Indígenas vestem 'luva de formigas' em ritual
Publicado em 17.08.2010
Entre os indígenas sateré-mawé, que vivem entre o Amazonas e o Pará, um ritual religioso marca a vida dos meninos e representa a passagem da infância para a vida adulta. O ritual consiste em vestir uma luva cheia de formigas tucandeiras e resistir por ao menos 15 minutos.
O ritual faz parte da história dos indígenas. Segundo sua história, cada sateré pertence a um clã. Pode ser o do guaraná, fruta da qual os sateré-mawé se orgulham de terem cultivado de forma pioneira, ou os clãs do açaí, da lagarta-de-fogo e do tatu.
"O tatu é dono da tucandeira desde o começo do mundo", diz o índio satere Donato Lopes da Paz. Ele mora em uma aldeia que fica a algumas horas de viagem a partir de Parintins, no Amazonas, onde toma-se um barco até o Rio Andirá. O trajeto segue pelo mesmo rio até a terra dos sateré-mawé.
Na festa de celebração da formiga tucandeira em uma das 30 tribos da região, tudo está preparado para o ritual com os meninos. As formigas são colocadas em um pau oco de bambu. Para não deixar os insetos escaparem, os indígenas usam folhas de caju-branco nas bordas. Depois, elas são posicionadas uma a uma em luvas de palhas de caranã - a cabeça fica do lado de fora e o ferrão, do lado de dentro. Antes de a luva ser colocada nas mãos do indígena, as tucandeiras ainda recebem uma baforada de tabaco, que aumenta sua revolta.
O primeiro a passar pelo ritual foi Adinaldo, de 16 anos. Sem mexer as mãos, ele teve de aguentar as ferroadas por ao menos 15 minutos, enquanto sua tribo cantava e dançava ao seu lado, em uma tentativa de aliviar a dor.
A cerimônia é considerada pelos indígenas como um ato de bravura e simboliza uma proteção para o corpo. Os sateré-mawé acreditam que a ferroada da formiga tucandeira funciona como uma espécie de vacina.
"Se a pessoa estiver com febre e meter a mão na tucandeira, passa na hora", garante o dono da festa, Lúcio Ferreira Dias. Para completar o ritual, o garoto tem de se deixar ferroar 20 vezes em 20 dias diferentes.
Se não completar as 20 vezes? "A tucandeira persegue ele. Os velhos dizem que é a tucandeira é mulher. Ela aparece no sonho dele como uma mulher bonita e fica comendo comida que não é mais daqui da terra e que adoece a pessoa", diz Lúcio.
Benedito Ferreira da Rocha Filho, de 23 anos, fez o ritual pela última vez. "Se eu não terminasse, ia morrer, ficar barrigudo, doente, porque ela ‘emprenha' e começa a nascer tucandeira dentro da gente", diz.
Fonte: Globo.com, 16/08/2010
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