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Finanças e Contabilidade

Como são os novos doadores de recursos


A doação e a cidadania

Dizem que os Estados Unidos se tornaram a primeira grande nação que se define não em termos de origem étnica, mas em termos de conformação a regras comuns de cidadania. A igreja por sua vez desempenhou um papel importantíssimo neste cenário, ampliando seu ensino para além dos templos, criando escolas para treinar seus líderes, escolas que se multiplicaram e aprofundaram o senso de sabedoria aplicada e de cidadania.

Num momento posterior, a mesma igreja deu o pontapé inicial na revolução da leitura, criando editoras, casas publicadoras e disseminando livros, literatura e um incontido crescente de estímulo ao imaginário das diversas gerações. Escritores nasceram neste solo, leitores se multiplicaram e há livro pra tudo pra todos. Isto também se define como construção de cidadania.

Neste berço desta história nasceu a cultura da doação americana, que permanece, para muito além das fronteiras da igreja, hoje caracterizada por quantidades econômicas de efetiva importância para o mercado financeiro e o desenvolvimento. Ouvi um consultor dizer que 20% dos americanos são doadores universais. Com clara certeza essa cultura da doação captou na prática o ensino de que “melhor coisa é dar do que receber”. Os sonhos e aspirações individuais parecem ter se apegado à construção das comunidades, vilas, cidades e da própria sociedade conformada às regras comuns. A igreja foi a grande empreendedora.

A descrição sumária da história deste ambiente acima, que pretende ser o fundamento de uma cultura de doação e doadores, nos dá uma idéia da importância da igreja. Claro que seu papel como uma nova sociedade tão bem descrita na carta que Paulo escreveu aos Efésios, é fundamental, mais há algo de romântico nisto tudo. Estou usando o termo romântico, porque na prática, o gesto doador-tomador-doador tem sofrido profundas mudanças. Doar, receber e doar passou a ser um grande negócio e a troca de papéis tem mudando, em muitos sentidos, o universo da captação de recursos. Mudou dentro da igreja e tem se aperfeiçoado lá fora.

A grandeza do gesto de doar

Em momentos distintos no VT a expressão doadora do povo de Deus foi tão grande, que seus lideres pediram para parar de doar – veja Êxodos 36,5-7; II Crônicas 29,2-9;14-17. Parece que a grandeza do gesto teve que ser contida porque maior era o propósito e a disponibilidade do que a necessidade. A construção de mecanismos geradores de benefícios comunitários, nos casos acima, quebrou a inércia dos não doadores. Observa-se que naquelas experiências os promotores da mudança, os que se envolveram na construção dos ativos comunitários, abriram portas para a inclusão dos mantenedores da inércia social. A falta de vontade de mudar, mesmo sendo maior, perdeu para a grandeza de uma nova ordem de crescimento, o crescimento da doação generosa.

A sociedade americana é visivelmente educada para doar. Recentemente assisti um seminário sobre relação de “accountabiliy” com os doadores. Esta palavra entre aspas se traduz como responsabilidade, ou prestação de contas, mas na prática seu conteúdo cultural é muito maior. Neste seminário ouvi a história de um orfanato que pegou fogo. Perda total sem danos para sua clientela, graças a Deus. Uma semana depois do incêndio, os valores doados pela comunidade para reparar o prejuízo, foi suficiente para construir dois novos orfanatos e implementar a qualidade de sua estrutura e serviços. O palestrante concluiu esse caso fazendo uma crítica à mídia da captação, dizendo que muitas instituições estão queimando orfanatos todas as semanas para implementarem sua capacidade recebedora. Esta é uma amostra da história recente da doação para a comunidade, por cristãos confessos ou voluntários generosos.

A perda de ativos doados

A igreja cristã, que plantou a semente e cultivou raízes profundas no solo do ensino da doação, vive um outro momento, o da profissionalização do papel recebedor da doação. Não se deve considerar a profissionalização de processos de trabalho e de gestão como algo errado, ou incorreto. Mas há que se cuidar e muito com os valores econômicos e financeiros da gestão de dar e receber, de receber e prestar contas, de fomentar a captação e criar riquezas isoladas. Há também que se pensar no gerenciamento dos valores não mensuráveis, nos ativos sociais da relação com doadores e beneficiários. Receber e administrar como fruto do ensino equilibrado, tem perdido espaço para a retórica do pede-pede desmedido e ousado.

O estilo competitivo e incontrolável do jeito econômico de gerar ganhos entrou sutilmente na “ética protestante e evangélica” e parece que essa é uma escolha irrefletida para os padrões bíblicos. Um dos resultados é a perda da confiança que o doador desenvolve para com o recebedor e gerenciador da doação. Um outro resultado é a desconfiança gerada pela prática de colocar “dinheiro bom” em “projeto ruim” ou no vazio das necessidades criadas. Finalmente, aquelas mesmas mãos que receberam, retornam para pedir mais, porque se quer aprenderam lições pequenas de adequação e sustentabiliade. Os doadores também dizem não.

Nova geração de doadores

Uma nova geração de doadores, herdeira do patrimônio de pais e avós está emergindo como um destino demográfico, uma tendência fundamental que influenciará o velho gesto de doar. Poderíamos chamá-los de doadores comedidos? Sim, pois eles falam a linguagem das medidas, dos limites, dos controles, dos sistemas de gerenciamento para projetos. Eles também se profissionalizam e não querem errar. Eles não brincam com dinheiro, e espera-se que não amem o dinheiro, sob o risco do dinheiro plantar raízes difíceis de cortar.

O potencial de recursos disponíveis nas igrejas e fora delas passa pelas mãos do Senhor da seara, a quem tudo pertence. Esse é um dos alcances ignorado da soberania de Cristo. Esse também tem sido um novo ensino nos seminários de captação. A soberania de Deus sobre os recursos começa a educar captadores e doadores a vencer o estímulo da doação baseada simplesmente na necessidade. Doar e receber, captar e investir, prestar contar e manter relações de mutualidade vai forçar a redução da captação baseada na pobreza ou religiosidade carente.

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