
A regra de ouro e o egoísmo razoável!
Helerson Alves Nogueira
Publicado em 05.04.2010
"Tudo aquilo, portanto, que quereis que os homens vos façam, fazei-o vós a eles, pois esta é a Lei e os Profetas" (Mateus 7.12 - Bíblia de Jerusalém).
Não era inédita esta máxima ensinada por Jesus aos seus discípulos. Na verdade, Jesus recorre a um pensamento muito antigo e bem difundido desde a antiguidade entre os judeus. A ética e a moral proposta por Jesus se deixa moldar por aquilo que, já há muito tempo conhecido pelos discípulos, era agora colocado em termos mais positivos, ou seja, a grande questão (particularmente ligada à oração e a vida piedosa) não era apenas saber evitar o julgamento alheio precipitado ou profanar as coisas santas.
Sobretudo, Jesus insiste em uma atitude pró-ativa não apenas na vertical (em relação a Deus), mas numa vida regrada pela clara consciência de que ser discípulo não nos isentará da chuva e do sol que molha e esquenta a todos (a dimensão horizontal das relações em sociedade independe de credo, confissão e adesão religiosa).
A "regra de ouro" nos ajuda a recordar que não somos (nós, os crentes e discípulos) gente de primeira categoria enquanto o resto da humanidade luta e reluta para não afundar no lamaçal da mediocridade. Pensando nisso, recorremos aqui a um pensamento do eminente estudioso da sociedade, Raymond Aron, para nos ajudar a entender o típico "senso comum" sobre o sentido da ética e da moral.
Ele nos fala dos 03 (três) níveis básicos de moralidade que vigoram nas relações humanas e institucionais (pelo menos na grande maioria das culturas ocidentais). O "primeiro nível" é o nível mais alto, é, portanto, altruístico e abnegado. Neste nível estamos falando dos santos e dos mártires.
Existe o "segundo nível" que é o nível mais baixo. Aqui encontramos os criminosos, os desrespeitadores dos direitos de outros e da Lei. Mas, entre estes dois níveis existe um "nível intermediário", que Raymond Aron curiosamente chama de "egoísmo razoável", um nível onde nem o santo e nem o criminoso se encontram. É o nível da busca do próprio bem estar dentro dos limites de responsabilidade social e da Lei!
Pois bem, se pensarmos agora em nossa atual conduta como discípulos de Cristo Jesus, onde nos "encaixamos" melhor? Estaríamos mais próximos dos valores e princípios da "regra de ouro" apresentada por Jesus ou estamos nos deixando influenciar ou nos identificando mais com o "egoísmo razoável" que Aron aponta em seus estudos? Ou será que poderíamos falar de uma "terceira via" intermediária? Estaríamos engajados num projeto de fusão dos dois conceitos?
Na verdade, precisamos repensar nossa conduta com menos "vias, viés e opções possíveis", caso contrário, nos tornaremos portadores de uma mensagem cristã "intermediária", sem grandes exigências e sem renúncias e, por isso mesmo, com pouco poder de impactar e transformar a nossa geração.
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Título do artigo: A regra de ouro e o egoísmo razoável!
Autor: Helerson Alves Nogueira