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Reflexão

Um ministério na direção e na perspectiva de Deus

Reflexão ministrada na I Conferência Cristã de Gestão Ministerial, promovida pelo Instituto Jetro.

Josué 3: 1-7

Todos necessitamos que nosso ministério seja de alguma maneira reciclado, aprimorado para que possamos servir melhor o Reino. Aqueles que chegaram à conclusão de que aprenderam tudo e que não necessitam de algo a mais, esses estão correndo riscos. Temos visto vários destes no ministério da Igreja evangélica brasileira, colocando-se às vezes numa posição fora da realidade. Eles não conseguem ainda estar abertos para ouvirem o que Deus pode acrescentar em suas vidas.

Sabemos que nossa vida é uma mescla de situações de vitória, de alegria, mas também de algumas experiências extremamente decepcionantes. E nem por isso Deus deixa de estar no controle de cada uma delas.

Deus faz com que nós passemos por um processo de depuração, de lapidação durante a nossa vida. É aí que parece que reside o "x" da questão. Alguns conseguem, pela graça de Deus, compreender este processo e avançarem. Outros, parece que estacionam e não conseguem implementar novos projetos mesmo diante de situações adversas.

Não é fácil buscarmos a excelência em nossos ministérios e mantermos o coração aberto para Deus. Não é fácil manter este equilíbrio, ou seja, buscar o aprimoramento do nosso trabalho, através do uso de ferramentas do Reino de Deus, e ao mesmo tempo ter um coração humilde e sincero para deixar Deus falar...

Não são muitas as pessoas, líderes, pastores, pastoras, que conseguem estabelecer este equilíbrio. Trabalhamos na SEPAL com pastores e às vezes percebemos que alguns buscam o aprimoramento que gera a profissionalização, mas isso não basta. Por outro lado, alguns desenvolvem uma espiritualidade que os afastam da busca da excelência e os resultados têm sido trágicos.

Algumas frases que tenho ouvido da boca de pastores e líderes nos últimos anos:

"Cheguei ao meu limite e não agüento mais";

"Já paguei um preço muito alto pelo ministério e eu estou a ponto de desistir";

"Não sou reconhecido por tudo o que eu tenho feito";

"Minha família não merece o que tem passado simplesmente porque eu sou pastor";

"O tempo que a igreja me toma tem desestruturado a minha família";

"Eu vejo raramente os meus filhos";

"A estrutura eclesiástica que eu sirvo só busca resultados, e eu sou apenas uma peça dessa máquina";

"Não consigo sobreviver com aquilo que eu tenho recebido";

"Estou cansado da igreja".

Recentemente tive acesso a uma pesquisa, feita em um outro país, que apresentou a seguinte conclusão: 90% dos pastores e líderes que estão envolvidos em igreja trabalham mais de 46 horas por semana. Alguns chegam a 60. 80% afirmam que o ministério pastoral que desenvolvem afeta negativamente as suas famílias. 33% disseram que o ministério pastoral é um risco total para as suas próprias famílias. 75% relataram que já passaram, em algum momento, por um período de stress ou depressão. 70% afirmam não ter alguém que considere um amigo chegado.

Interessante também é que esta mesma pesquisa dizia que uma igreja que dispensa o seu pastor tem 70% de possibilidade de acontecer o mesmo com o futuro pastor. E a média de vida útil de um pastor que serve em período integral caiu de 20 anos, na década de 80, para 14 na última década.

Creio que a história dos israelitas em direção à terra prometida exemplifica isso muito bem, porque são 40 anos no deserto tentando vislumbrar alguma coisa e vencendo obstáculos. Eu gostaria de ajudá-lo a relembrar alguns princípios que fazem com que nosso ministério caminhe na direção e na perspectiva de Deus, mesmo que às vezes passando por algumas intempéries.

Não podemos deixar de colocar os nossos olhos em Deus

Isso está bem claro em Josué 3:1-4. Após a espera de 40 anos, o povo chega perto de entrar na terra, e aí Deus diz: "Vocês terão que acampar aqui e esperar mais três dias". Isso me faz pensar em algumas questões... Josué deveria ter em torno de 80 anos de vida, com certeza com uma expectativa enorme de ver algo acontecer e a promessa, feita a Abraão há praticamente 500 anos, ser cumprida. Moisés conseguira chegar até o limite do Jordão e então Josué recebe a ordem de Deus de esperar mais três dias. Isso faz com que eu possa imaginar que às vezes nos tornamos impacientes e não conseguimos completar um ministério.

Parece que algumas vezes Deus nos chama como "ministros de uma nova aliança" e no original a palavra ministro se refere a diáconos, servos, garçons. A perspectiva de olharmos para Jesus só acontece quando estamos desta maneira: como servos. É impossível permanecermos com os olhos fitos em Cristo se não estamos na posição de ministros, num sentido diferente do que na verdade conhecemos. Mas a realidade é servir.

Dias atrás eu estava ouvindo um concerto de umaorquestra sinfônica da cidade, e foi interessante que um pouco antes de começar o concerto, o maestro estava tratando de arrumar o som nos bastidores e chamou os músicos do primeiro violino, dizendo: toquem. Então eles tocaram um pedacinho da peça. Depois, ele chegou ao grupo que tocava o segundo violino e disse: "chegou a vez de vocês agora". E eles tocaram com a mesma alegria, procurando equilibrar o som para que depois pudéssemos ouvir uma linda sinfonia.

Nós corremos dias perigosos em nosso país, no meio da Igreja, porque apreciamos tocar sempre o primeiro violino. E Deus chama alguns de nós para tocar o segundo violino. E Deus chama alguns de nós para esperar por mais três dias.

Estou convicto de que isso só acontece quando estamos com os olhos no Senhor e as coisas que estão a nossa volta não nos pressionam de tal maneira que desvencilhamos algumas coisas de nossa vida e de nosso ministério. Devemos estar com os olhos fitos em Deus, pois quando Ele se move nós devemos nos mover com Ele, e quando Ele para, nós devemos parar com ele.

Os manuais de administração e os livros que têm sido escritos sobre empresas e homens bem sucedidos, falam muito sobre a pró-atividade, pessoas que sabem tomar decisões acertadas. Dentro do regime espartano que vivemos, as pessoas que não tomam decisões ficam, às vezes, à margem. Mas aqui, dentro da espiritualidade, o que a prática bíblica parece querer nos ensinar não é questão de tomar decisões rápido ou deixar de tomar, mas tomá-las no momento em que estamos olhando para o Senhor. E então estaremos dentro de Sua própria vontade.

Precisamos preparar o nosso coração

Em Josué 3:5, vemos a expressão "santifiquem-se, pois amanhã o Senhor fará maravilhas no meio de vocês". A expressão "kadoshi", que bem conhecemos, significa ser colocado à parte, ser usado de uma maneira especial por Deus.

Este também é um ponto crítico, porque às vezes invertemos a situação e apreciamos dizer "Deus fará maravilhas no meio de nós". Deus fará, e não tenho nenhuma dúvida quanto a isso, mas não é esse o processo que Deus está usando. Deus fará maravilhas, mas há também a expressão "santificam-se".

A neurolingüística tem dominado muito de nossa teologia contemporânea. E nós estamos apreciando usar certas frases que fazem com que acreditemos muitas vezes que Deus está fazendo, mas às vezes essas expressões nos eximem de buscar uma conduta santa e irrepreensível diante de Deus para que então ele possa abrir as janelas do céu sobre nossas vidas e ministérios. Por isso, para mim, desenvolver um ministério sob a perspectiva de Deus é não só deixar os nossos olhos fitos nele, mas preparar nosso coração. É deixar com que esse coração se esvazie e se abra para que ele possa ser trabalhado por Deus.

Na década passada, a Editora Vida lançou um pequeno livro chamado "A crise da integridade", onde o autor dizia algo interessante. Durante 19 séculos, a Igreja disse ao mundo para que ele se arrependa, mas atualmente é o mundo quem diz para a Igreja: arrependa-se. Uma das passagens bíblicas que expressa isso com mais clareza é o Salmo 15, em que uma das perguntas chaves que o salmista faz é essa: "quem tem o privilégio de adentrar na presença de Deus?". Quem é essa pessoa que pode de alguma maneira se debruçar perante a face de Deus, beber de Suas palavras, ouvir o que está no Seu coração? Quem é essa pessoa que Deus busca? E a Palavra diz: "aquele que é íntegro em sua conduta, pratica o que é justo, que de coração fala a verdade e não usa a língua para difamar".

Três áreas interessante que o salmista aborda. A questão da integridade, que é uma área muito mais interior; a questão da justiça, que às vezes deixamos de lado em nossa teologia e que é algo exterior, ou seja, que demanda ações contra a opressão, contra toda situação maligna que vem sobre nós (e nosso evangelho dilacerado não vê esses detalhes); e, por fim, a questão da verdade que tem a ver com os nossos pensamentos e com aquilo com que nós nos expressamos. A integridade tem a ver com a nossa maneira de falar (não usa a língua para difamar), tem a ver com a vida financeira (não empresta visando lucro), tem a ver com a palavra dita, ou seja, mesmo que você saia perdendo, conserve a palavra, não abra mão.

Estamos buscando pessoas assim nos nossos dias. Pessoas que não abram mão da visão que Deus tem dado, que mesmo que saiam perdendo aparentemente diante dos olhos do mundo e diante até mesmo de líderes e até de outras pessoas, elas se conservam retas e dignas diante do Senhor.

Olhe para o Senhor, prepare o seu coração e, então, Deus fará maravilhas em sua vida.

Precisamos estar abertos a escutar as instruções de Deus

Permita-me dizer que algumas instruções que Deus dá, a princípio, parecem extremamente ridículas. Uma delas está em Josué 3:8: "carreguem a arca, e quando chegarem às margens das águas do Jordão, parem junto ao rio". Isso aparentemente não faz sentido. Mas a primeira instrução que vinha da parte do Senhor era essa.

Deus não estava falando com o povo em geral. Ele estava falando para sacerdotes, para líderes. Líder muitas vezes não gosta de ser avaliado. Ouvi da boa de um pastor há um tempo: "Você acredita que a igreja que estou pastoreando quer me avaliar? Eu sou pastor! Isso não tem sentindo nenhum!" E eu disse a ele: "Meu irmão, se eles avaliarem você, isso é uma grande bênção para a sua vida".

Tive uma experiência na indústria automobilística onde eu trabalhava. A cada 6 meses, meu chefe me chamava e me mostrava onde eu estava bom e os aspectos que não estavam bem em meu trabalho e que eu poderia melhorar. Então, 6 meses depois eu voltava e eu queria que minha avaliação avançasse e pudesse ser melhor.

A orientação que Deus nos dá, como aqueles que vão pastorear o Seu rebanho, muitas vezes é assim: avancem, parem, movam-se para cá ou para lá. E nós, geralmente movidos por um pragmatismo inconseqüente, cercamo-nos de modelos, de livros, de respostas prontas, do que funcionou em outros lugares e abraçamos isso rapidamente. Eu não tenho nada contra isso. Somente digo o seguinte: antes de tudo, ouça a instrução de Deus. É a ordem de Deus para o povo: "caminhe, mas pare".

E a segunda instrução vinha ainda mais clara: "quando os sacerdotes colocarem os pés no rio Jordão, acontecerá algo extraordinário". As águas seriam represadas e se tornariam como que duas muralhas para o povo passar.

Ouvir as instruções de Deus nesse contexto era parar e em seguida colocar os pés nas águas. O que significa isso? Primeiro, demonstrar que conhecemos o Deus que servimos. É impossível colocar os pés nas águas sem essa convicção. Isso nos leva a não duvidarmos das promessas de Deus, crer que os desafios se tornarão realidade.

Mesmo vendo a história de Israel (Js 3:14-17), ainda assim às vezes não cremos que Deus pode fazer algo maravilhoso em nossas vidas. Até onde podemos afirmar se estamos dispostos, categoricamente, a ouvir as instruções de Deus?

Somente com os olhos voltados para o Senhor, com o coração aberto para ser preparado por Ele, e com os ouvidos atentos e obedientes às Suas instruções, seremos capazes de exercer e concluir um ministério excelente e totalmente de acordo com a perspectiva de Deus.

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