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Reflexão

Fanáticos


O que significa ser um fanático? Bem, o certo é que não parece significar uma coisa muito boa, principalmente nestes dias de atentados e homens-bomba. Fanático, segundo consta em dicionário, é o que segue ou defende apaixonadamente uma seita ou opinião, quer seja filosófica, religiosa ou política. O conceito atual de fanático sofreu uma influência decisiva de criminosos que, usando a religião como desculpa, cometem toda sorte de atrocidades contra sociedade e pessoa humanas; indesculpáveis sob qualquer ótica e que escapam e ferem a qualquer lógica. Mas não é deste tipo de "fanático" que quero pensar com você.

Quero pensar em alguns fanáticos famosos, por exemplo: Martinho Lutero acreditava com todas as suas forças que a justificação do ser humano perante Deus é unicamente pela Graça divina e que independia de todas as indulgências e perdões papais e que a Palavra de Deus deveria ser traduzida para o idioma do povo, não somente em latim, que era o idioma do clero dominante. Por esta sua crença foi excomungado por Roma e viveu sob iminente risco de morte pelos tribunais romanos.

O que não dizer de Cristóvão Colombo que acreditava ser possível chegar até as Índias navegando para o oeste, pois cria na circunferência da Terra, foi chamado de louco, desacreditado e desonrado, por fim já no mar até seus próprios marinheiros queriam a sua morte. E o que dizer do líder negro sul-africano Nelson Mandela, que lutou contra o regime racista do Apartheid em seu país, e que foi preso incomunicável até mesmo para sua família por mais de dez anos, simplesmente porque defendia que todos seres humanos são iguais e que nenhuma minoria ou maioria tem o direito de oprimir quem quer que seja? E é claro, não podemos esquecer o maior de todos os fanáticos, O Senhor Jesus Cristo, que a despeito de todas as tradições religiosas de sua época declarava que sua comida era fazer a vontade do Pai e levou a sua declaração até às últimas conseqüências, mesmo sendo rejeitado pelo seu próprio povo (até mesmo seus irmãos o rejeitaram!), combatido e declarado herege pelos religiosos, traído por um de seus mais próximos seguidores, abandonado por todos e condenado à morte pelas autoridades num julgamento ilegal, mas apesar de tudo dividiu a história humana em antes e depois Dele.

É desta qualidade de fanáticos que precisamos hoje em dia, pessoas que a despeito de tudo e de todos transformam a história da humanidade em determinado período em antes e depois deles. Invariavelmente, fanáticos deste porte tendem a ser solitários num primeiro momento, mas após sua passagem no cenário da vida, tem suas idéias "fanáticas" compreendidas e exaltadas. Não é de se admirar que pessoas fanáticas assim sejam raras hoje em dia.  Vivemos num mundo sofisticado, um mundo de várias opções, onde o conflito é evitado, um mundo do "cada um na sua". Onde lutar por um ideal (ou seria verdade?) e não se render (ou seria não se conformar?) a imposição da maioria soa retrógrado, medieval, apenas uma radicalização irracional.

Lembro-me de uma época em que os crentes eram taxados de fanáticos nas ruas, vistos como museus ambulantes, retrógrados, descontextualizados. Não éramos muitos como somos hoje em dia, mas a nossa presença era notadamente um incômodo para a sociedade pecadora e até para algumas instituições. Noto hoje que, infelizmente, em nosso grande esforço de contextualização, acabamos nos tornando modernos e sofisticados, já não somos mais chamados de fanáticos e "povinho" por aí afora. Crescemos em número (e é opor ele que somos notados nos sensos da vida), mas penso que deixamos de lado a marca característica de um bom fanático: já não incomodamos mais! Políticos corruptos, policiais violentos, chefes desonestos e faladores da vida alheia já não temem a nossa presença em seu meio. Somos aceitos pela sociedade como um "movimento" a ser respeitado, mais um. Apenas um instrumento (ou ferramenta) para socializar o ser humano.

Por mais incrível que possa parecer, por mais projeção que tenhamos alcançado no cenário de nosso país, nunca os crentes se tornaram tão tímidos do que hoje. É até possível vê-los em grandes concentrações, onde milhares comparecem a marchas e "louvas" da vida gospel, mas é cada vez mais difícil ver visitadores de enfermos, distribuidores de folhetos e evangelistas pessoais. Temos medo de nos expor, de parecer fanáticos... Relíquias de outrora, de um mundo atrasado, que não funciona mais... sem unção.

Lembro que eu mesmo era chamado de fanático e pastorzinho; bons tempos aqueles! Penso no que aconteceu comigo de como me civilizaram, talvez fosse melhor dizer: domaram! Acho que, como a maioria, pensei ter vencido ou que no campo de batalha cristã não precisam mais de mim, afinal "a nova geração se levanta", é o que dizem. Mas verdadeiros fanáticos nunca desistem ou se entregam, nem esperam recolher os louros de sua vitória nesta vida, é como diz uma bela canção:

"Nosso descanso é eterno, mas esta vida aqui não!
A nossa guerra é agora, neste mundo de tanta ilusão.
Eles precisam ouvir e ver a verdade em nós triunfar.
Fé na terra, mão no arado, pois a noite já está pra chegar!"

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