente à idéia de parar, já que dificilmente alguém conseguiria se manter em movimento estando assentado. Uma vez com o físico devidamente em repouso, isto parece liberar a mente para outras atividades. Quais? Pensar, conjecturar, analisar, considerar, avaliar, ponderar, determinar, decidir, resolver.

Os verbos acima abrem espaço para o primeiro componente do nosso assunto: plano. O plano é o resultado do ato de planejar ou do planejamento. Planejar é pensar o futuro praticando estes verbos. Quando a organização realiza seu planejamento, ela está olhando para o amanhã e antecipando decisões a respeito das ações que serão executadas ao longo do tempo. Quando planejamos, produzimos e organizamos nossas idéias, relacionando-as aos objetivos que queremos alcançar. Vale observar que a atividade de planejar faz parte do nosso dia-a-dia: quando saímos de viagem, quando organizamos um evento, quando escrevemos uma meditação bíblica, quando promovemos uma conferência missionária.

Planejar é inerente à nossa existência, seja ela uma prática mais recorrente ou não. Para resumir em uma frase: planejar é o processo intelectual onde um grupo determina, de forma consciente, as ações futuras que serão executadas a partir de objetivos pré-estabelecidos.

Foquemos agora no segundo componente: estratégia. Aqui temos a ajuda do Aurélio que a define como “arte militar de escolher onde, quando e com que travar um combate ou uma batalha”. A relação desta palavra com “arte militar” se dá pela sua origem: do grego temos strategia que quer dizer “comando do exército” e também strategos que quer dizer “a arte do general”.

Entende-se estratégia como um conjunto de orientações e diretrizes de como atingir os objetivos definidos pela liderança. A estratégia tem como base as ações escolhidas a partir de várias opções. Por conta destas escolhas, a organização determina o que vai ser feito e o que não vai ser feito, o que se quer e o que não se quer.

Juntando os dois compenentes temos o assunto de nosso artigo. Planejamento estratégico é o processo que mobiliza a organização para escolher e construir seu futuro. Ele fornece o rumo, a direção para onde a igreja está coordenando todos os seus esforços, e estabelece como ela chegará lá.É o processo através do qual a organização se mobiliza para conceber o seu amanhã, por meio de um comportamento pró-ativo, considerando seu ambiente atual e futuro e escolhendo de que maneira atingirá seus objetivos.

Não há como negar, trata-se de um processo visionário e é impossível desassociá-lo da visão estabelecida pela organização. Aqui poderíamos até propor uma nova definição: planejamento estratégico é o mapa para alcançar a visão da igreja ou ministério. Que tal? Faz sentido? Alcançar a visão que Deus tem nos dado fornece motivação suficiente para deixarmos os mitos para trás e colocarmos o planejamento estratégico como atividade mandatória de nosso ministério?

É fundamental entendermos que planejamento estratégico não é um projeto, um evento único.Ele é um processo. Ao contrário de um projeto, que é um esforço temporário (com início, meio e fim) que tem por finalidade alcançar um objetivo específico, um processo é um esforço contínuo e repetitivo. Os processos são uma forma de trabalhar as rotinas de uma organização onde muitas de suas atividades se repetem, sem previsão de término. O ambiente dinâmico e de permanente mudança no qual estamos inseridos sinaliza para um processo de planejamento contínuo, ou seja, algo a ser refeito periodicamente e indefinidamente enquanto a organização existir.

Fazendo um parêntesis, é importante lembrar que o dia-a-dia de uma organização pode ser dividido entre gerir projetos e processos e que na igreja também é assim. Temos projetos como eventos evangelísticos, acampamentos, assembléias, eventos de celebração e temos processos como o culto dominical, os diversos atendimentos prestados pela secretaria da igreja, a assistência social mensal, o boletim semanal. Os processos mantêm o desempenho da igreja, ou seja, fazem a “roda girar”. Se quisermos que o planejamento estratégico de nossa igreja seja efetivo temos que encará-lo como algo a ser feito e refeito, feito e refeito, permanentemente, continuamente.

Alvin Toffler, hoje com 70 anos e conhecido pelos best-sellers A Terceira Onda e O Choque do Futuro, declarou em seu livro Powershift – As Mudanças do Poder que “Apesar de tudo, à medida que avançamos para a terra desconhecida do amanhã, é melhor ter um mapa geral e incompleto, sujeito a revisões, do que não ter mapa nenhum”. Como já dito, o planejamento estratégico não deve ser encarado como algo decisivo e intocável, pois se trata na verdade de uma formatação inicial a respeito do que precisará ser realizado. Ele deve e sempre estará sujeito às interferências e adaptações. Planejamento estratégico é uma trilha e não um trilho. Quando andamos em trilhos não temos margem de manobra, mas, quando entendemos que estamos em uma trilha, aí sim, há liberdade para ajustes.

Falando em trilha, a decisão de investir em planejamento estratégico parece nos remeter a uma bifurcação na trilha da gestão de nossas igrejas e ministérios. Para a esquerda a opção do “caminho reativo”: andar por aqui significa combater e apagar incêndios, reagir depois da crise já estabelecida, riscos desconhecidos e emoções escondidas. Para a direita temos o “caminho pró-ativo”: aqui há que se pensar em formas do incêndio não acontecer, planejar medidas preventivas e ter um plano de ação antecipado. O fim do “caminho reativo” é desconhecido e podemos, no máximo, tentar adivinhá-lo. Já a linha de chegada do “caminho pró-ativo” é previsível e, ainda que não 100%, temos alguma segurança no que encontraremos ao chegarmos no destino.

As reflexões nos levam à conclusão de que não ter um planejamento estratégico significa não conhecer o destino e, na verdade,nem a origem. Imagine a seguinte situação: durante o planejamento estratégico de uma igreja ficou estabelecido que um dos objetivos é aumentar o número de freqüentadores de um determinado culto em 50%. Muito bem, este é o alvo, a meta, o destino. Para chegarmos lá precisamos traçar as estratégias necessárias, ou seja, as ações programadas para tal fim. Estas estratégias são necessariamente traçadas a partir de uma compreensão da situação atual, ou seja, qual o número atual médio de freqüentadores neste culto.

Ampliando a visão do planejamento estratégico para a relação futuro x presente, fica muito claro que este processo não somente nos ajuda a pensar e construir o futuro mas também, e fundamentalmente, a entender onde estamos. Sem um planejamento estratégico constante não conhecemos nem o destino e nem a origem. Pegando um gancho na citação de Toffler, estamos navegando sem mapa algum! Como líderes, podemos abrir mão do planejamento estratégico de nossas igrejas e ministérios? Há algum mito ainda vivo dentro de você?

Reprodução Autorizada desde que mantida a integridade dos textos, mencionado o autor e o site www.institutojetro.com e comunicada sua utilização através do e-mail artigos@institutojetro.com

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Título do artigo: O plano, a estratégia e os mitos
Autor: Adriana Pasello

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