
Você sabe com quem está falando?
Eduardo Cupaiolo
Publicado em 18.04.2008
A estória é mais ou menos assim. Alguém liga às 2 da manhã para o quartel. Um dos sentinelas de plantão atende o telefone.
- Boa-noite.
- Boa-noite.
- Chame o Capitão Miranda! Quero falar com ele i-me-di-a-ta-men-te – grita a voz do outro lado da linha.
- Às duas da manhã? De jeito nenhum – retruca o sentinela pensando que era trote.
- Às duas, às três, o que me importa? Chame já o Capitão Miranda! – insiste a voz já aos berros.
- Que isso, Seo Zé, tá nervosinho, tá?
- Seo Zé? Seoooo Zééééé? Por acaso o senhor sabe com QUEM está falando?
- Não, na-na verdade não-não tenho, não-não senhor! – começa a gaguejar o sentinela já reconhecendo a voz do outro lado da linha.
- Pois bem. É o General Armando Lopes de Almeida! General Armando Lopes de Almeida! Ouviu seu insubordinado!
- Ge-ge-ge-neral! Gene-gene-nene-gegenene-neral, é o senhor? O senhor sabe com QUEM está falando?
- Não. É lógico que não!
- Graças a Deus! Graças a Deus – suspira aliviado o sentinela enquanto, num golpe rápido, desliga telefone.
Sinceramente acredito não ser apenas o General Armando Lopes de Almeida quem não sabe com quem estava falando. Acho mesmo, ser essa dificuldade uma epidemia do vírus da indiferença e que já contaminou, se não todas, quase todas as nossas relações.
Se duvida, permita-se um teste bem simples. Responda rápido: com quantas pessoas você acha que se relacionou hoje?
Chegou num número?! Ok. Mas sugiro que refaça o cálculo. Sugiro avaliar se não errou muito. Se não pensou em 10, mas foram 20. Se não pensou em 20, mas foram 40, 50 ou 120. Talvez o erro de cálculo seja ainda maior. Quem sabe de 9 para 1. De cada 10, lembra de 1 e se esqueceu de 9.
- Nove! Mas que nove?!
Os nove com quem se relacionou nas últimas 24 horas, mas nem notou.
Aqueles com quem pegou o elevador, cruzou no corredor ou na portaria do prédio, no ônibus, no metrô, no táxi, na lanchonete, no restaurante, no hospital, no teatro, no guichê do cinema, no caixa do banco, na loja, na garagem do shopping, na porta do supermercado.
Mas também aqueles nas salas de reunião do escritório, naquele curso, na academia, no clube, na piscina, no vestiário, no estádio de futebol, na porta da escola das crianças, no sinal de trânsito.
Ou aqueles na sua sala, na sua cozinha, no seu quarto ou na sua cama de casal.
Gente. Ou ainda melhor, quase-gente, que você cumprimentou com um aceno de cabeça, um bom dia, deu um oi, acenou, pediu licença, atropelou na catraca ou para pegar o elevador. Alguém para quem pagou a conta, com quem reclamou, de quem recebeu, pra quem perguntou, para quem não respondeu.
Pessoas. Pessoas que deveriam ser de carne e osso, mas lembram mais o Fred, o manequim melhor amigo do personagem de Will Smith em Eu sou a Lenda. E bem, bem menos importante para você do que a cachorra dele, para ele.
Gente. Pessoas. Mas não de verdade. Apenas personagens coadjuvantes do episódio de hoje de sua biografia. Talvez, nem isto. Só figurantes. Lá no fundo da cena compondo a multidão. Com rosto. Mas sem alma nem fala. Quem sabe, só um artifício cenográfico. Apenas mais um móvel, mais um utensílio. Ou um detalhe da paisagem.
E não duvide, nas nossas organizações a epidemia já chegou faz tempo. Nós, você e eu, somos portadores do vírus e as infectamos.
Na maioria delas, já não somos indivíduo, no singular. Somos sempre funcionários, colaboradores, associados – sempre no plural, sempre no plural. Se muito, somos parte da área de marketing, de uma equipe ou membros de um projeto.
Para nós, de quem compramos, é apenas “fornecedor”. E para quem vendemos, “cliente”. E isto basta. Não precisamos saber quem de fato são, com quem estamos falando. São apenas aqueles-aquilos, gente virtual com utilidade de coisa. São apenas os Andrés da XPTO, os Joãos da ABC, os Pedros da XYZ.
São apenas rótulos em cartões de visita. Todos com o logotipo da marca, mas sem rosto, sem gosto, sem cheiro, sem cor, sem alma. Gente que só é gente por que tem sobrenome da empresa, ramal no escritório, endereço de e-mail e CNPJ.
Verdade mesmo, é que nem você nem eu, temos a menor idéia com que estamos falando.
Não sabemos que a senhorinha que serve o café se chama Elisa. Que tem 2 filhos. Que um deles tem necessidades especiais. Nem nos interessará saber que o quanto ganha não é nem o suficiente para as suas necessidades básicas, que dizer das especiais do filho.
Não sabemos que o Agenor, o porteiro do prédio, mora na Vila dos Milagres, mas que milagre mesmo é ele ainda estar vivo depois do assalto que sofreu no mês passado. Afinal, problema de segurança quem tem mesmo sou eu que preciso andar de carro blindado...
Não sabemos nada – nem o nome – daquela caixa do banco que sempre nos atende. Da moça da loja, do atendente da farmácia, do garçom da lanchonete, do dono da padaria.
A verdade, a verdade mesmo, é que não sabemos com quem estamos falando. Na era do contato virtual, do callcenter, das relações impessoais, aprendemos a nos livrar do desconforto de saber quem é o outro.
Afinal, o outro, sejamos bem sinceros, é apenas quem serve para nos servir. E, infelizmente, é também quem nos perturba o sono, nos atrapalha no trânsito, nos impede de realizar nossos desejos mais mesquinhos. O outro é quem fica na nossa frente na fila, respira nosso oxigênio, rouba nosso tempo, consome nossas energias e os recursos finitos da terra. Afinal, bom mesmo seria que não existisse o outro, nenhum outro.
Penso diferente, penso ser desejável aprendermos logo a saber com quem estamos falando. Assim, sairíamos logo de dentro de nós, de nosso ponto de vista, de cima dos saltos, do alto da muralha, de dentro do castelo, de cima do Monte Olímpio, de nossas torres de cristal, ouro e marfim. Quem sabe aí descubramos, surpresos, que aquele cara com quem não sabemos que estivemos falando, é o cara cuja cara aparece todos os dias no espelho do nosso banheiro.
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Título do artigo: Você sabe com quem está falando?
Autor: Eduardo Cupaiolo