
Níveis de maturidade da Igreja
Ronaldo Pontes Moura
Publicado em 10.08.2010
Há muito tempo as igrejas enfrentam problemas de continuidade. Nossas lideranças são personalistas e nossa forma de organização também é. Isso significa que dependemos do humor, disposição, escolaridade e maturidade de nossos líderes para termos um bom ou mau desempenho em nossas atividades. E isso acontece tanto nas igrejas quanto nas organizações denominacionais.
É comum ver pessoas suspirando e comentando saudosamente os tempos do Pastor Fulano ou do irmão Sicrano à frente de alguma obra, enquanto não se desenvolve uma capacidade de continuar ou aprimorar o que já foi feito de bom e extinguir ou corrigir o que não é tão bom assim em nosso meio.
O mais interessante, no entanto, é que algumas estruturas eclesiásticas observadas pelo crivo da Administração, possuem um nível de organização altíssimo e uma governança exemplar. Os negócios são transparentes, tratados em assembléias públicas, regradas e com procedimentos bem definidos. A prestação de contas é constante, revisada por conselhos administrativos e conselhos fiscais. Os presidentes são submetidos tanto aos conselhos quanto ao crivo das assembléias, sempre soberanas nos processos decisórios. Tudo como descreve o código das melhores práticas do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC).
Como explicar, então, essa dicotomia? Por que temos tamanha confusão entre uma estrutura organizada e uma prática amadora, personalista?
Recorremos a um modelo de análise de maturidade desenvolvido para os programadores de sistemas e utilizado pelos auditores de governança organizacional para obter essas respostas.
O CMM (Capability Maturity Model) ou Modelo de Maturidade de Capacidade (competências) estabelece uma estrutura bem simples para a verificação dos níveis de maturidade de uma organização.
Segundo o CMM os processos (atividades regulares de trabalho) de uma organização podem ser avaliados e classificados em apenas cinco níveis:
1. INICIAL: quando se encontram no nível inicial, os processos são ad hoc (para isso), ou seja, as pessoas se mobilizam, executam, comemoram e se desmobilizam, sem deixar rastros, anotações ou lições aprendidas. Também são processos caóticos, orientados pelo pensamento abstrato, favorecendo a personalização e o heroísmo das lideranças. As pessoas fazem "como sempre fizeram" ou "como o pastor mandou" sem se importar muito com a aprendizagem e a disseminação de conhecimento.
2. REPETÍVEL: os projetos ou processos podem não se repetir para todos os níveis da organização, mas já se repetem seguindo algum padrão. Algumas práticas de gerenciamento de projetos podem ser adotadas para diminuir as tensões, mas não são as preferidas dos grupos. Quando planejados, os projetos seguem à risca o planejamento. Os custos ainda tendem a extrapolar os orçamentos. Mas são estabelecidos critérios mínimos de disciplina para que se obtenha o sucesso de projetos anteriores.
3. DEFINIDO: um nível de maturidade definido é fundamentado em métricas, metas, indicadores e objetivos. Os processos são bem caracterizados e fundamentam-se em padrões de gerenciamento bem aceitos. Os projetos são mais detalhados. O conjunto principal de atividades, o alcance e a discriminação das atividades de projetos são mais minuciosos. A documentação é mais precisa.
No nível 3 de maturidade, as ações gerenciais são proativas, ou seja, as medidas para o bom andamento dos processos ocorrem antes da execução.
4. GERENCIADO: nesse nível de maturidade obtém-se um foco contínuo na maturidade dos processos e projetos. As medições são precisas. Os custos são controlados com maior nível de detalhamento. Os processos são melhorados continuamente.
5. OTIMIZADO: tendo conquistado o nível 4 de maturidade, a organização pode concentrar-se na automação de seus processos. A melhoria contínua é o foco. A tecnologia da informação passa a compor a base das ferramentas gerenciais e da comunicação. A estatística é utilizada como meio de verificação dos resultados.
Com base nesses parâmetros podemos observar que, apesar de termos toda a estrutura de governança propícia ao desenvolvimento de maturidade, nossas organizações interna e externas às igrejas ainda se encontram no nível 1.
Para que possamos evoluir para o nível 2 de maturidade, precisamos pensar de forma menos emocional, estabelecer critérios para a aprovação de novas ações e também para a avaliação do que é feito. Precisamos estabelecer a prática da documentação de nossas atividades, não apenas com relatórios prestados ao final de cada evento, mas com a anotação dos planos prévios à sua execução.
Um filme de Hollywood lançado há alguns anos, protagonizado por Will Smith, inicia com um consultor dizendo em uma palestra algo parecido com isso: "primeiro você precisa dizer ao seu público o que pretende fazer. Depois você precisa fazer o que disse que ia fazer e contar ao seu público que está fazendo. Por fim, você precisa dizer a ele que fez".
É assim que funciona o desenvolvimento da maturidade.
O nosso desafio, então, é sair do nível 1 e passar para o nível 2 de maturidade ao mesmo tempo em que lutamos para atingir nossas metas planejadas.
Resta ainda mais uma pergunta: se melhorarmos o nível de maturidade de nossos processos, os líderes serão dispensáveis?
Claro que não. Assim como os apóstolos fizeram elegendo diáconos para organizarem os "processos comunitários" para que pudessem se dedicar exclusivamente à pregação da mensagem, o consolo e a expansão do reino, nossas igrejas e organizações denominacionais podem também, aprimorar seus processos e liberarem os pastores para pastorear, consolar, visitar, desenvolver, acompanhar, anunciar a mensagem de salvação, ensinar e orientar seus rebanhos.
Da mesma forma, os líderes denominacionais poderão estabelecer padrões e seguir diretrizes de planejamento, atuar com inovações estratégicas e contribuir para a expansão do reino sem a necessidade de desenvolver novos aprendizados a cada eleição. Organizações maduras diminuem os riscos de continuidade.
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Título do artigo: Níveis de maturidade da Igreja
Autor: Ronaldo Pontes Moura