
Há uma boa química entre nós?
Carlos Sider
Publicado em 23.08.2010
É muito comum ouvir que os líderes e membros de uma liderança precisam ter uma boa química para que a coisa funcione. Concordo. A soma de vários reagentes produz resultados surpreendentes. Palavra de (engenheiro) químico. Mas, igualmente comum é ver que os sentidos e as interpretações dados a este "há uma boa química entre nós" variam de A a Z, de 0 a 1.000.000. Como em todos os casos onde usamos uma metáfora, a aplicação da mesma acaba sendo personalizada conforme os interesses e intenções do usuário. Por conta disso, eu o convido a visitar comigo alguns significados e paralelos, da química para o dia a dia da liderança:
1º) Para haver uma boa química entre duas pessoas é necessário haver reação entre elas
Este é o primeiro e mais puro significado. Se duas substâncias têm química entre elas, é porque elas reagem entre si. Elas se atacam, deixam de ser elas mesmas e produzem algo novo, o produto de sua reação. Misture um ácido e uma base (alcalina) e você obtém certo sal e água. Não é só mistura; é reação, até explosiva em certos casos. Sem reação não estamos falando de química, estamos falando de física, ou quando muito, de físico-química.
Em minha experiência profissional e ministerial, os períodos mais produtivos e dos quais guardo mais saudade foram exatamente aqueles em que eu e meus parceiros (superiores, paralelos ou subordinados na hierarquia, não importa) formávamos uma mistura meio que explosiva. Todos eram ferrenhos defensores de suas opiniões e crenças, mas todos queriam um mesmo resultado. Éramos diferentes, opostos até. Mas justamente por isso completávamos uns aos outros.
A convivência não era necessariamente confortável, mas éramos ativos, reativos, produtivos. Meus melhores amigos de hoje são aqueles com os quais já tive ferrenhas discussões. Com os quais reagi, e eles comigo. Mas nestas reações eu cresci, aprendi coisas novas. Meus melhores parceiros de trabalho e ministério foram e são aqueles que não têm a mínima "papa na língua" de dizer o que estou fazendo de errado, mesmo que isso produza algum "calor" na relação. E vale o contrário: os piores amigos (que francamente não posso chamar de amigos, talvez só de conhecidos), os piores parceiros, foram e são aqueles que dizem amém a tudo o que eu digo e faço.
Para haver uma boa química é necessário haver reação. E para haver reação...
2º) É necessário que os reagentes sejam diferentes entre si
Misture dois iguais e você só terá a mesma coisa. Iguais não produzem nada diferente do que já são. Igual mais igual é igual a igual. Nada de novo. Tudo se mantém como sempre foi. Os iguais podem até ficar lá, confortáveis, mas o bom líder sabe que o seu negócio é mudança. O negócio de Deus é mudança.
3º) Também é necessário que os reagentes sejam compatíveis e reativos
Em outras palavras, eles precisam, conforme sua natureza, serem complementares e reativos, e que estejam dispostos a reagir, a interagir. Podem até ser diferentes, mas se um não "despertar" o outro, se um não "provocar" o outro, continuam sendo uma mera mistura de dois diferentes. Por mais que você agite e agite, nunca dá química. Assim que acaba a agitação, vai cada um para o seu lado, inalteráveis. Incompatíveis, não-reativos, apáticos, chame do que quiser. Misture-os, gaste tempo e energia com isso, mas você continuará sem novidade alguma. E sem mudança. Na liderança são os que seguem cantando "tu no teu cantinho e eu no meu"
Há outro tipo de "conforto" que está longe de ser uma boa "química". Ocorre quando os componentes da mistura são diluentes, não reagentes. Um dilui o outro e nada mais. Como quando se mistura tinta a óleo com aguarrás. Pode até ajudar na hora da pintura, mas assim que a aguarrás vai embora (evapora) fica a mesma tinta original. Novamente, nada muda.
4º) É certo que os reagentes "pagam o preço" por sua reação.
Quando ocorre reação química, os reagentes entregam-se ao consumo de si mesmos. Deixam de ser o que eram originalmente, e passam a interagir para que um novo produto se forme. E muitas vezes não sobra nem lembrança dos componentes originais. O que fica de bom é o produto resultante, o que eles se tornam a partir do momento que reagem.
5º) Nem mais, nem menos, mas a dose certa de cada um
Os químicos chamam de estequiometria, ou seja, quanto de cada reagente é necessário para reagir com o outro. Mais de um e menos do outro? Tempo perdido que pode estragar o resultado. Na liderança costumo chamar de "dar o devido espaço a cada um com sua especialidade". Cada macaco no seu galho. Todos na mesma árvore, mas cada um no seu galho.
6º) Para haver boa química, as vezes é necessário haver o ambiente adequado
Há certas reações que só acontecem se houver calor, ou pressão, ou ambos, ou nenhum dos dois. Depende de cada caso. Às vezes a reação só ocorre se algum catalisador for adicionado (outro agente químico que não necessariamente participa da reação, mas tem papel importante para que ela aconteça). Você deve estar lendo isso em algum microcomputador que tem bastante plástico. Ele foi formado em uma reação com catálise e com uma série de "agentes promotores". Na liderança, entendo que é respeitar o espaço de cada um. Saber quem trabalha melhor em silêncio, quem trabalha melhor em grupo. Saber quem consegue atuar sob pressão, quem não. É prover o melhor ambiente para que cada reação ocorra adequadamente.
7º) Para saber se a "química é boa ou má", olhe para o resultado!
Há reações desejáveis. Você deve estar lendo isso dentro de algum aposento construído com vigas e colunas de concreto. Concreto que não existiria se um monte de calcários, silicatos e "amigos" não se dispusesse a reagir com água e outras coisas para endurecer o concreto. Da última vez que você tomou um remédio, a reação do mesmo com alguma coisa em seu organismo deve ter produzido a cura.
Mas há reações indesejáveis. Tome um porre de álcool e diga se ocorre algo de bom em seu organismo. Há química, e ela é péssima pelo resultado. Esfregue um monte de ácido no mesmo concreto, e você verá como há corrosão. Em pouco tempo vai-se o concreto, vai-se o ferro, e a casa cai. É química destrutiva.
Portanto, nem toda reação produz coisa boa. Da mesma forma que nem toda árvore produz bons frutos, nem todo líder, nem toda associação produz bons resultados.
E então, há uma boa química entre você e seus pares? O que você chama de "química" é química mesmo?
Artigo gentilmente cedido pelo autor e publicado originalmente pela revista Voice.
Para reprodução favor encaminhar solicitação para o e-mail csider@terra.com.br.
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Título do artigo: Há uma boa química entre nós?
Autor: Carlos Sider