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A função vital do silêncio no labor pastoral


Publicado em 17.05.2006

Li um texto muito interessante, de um professor de microbiologia zootécnica da USP1,que enfatiza o silêncio intelectual como condição vital para fazer ciência, e que me inspirou. Este pesquisador destaca como o silêncio tem sido a base de grandes conquistas científicas ao longo de séculos, e cita nomes de cientistas que detestavam a vida mundana e a agitação, preferindo a solidão de seus laboratórios.

É de fato, um pouco estranho falar sobre o silêncio no mundo de hoje, tão saturado de sons e palavras. Muitos já acordam ao som de um despertador ou rádio-relógio, ao tomar café ficam sabendo pela televisão das notícias recentes, ou lêem no jornal as últimas calamidades. Poucos resistem a ligar o rádio ou CD do carro, até por que, se for possível manter as janelas fechadas, para não ouvir a buzinas, motores e barulho da cidade, melhor. Somos uma sociedade que consome informação de toda espécie, auditivas e visuais. “Out doors” expõem corpos perfeitos, retocados no computador, além de pizzas, carros e eletrodomésticos cada vez mais caros e descartáveis, gerando sonhos de consumo e ondas de descontentamento para quem está fora do jogo.

Resistimos ao silêncio, o celular veio para ficar! Já não reclamamos do volume das músicas e da TV e aos poucos, vamos elevando o tom da voz, dentro de casa. Algumas igrejas, outrora refúgios de paz e silêncio, retiram seus bancos para fazer seu “louvor aeróbico”, com um “som” numa altura que interfere no batimento cardíaco... sou mãe de adolescentes e sei o que estou falando! Mas, por favor, não me interpretem mal! Gosto de música, artes, de uma boa conversa com os amigos e amigas. Gosto de ler Adélia Prado e Fernando Pessoa, por que afinal, navegar é preciso... embora cada vez mais na Internet. Ver documentários, musicais, um filme “cult” no DVD, ok, a tecnologia está aí para isso mesmo.

Pessoas quietas, num canto, nos causam espanto e incômodo por serem diferentes, “partilhar e compartilhar” virou moda, como se nossos sentimentos e emoções devessem ser expostos, dissecados e observados por todos. Intimidades da realeza ou de miseráveis são discutidas em público, e programas de TV invasivos (tipo big brother) são o supra sumo da privacidade vendida e concedida em troca de algum dinheiro e quinze minutos de fama.

Mas, e o silêncio, o que tem a ver com isso? Neurologistas advertem que os níveis elevados de estresse impedem os neurônios de se recuperarem, o que significa dizer que pessoas estressadas têm perda de memória e dificuldade de concentração, entre muitos outros males. O Dr. Carlos Hernandez, psiquiatra argentino que foi por muitos anos diretor do Hospital Psiquiátrico de Possadas, declara que precisamos “purgar os sentidos” que são continuamente estimulados. Diz ele: “existe uma poluição de estímulos que causam danos ao poder discriminativo das terminações nervosas, uma gama de ‘exposição tóxica que cauteriza’ os órgãos sensoriais”2. Segundo este autor, certas condutas, como jejum, oração do amanhecer, silêncio, solidão, quietude, escuta da natureza e consciência dos ritmos e posturas corporais criam possibilidades de reorganização neurológica ou seja, disciplinas de espiritualidade podem colaborar para a saúde mental!

Entendo que é difícil para pessoas que tem a escuta como atribuição maior em seu labor, calar frente a tantos estímulos. Até que ponto podemos suportar o silêncio como benção e não como ameaça? Quando a pessoa à nossa frente se cala em tranqüila reflexão, é um momento sagrado: nada deve perturbá-lo. Ao psicólogo(a), ou ao pastor(a)3 é dado o privilégio de estar presente: em quietude e sem agitação. Quero, entretanto, distinguir o “silêncio-benção” do silêncio repressivo ou rancoroso, não é disto que estamos falando hoje.

O “silêncio-benção” tem ligação com o aquietar-se. Crescemos escutando comando como “não fique aí parado, mexa-se, faça alguma coisa”. No entanto, a produção científica ou espiritual acontece no tempo do ócio 4, e do silêncio ou seja, muitas descobertas e insights aconteceram e acontecem durante uma caminhada, um descanso embaixo de uma árvore, até vendo uma fruta cair. É preciso salientar também, que ócio não é lazer. Ter um lazer é muito bom, mas é diferente, pois o objetivo do lazer é distrair. Além disto, muito do lazer, hoje em dia, assemelha-se ao nosso trabalho: consumimos emoções que produzem adrenalina! Vivemos num mundo onde “tempo é dinheiro” e sugerir “parar para pensar” não soa bem. Não é raro encontrarmos pessoas não conseguiram relaxar nas férias ou que detestam o domingo, por não terem o que fazer! Já para os cristãos em geral, o domingo pouco lembra um dia de descanso: corre-se de um programa para o outro, intercalando eventos... Todos sabemos que estas atividades visam o crescimento da Igreja e não é meu objetivo polemizar mas propor o descanso, o “Shabatt”, como algo sagrado, possível de se vivenciar. Ou seja, se o seu Shabatt, não é viável no domingo, faça noutro dia qualquer, mas faça! Enfim, separar tempo para o descanso, o silêncio, lectio divina e oração, mais que sugestão, é um preceito divino 5.

Além disto, os momentos de “repensar a vida”, o trabalho, caminhar sob as árvores e ouvir os pássaros, apreciar uma mostra de arte, ir a um concerto, podem ser excelentes antídotos para o estresse. Uma das estudiosa do estresse, Ana Maria Rossi 6,declara que algumas conseqüencias do estresse no organismo são: dores musculares, enxaqueca, insônia, problemas gastro-intestinais, aumento da ansiedade, angústia, irritação, falta de concentração, preocupação e uso abusivo de drogas e álcool.

A quietude até pode ser um bálsamo, mas onde encontrá-la? O silêncio implica em buscar um tempo e um lugar de quietude e solidão, ou somando as duas palavras, de “solitude”. O que desejo salientar é a necessidade do silêncio para quem tem por vocação “apascentar”, cuidar de outras pessoas.

A máxima da ordem beneditina “Ora et Labora” tem muito a nos ensinar neste sentido, até porque os centros de estudo teológico atuais, em nada se parecem com os antigos mosteiros, descritos como lugares de silêncio, meditação, oração e trabalho. Os mosteiros beneditinos preconizam ainda hoje, o ócio como recurso espiritual que se intercala com as outras atividades. Ou seja, não é ficar sem fazer nada, mas é intercalar períodos de descanso entre períodos de trabalho.

O sacerdÓCIO é exercer o ministério, à partir do sagrado e não somente das atividades, é o tempo do descanso na presença de Deus como aquele que busca um amigo com quem se gosta muito de estar. É um enamoramento, é muitas vezes apenas estar junto, em silêncio. Outras vezes, é falar, é rir, é cantar. Estes momentos de intimidade com Deus não se expõem, ou comentam, é como o pudor daqueles que se amam de verdade, certas coisas pertencem só aos dois. Este é o culto do coração. Mas é claro, existe o culto que acontece na comunhão das irmãs e dos irmãos que se reúnem para louvar ao Senhor e ouvir sua Palavra, ministrada pelo sacerdote, pastor, pastora ou algum dos irmãos. Porém, aparentemente, esquecemos o culto do coração. Preparamos pessoas para o pastorado que sabem muito de Bíblia, mas, conhecer a Deus, na concepção dos cristãos ortodoxos, significa “deixar descer a Palavra ao coração”. Henri Nouwen7 escreve que a reflexão teológica inclui as realidades cotidianas, destacando que “seminários e escolas de teologia precisam levar os estudantes à comunhão sempre crescente com Deus, à comunhão mútua e à comunhão com os semelhantes” e que estes centros de treinamento precisam envolver a pessoa como um todo, corpo, mente e coração. E continua: “se há uma crise na educação teológica, ela é, antes de mais nada, uma crise da palavra”. Sem desconsiderar a crítica intelectual e o debate, necessários, Nouwen relembra o fato de que embora os mosteiros já não sejam, nos dias atuais, os lugares mais comuns para a educação teológica, o silêncio continua indispensável...

Pesquisando rapidamente currículos de escolas de teologia à procura de disciplinas que tratem da oração, “lectio divina”, silêncio ou meditação, o resultado surpreendente é de que há pouca preocupação com a espiritualidade daqueles que serão os pastores do rebanho. O preparo teológico resume-se ao preparo intelectual de uma função que é essencialmente pastoral. Ser “pastor” significa cumprir as quatro funções pastorais constantes no Antigo Testamento: que é ser guia (caminhar na frente das ovelhas), prover o sustento (alimentação: pastagens e água), defender e guardar (salvação, libertação), e estar ligado afetivamente ao rebanho (aliança).8 Há, portanto, tempo de trabalho e de descanso para os cuidadores de ovelhas. Mas o que vemos freqüentemente? Pastores e religiosos esgotados, atendendo inúmeros pedidos e demandas, alguns já a ponto de adoecer ou desistir.

O ativismo religioso é uma das causas do desgaste de religiosos, pois sem dúvida, a igreja é o melhor lugar para esconder-se de si mesmo sob uma aparência de espiritualidade. Estão tão ocupados com a obra do Senhor que não tem tempo para o Senhor da obra... O encontro com Deus, o descanso (Shabatt), em Sua presença, a prática da leitura orante da Palavra propiciam o aquietar do coração, e a própria reorganização interna (funcionando como uma decantação). Muitas pessoas dizem não ter tempo, mas o dia tem 24 horas para todos e já dizia Geraldo Vandré que quem sabe, faz a hora, não espera acontecer...

O silêncio pode ser uma benção para ouvidos, olhos, corpos e mentes cansadas, além disto, um pouco de solitude ajuda a rever conceitos, repensar decisões, planejar a vida. Estes princípios podem ser colocados em prática por todos os cuidadores, não somente os pastorais. Requer coragem, e ousadia, sem dúvida, para quebrar os paradigmas existentes. Mas não é esta a proposta do cristianismo?

Notas:
1) Rogério LACAZ-RUIZ. O silêncio intelectual como condição para fazer ciência, disponível na Internet: http://www.usp.br/fzea/zab/solêncio.htm.
2) Carlos HERNANDEZ. Uma viagem ao coração de si mesmo. p. 14.
3) Refiro-me neste texto a pastores e pastoras, sem distinção, o uso do termo pastor visa facilitar a leitura.
4) Domenico di Massa tem defendido a idéia do “ócio criativo”.
5) Paul STEVENS. Disciplinas para um coração faminto.
6) Ana Maria ROSSI. Aprender a lidar com o estresse é uma lição diária. Carreira e Sucesso, n.231. Disponível na Internet em
http://www.catho.com.br/jcs/inputer-view.phtml?id=6690&print=1
7
) Henri NOUWEN. O perfil do líder cristão no século XXI.
8) Elena BOSETTI e Salvatore PANIMOLLE. Deus-pastor na Bíblia.

Reprodução Autorizada desde que mantida a integridade dos textos, mencionado o autor e o site www.institutojetro.com e comunicada sua utilização através do e-mail artigos@institutojetro.com

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Título do artigo: A função vital do silêncio no labor pastoral
Autor: Roseli Kühnrich de Oliveira

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