
Gente em busca da gente: CONFORME-SE à multidão!
Cleison Mlanarczyki
Publicado em 05.09.2008
Este é o terceiro artigo de uma série de sete publicada com o título "Gente em busca da gente". Clique sobre o nome do autor para ler os outros.
Até aqui se percebe que os gestos de Jesus são informativos. Jesus procurou a multidão porque não poderia se omitir de sua missão tendo diante de si todas aquelas pessoas. O coração pastoral do Mestre se rendeu à deriva de homens e mulheres que “pareciam ovelhas sem pastor”. Jesus estava cansado, retirou-se a um lugar deserto para descansar, mas ao ver pessoas, procurou a multidão. Esta era a sua missão.
Mas Jesus procurou a multidão, também, para compreendê-la. Somos livres para pensar que somente a compaixão de Jesus seria o suficiente para levá-lo ao encontro das pessoas, mas parece-me que a deficiência dos discípulos em atender o povo gerou em Jesus a percepção de que, mais uma vez, seria ele o responsável por assumir aquela conturbada situação. Com seu jeito pragmático de ser, Jesus entendeu que após procurar e compreender a multidão era necessário “conformar-se” àquela gente.
Para alguns é difícil entender a conformidade de Jesus. Aliás, para alguns é difícil entender até mesmo o termo “conformar-se”. Sei disso. Foi difícil também para mim, há alguns anos, aceitar que um servo do Senhor precisa conformar-se à multidão. Ora, conformar-se aos preceitos divinos pode ser, conformar-se à Palavra de Deus é aceitável, conformar-se à doutrina da igreja até vai, tudo isto é compreensível. Mas conformar-se às pessoas?
Aquela gente no deserto, sem comida e sem rumo, não estava lá porque havia compreendido a divindade de Jesus ou porque desejava se render aos pés do Mestre, e menos ainda por aceitar o dever de amar a Deus de todo o coração, alma e entendimento, e ao próximo como a si mesmo (Mt 22.37-39). Seria bom se fosse verdade, mas sabemos que não acontece deste jeito. Aquele povo estava no deserto para resolver os seus problemas. Uns queriam comida, outros cura, alguns libertação, e outro tanto desejava matar curiosidades.
Mas o que há de errado nisto? Era tudo gente, não é mesmo? O mesmo tipo de gente presente na igreja todos os domingos. Gente como a gente. E Jesus descobriu isto ao procurar e compreender a multidão. Por isso, a sua próxima atitude foi a “conformação”. Mas conformar-se? Soa esquisito, parece diminuir Deus, quase uma blasfêmia. Por que não dizer “Jesus concordou” com a multidão, ou então, “Jesus admitiu” a multidão? Porque além de concordar e admitir que ali havia gente, Jesus (com)formou-se à multidão.
Conformar-se é diferente de aceitar as coisas simplesmente como são. Conformar-se é diferente de desistir ou pensar que “as coisas são assim mesmo, não tem saída”. Conformar-se, para Jesus, significou “tomar a forma de”. Jesus colocou-se na miserável situação daquela gente e praticou o mais exótico exercício pastoral: a empatia.
Eis um aspecto importante no ministério pastoral! Ao ver pessoas famintas, sedentas e longe de casa, Jesus as procurou e as compreendeu, para em seguida assumir a sua forma. Por favor, entenda a complexidade da ação do Mestre. Jesus colocou-se no lugar de pessoas para ver o que viam, ouvir o que ouviam e sentir o que sentiam.
Jesus se conformou à multidão porque não há motivos que nos impeçam de aceitar ser este o plano perfeito de Deus: “sentir na carne” a vida de gente. Um cântico primitivo registrado por Paulo em sua carta à igreja de Filipos evidencia este terceiro gesto de Jesus: “Embora sendo Deus, não considerou que o ser igual a Deus era algo a que devia apegar-se; mas esvaziou-se a si mesmo, vindo a ser servo, tornando-se semelhante aos homens. E, sendo encontrado em forma humana, humilhou-se a si mesmo e foi obediente até a morte, e morte de cruz! Por isso Deus o exaltou à mais alta posição e lhe deu o nome que está acima de todo nome, para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho, nos céus, na terra e debaixo da terra, e toda língua confesse que Jesus Cristo é o Senhor, para a glória de Deus Pai” (Fp 2.6-11).
É bom saber que Deus se conforma conosco. É bom saber também que nós, pastores, somos chamados pelo Senhor para conformarmo-nos com as velhas dispostas pelo caminho que Ele mesmo já trilhou.
Conforme-se à multidão.
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Título do artigo: Gente em busca da gente: CONFORME-SE à multidão!
Autor: Cleison Mlanarczyki